Paulo Guedes reclama de viagem de doméstica à Disney e escancara visão de país

Paulo Guedes é o representante máximo do governo Bolsonaro.

Leonardo Sakamoto em 12/2/2020

“O câmbio não está nervoso, [o câmbio] mudou. Não tem negócio de câmbio a R$1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada.”

Durante um evento em Brasília, na quarta [12/2], o ministro da Economia, Paulo Guedes, cometeu novo sincericídio. Percebendo o absurdo, quis corrigir, afirmando que (antes que o acusassem daquilo que ele realmente disse), na sua opinião, “todo mundo tem que ir para a Disneylândia, conhecer um dia, mas não três, quatro vezes por ano”. E sugeriu substituir com atrações nacionais – para a alegria de seu colega de Esplanada e dono de laranjal, Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo.

Antes que alguém venha correndo passar pano, isso não foi um mal-entendido – então, por favor, não subestime nossa inteligência. E isso também não foi um erro – por favor, não subestime a inteligência do ministro. Isso é Paulo Guedes, tão relaxado, que escancara sua visão de mundo, colocando as coisas no lugar que – segundo ele – elas deveriam ocupar. Pobre trabalha aqui, rico viaja para onde bem entender.

Reclamar de trabalhadoras empregadas domésticas, cuja maioria é negra e pobre, que conseguiram – com muito sacrifício – conquistar o direito de escolherem para onde viajar e decidiram levar seus filhos à Disney, nos Estados Unidos, é paráfrase de “este aeroporto está parecendo uma rodoviária” – que se tornou mantra de nacos abjetos da elite econômica e da classe média quando pobre começou a andar de avião.

Parasita
No último dia 7 de fevereiro, o ministro chamou os funcionários públicos de “parasitas” do orçamento nacional, em um evento no Rio de Janeiro. “O hospedeiro [governo] está morrendo, o cara virou um parasita”, afirmou, criticando a política de aumentos salariais de servidores.

Generalizou o trabalho de servidores públicos, que cuidam da nossa saúde, de nossa educação, de nossa segurança.

Ironicamente, o ministro vem do sistema financeiro, em que há muita gente séria e honesta, mas também muitos que poderiam ser chamados de parasitas por lucrar com a especulação financeira, apostando contra países e economias e levando muita gente à bancarrota. Diante da repercussão negativa, disse que sua fala foi descontextualizada e que reconhece a qualidade do serviço desses trabalhadores, citando até a família e amigos.

AI-5
“Não se assustem, então, se alguém pedir o AI-5.” O ministro da Economia, de tempos em tempos, nos lembra o quanto é fã do modelo chileno, com uma economia neoliberal erguida sobre as fundações do governo autoritário, assassino, estuprador e torturador do general Augusto Pinochet.

A declaração foi dada, no dia 25 de novembro, em uma coletiva de imprensa em Washington DC. De forma irresponsável, chamou possíveis manifestações de rua contra as reformas de “quebradeira”, fazendo uma analogia ao que está acontecendo no Chile. Vale lembrar que o país sul-americano está em convulsão por conta da falta de serviços públicos de qualidade, das baixas aposentadorias mas, principalmente, da violência com a qual o governo Sebastián Piñera reprimiu as manifestações. Centenas de pessoas ficaram cegas pela ação da polícia.

“Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo pra quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem, então, se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente?”, disse.

No dia 31 de outubro, o deputado Eduardo Bolsonaro havia sido duramente criticado por afirmar, em uma entrevista à jornalista Leda Nagle, que “se a esquerda radicalizar”, o governo terá que dar “uma resposta que pode ser via um novo AI-5”. O ato institucional, de 1968, entregou ao Palácio do Planalto o poder de fechar o Congresso, cassar direitos e censurar e adotar violência contra opositores.

Vale lembrar que o Chile conseguiu cortar gastos em educação, em saúde, em habitação sem questionamento porque quem questionava, morria. Como Guedes não reclamou das manifestações de rua a favor de seus projetos, concluímos que ele quer apenas calar um dos lados.

Após as declarações, questionado se achava concebível a volta do AI-5, desdisse. “Isso é inconcebível. Não aceitaria jamais isso. Está satisfeita?”

Pobre não sabe poupar
Ao defender o regime de capitalização (no qual cada um faz uma poupança para a sua própria aposentadoria), em detrimento ao de repartição (em que os trabalhadores da ativa contribuem para as pensões dos aposentados), Guedes lamentou que o Congresso Nacional tenha vetado a previsão de mudança de um para outro. E mergulhou em insensibilidade e preconceito.

“Com ele, você colocaria o Brasil para crescer, aumentaria taxa de poupança, educaria financeiramente famílias mais pobres. Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo”, afirmou em entrevista à Alexa Salomão, da Folha de S.Paulo, em novembro.

O fato das pessoas deixarem de poupar, em grande parte das vezes, não é irresponsabilidade com o planejamento do futuro, mas incapacidade de sustentar o presente, o que dirá gerar excedente. A isso, damos o nome de pobreza. Isso sem dizer o óbvio: com o país derrapando para sair de uma crise econômica sem precedentes, o ministro deveria estar agradecendo que o povo consome. Mas ele deve ver esse povo pobre, que compra alimentos, roupas e calçados e paga ônibus e trens, fazendo girar a economia, como um banco de otários que não sabem investir em um bom IPO.

Meio Ambiente
Diante do frio no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, Paulo Guedes afirmou que o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza. Disse que [os pobres] “destroem porque estão com fome”.

Provou que vive numa realidade paralela, onde a Vale não causou duas catástrofes de lama tóxica em Brumadinho e Mariana, destruindo vidas pelo caminho. Onde não há indígenas (que detém os maiores índices de preservação de vegetação nativa em seus territórios) sendo expulsos de suas terras em nome da expansão agropecuária, como no Mato Grosso do Sul. Onde o comportamento avarento de indústrias impediu a redução do enxofre no combustível usado por veículos, causando câncer e morte nas grandes cidades.

A devastação ambiental no Brasil é fruto de um consórcio entre parte da elite econômica e a elite política. Pobres são, quase sempre, as vítimas. Exceto, para o ministro.

São muitos outros exemplos. Da defesa de que aumento real do salário mínimo causaria demissão em massa até endossar um projeto para geração de empregos aos mais jovens (Verde e Amarelo), que taxa em 7,5% quem está na rua da amargura recebendo seguro-desemprego para financiar o primeiro emprego de outras pessoas, há um rosário de anedotas.

Com base nas falas polêmicas de Guedes, podemos constatar que o ministro não gosta muito de pobre (Disney, poupança, danos aos meio ambiente), tem ojeriza a funcionário público (parasita, para ele, não é filme ganhador do Oscar) e não faz questão de democracia (insinuando um novo AI-5). Não admira que seja considerado um dos principais ministros de Bolsonaro.

Por isso, acho justo incluir definitivamente o ministro na ala ideológica do governo. Assim, garantimos que não será mais necessário tanta gente vir defendê-lo, dizendo que ele não quis dizer o que deveras disse, sempre que dá uma de “Guedes Sincerão”. E, além do mais, deixamos mais claro o que ele quer para o Brasil e para os brasileiros. Pelo que deu para ver até agora, não é algo bonito de se ver.

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