A primeira convenção brasileira sobre Terra plana foi exatamente como você imagina

No geral, meio deprê.

Marie Declercq, via VICE Brasil em 12/11/2019

Não sei se poderia chamar de justiça poética, mas que gostosa surpresa foi descobrir que FlatCon, a primeira convenção brasileira sobre Terra plana, aconteceria em frente a uma loja maçônica gigantesca na capital de São Paulo. O local foi divulgado 12 horas antes do evento em um grupo de WhatsApp para todos os inscritos. Eu nem tinha pisado na convenção e o pau já estava torando no grupão de zap dos terraplanistas.

Acreditar em Terra plana não é só desacreditar a ciência, mas também acreditar nas centenas de teorias da conspiração sobre como um seleto grupo de poderosos esconde a verdade sobre a terra supostamente ser fixa, estacionária e, claro, plana. E isso inclui os maçons e, claro, a narrativa antissemita de que famílias judias multibilionárias, como os Rothschild, controlam o mundo. Por conta disso, muitos adeptos ficaram preocupados com tanta proximidade dos maçons. “E esse símbolo na frente do local?”, escreveu um dos participantes, visivelmente incomodado.

Não foi exatamente fácil alugar um auditório para o evento, como explicou Jean Ricardo, um dos organizadores. Mais ou menos um mês antes da conferência, o primeiro local – uma escola católica – rescindiu o contrato após descobrir o tema da conferência. Mesmo com a explicação do organizador, alguns inscritos falaram em desistir, mas as negativas eram abafadas pelo pessoal do deixa-disso.

“Ué, você não usa L’Oréal? Não usa produtos d’O Boticário? Tudo isso é maçom. Não come produtos Nestlé? Maçom! Já viu a última propaganda da Lâncome que a modelo espirra o perfume pro céu em cima de uma montanha? Isso é maçonaria”, argumentou uma senhora em um dos áudios enviado para o grupo.

No fim das contas a proximidade física de conspiracionistas com uma loja maçônica gigante não impediu que uma fila considerável se formasse na porta do teatro para o credenciamento e a retirada de camiseta, caneca e revista do evento. Já na fila, uma equipe de reportagem com o indefectível símbolo da Globo entrevistava alguns dos presentes. A própria presença da emissora logo no começo do evento foi, digamos, um gatilho para os terraplanistas, porque 1) “a Globo é um lixo”; e 2) “até no símbolo da TV eles querem zombar da gente”. O repórter passou alguns minutos conversando com um homem de 30 e poucos anos, que usava boné e uma camiseta com a frase “The Earth Is Flat” (“A Terra é plana”). Perguntou todas as perguntas que eu, você e o resto do mundo gostariam de fazer para uma pessoa que não acredita que a terra é esférica e gira em torno do sol.

Após o repórter se afastar, um dos amigos do entrevistado reclamou: “Porra, os caras só vêm aqui pra zoar com a gente”. E assim veio o primeiro tapa de empatia na minha cara, porque estava lá para fazer a mesma coisa que os outros jornalistas. Meu termômetro empático variou consideravelmente durante as 8 horas de evento, dependendo das falas que ouvia nos corredores. Cinco minutos depois do cara reclamar de ser zoado, ouvi um senhor de seus 50 e poucos comentando que não achava correto as escolas ensinarem só o modelo heliocêntrico.

Loja maçônica na frente do Teatro Liberdade, onde a convenção aconteceu. Foto: Marie Declercq/VICE.

Mais de dez palestrantes foram convidados para compor a programação, comentando diversos assuntos que giram em torno (desculpa) da Terra plana. Todos são youtubers, sem exceção. Reconheci também alguns membros do staff do evento, de vídeos que assisti sobre o tema. No próprio grupo de WhatsApp alguns pediam para compartilharem seus vídeos. Nem duas horas depois da conferência, já encontrei vídeos sobre ela. O terraplanismo contemporâneo é 100% dependente do YouTube e do Facebook.

Como já esperado, grande parte do público era masculino. Lembro que ao ser anunciada e viralizar rapidamente, a conferência foi ridicularizada por um site de entretenimento pelo fato de só ter palestrantes homens. Não sou de reclamar dos limites ridículos que esse assunto da representatividade costuma atingir às vezes, mas pela primeira vez achei positiva a falta de mulheres. O número esmagador de homens adeptos da Terra plana, cabe dizer, é algo de que a “cena” está bem ciente. Tanto que a revista distribuída para quem pagou o lote mais caro (Revista Terra Plana – Uma Resposta Para A Ciência de Verdade) inclui uma “Coluna Mulher”, em que algumas adeptas opinam sobre o tema: “A Nasa é uma agência muito mais de propaganda do que de ciência propriamente, a promover uma cosmologia baseada no ocultismo e na cabala”.

Edson douglas K. Neves posa ao lado de suas maquetes de terra plana. Foto: Marie Declercq/VICE.

Nem todos os participantes estavam 100% convencidos sobre a teoria. Um deles era o músico Edson Douglas K. Neves, que vendia maquetes e mapas da terra plana. Simpático, contou que descobriu o assunto no YouTube, assistindo vídeos sobre teorias da conspiração e arqueologia especulativa. No entanto, não se considera um terraplanista fervoroso. “A princípio achei uma loucura, mas pensei que se alguém tá falando isso, alguma coisa tem. O assunto pra mim é complexo. Não tenho certeza de nada, mas tô aberto a ouvir. De certa forma, não consigo mais acreditar completamente no modelo tradicional,” disse. “Pra mim não é válido levantar uma bandeira, mas na medida do possível a gente sempre acaba falando sobre o assunto.” As maquetes e mapas de Edson, feitas de jornal e papel crepom, variavam de 20 a 80 reais.

Curiosos também circularam pelo auditório, como os estudantes de Filosofia Ricardo Mantovani e William Cardoso. Segundo eles, vieram por gostarem de “coisas exóticas”. “O primeiro contato que tive foi pelo documentário da Netflix. Aí vi que tinha gente que acredita nisso no Brasil, me interessei e vim. Não tenho nenhuma convicção, vim para conhecer”, explica Ricardo.

William e Ricardo, dois curiosos, pousam em frente a um dos mapas espalhados pelo teatro. Foto: Marie Declercq/VICE.

A primeira palestra foi de Anderson Neves, um homem de terno e gravata que se apresentou para o auditório quase lotado (o Teatro Liberdade possui capacidade para 900 lugares) como administrador de empresas e programador neurolinguístico, uma abordagem de comunicação criada nos anos 1970 que hoje em dia se tornou sinônimo para coach. Durante mais de uma hora, Neves deu uma introdução completamente caótica sobre terraplanismo, citando diversas teorias da conspiração clássicas como a HAARP, chemtrails e “aqueles que controlam tudo”, arriscando uma explicação científica sobre a teoria não comprovada da gravidade até ser interrompido pelo organizador do evento quando seu tempo se esgotou.

Uma coisa é você passar três horas vendo vídeos sobre a terra ser plana. Outra é ver um homem na sua frente, falando essas coisas com uma certa autoridade, tendo ao seu redor muita gente assentindo com a cabeça. Em determinado momento, Neves mostrou um vídeo de um balão de hélio atingindo altas altitudes e disse: “Não tem curvatura. Estão vendo?” (Uma explicação: quem acredita que a terra é plana questiona o formato esférico porque não consegue enxergar a tal da curvatura do planeta quando viaja de avião ou olha para o horizonte.) O problema é que eu estava vendo a curvatura naquele vídeo. Estava ali. Era inegável que tinha uma curvatura. Olhei à minha volta procurando alguém que estivesse vendo a mesma coisa. Enxerguei na plateia muita gente séria, algumas pescando, várias concordando. Logo, o palestrante respondeu minha dúvida. “Passamos muito tempo aprendendo essas coisas, e é muito difícil abandonar esses ensinamentos errados.”

Considerando outras teorias da conspiração e o mar de chorume na forma de desinformação que tomou conta das redes sociais nos últimos anos, acreditar que a Terra é plana parece quase inofensivo à primeira vista. Sinceramente, havia ali uma coisa até interessante de querer fazer ciência com as próprias mãos e buscar respostas sobre o universo. Assim, tirando todo o absurdo, devemos mesmo culpá-los por serem curiosos? Meu termômetro de empatia começou a subir novamente.

Aí vem a parte que torna tudo isso perigoso: por que que a Igreja Católica, as agências espaciais e sei lá mais quem guardaram esse segredo por tanto tempo? Por que esconder que a Terra é plana? É então que entra em cena a paranoia, porque qualquer coisa pode ser uma resposta.

Manter o controle e ganhar dinheiro é uma das respostas mais usadas entre os terraplanistas, seguida por uma explicação religiosa sobre o modelo atual da terra esférica reduzir os homens à insignificância e fazê-los parar de acreditar em Deus. Essa tese é reproduzida por Elaine e Amanda, mãe e filha, donas de um canal bastante conhecido sobre o assunto. Ambas possuem o famoso cabelo “loira odonto” e foram bastante tietadas pelos seguidores do canal antes e depois de sua palestra sobre as vantagens de ser terraplanista. “Escondem a verdade da Terra plana da gente pelo controle. Porque nos colocam como seres insignificantes e nos distanciam do nosso Criador,” explica Elaine.

Amanda e Elaine são donas de um dos canais mais conhecidos sobre terra plana. Foto: Marie Declercq/VICE.

No geral, os adeptos do terraplanismo são pessoas bastante religiosas, com uma intensa aversão pela Igreja Católica, que dissemina o modelo heliocentrista. Há também os que são religiosos mas não concordam em basear a teoria da Terra plana na Bíblia, pois o importante seria questionar a ciência.

“Descobrir sobre Terra plana mudou minha vida. Eu era completamente ateu, vivia a vida só por mim mesmo e foda-se. E nossa, mudou muito. Entrei mais em contato com o cristianismo”, explica Edson Ruberovitch, que conversou comigo na frente do auditório, fumando um vape. “Quando descobri a Terra plana o país estava completamente dividido entre esquerda e direita. Não vejo salvação no sistema. Não é votar no Haddad ou no Bolsonaro que mudaria alguma coisa. Porque quando a gente vota no Haddad, avança algumas agendas de feminismo, vegetarianismo e transhumanismo. Por outro lado, votar no Bolsonaro é apoiar o avanço das pautas sionistas e da tecnocracia. Não tem muito por onde fugir, são dois braços da mesma cabeça.”

Edson diz que conhecer a teoria da terra plana mudou sua vida. Foto: Marie Declercq/VICE.

Prisca Côco, uma das três mulheres que palestraram, chegou a se dizer escolhida por Deus para falar sobre o Terra plana. Um dos seus argumentos é que a Terra só poderia ser plana, porque essa é a explicação mais simples de entender. “Terra plana é simples, já o globo não. É impossível entender aquilo,” defendeu. No ato pensei que bem, isso é um problema dela e o único jeito de resolver é estudando, mas não quis interferir na temperatura já bem baixa do meu termômetro de empatia.

A palestrante possui um canal com mais de 100 mil inscritos, cujos vídeos abordam da Terra plana até o significado do sapato vermelho do Papa Francisco, passando por uma receita de bife de cenoura. Prisca relatou a perseguição da sociedade contra terraplanistas, e disse que é preciso ter coragem para acreditar. “Terra plana é cabra macho, não é pra qualquer um. É pra mulher macho,” afirmou. Prisca terminou sua fala cantando sua música autoral sobre a Terra plana, desafinando sempre que possível. Chequei o grupo do evento: “Ela canta demais,” resenhou um dos membros.

Não há um posicionamento político muito evidente entre os terraplanistas, mas nas entrelinhas das falas dos palestrantes e de algum dos presentes percebi um flerte grande com a extrema-direita. Como é uma ideologia baseada em muita paranoia, simplificação, criação de inimigos e pânico moral, a Terra plana se encaixa perfeitamente nesse ecossistema. Especialmente com adeptos negacionistas climáticos muito convictos, que abraçam com força discursos anti-intelectuais e anticientíficos. Já que extrema-direita não é muito exigente em termos de agregar seguidores, está tudo junto e misturado.

Pelos aplausos, Siddartha Chaibub Lemos, dono de um canal com quase 30 mil inscritos, era um dos palestrantes mais aguardados. Durante mais ou menos meia hora, o youtuber exibiu um slideshow de memes explicando a razão da verdade sobre o formato da Terra ter sido escondida por tanto tempo. Envolve desde a criação de uma sociedade niilista cujo Deus é o dinheiro, envenenada pelo ar por conta de rastros químicos, alienada através do controle mental da grande mídia, que nos faz acreditar que dinossauros existiram, distorcendo o conceito de família e os bons costumes. Fazendo a gente acreditar, inclusive, na “farsa da vacina”.

Quando ouvi “farsa das vacinas”, qualquer rastro de empatia e curiosidade dentro de mim foi para o espaço, até porque pensei nos riscos dentre centenas pessoas aglomeradas dentro de um auditório, várias não acreditarem em se vacinar contra, sei lá, sarampo. O youtuber terminou sob aplausos, alguns minutos depois de mostrar um meme de Keanu Reeves com a frase (atribuída e ele) “A verdade é, Matrix foi um documentário”. Outro filme hollywoodiano bastante mencionado pelos adeptos é o Show de Truman, onde o protagonista interpretado por Jim Carrey vive dentro de um domo. Joguei fora meu termômetro.

Não sei ao certo se devemos deixar em paz os terraplanistas, até porque não vejo qualquer sentido em refutar suas ideias com argumentos científicos sólidos: quanto mais fazemos isso, mais ficam determinados em acreditar em suas próprias teorias conspiratórias. Não há como trazer a razão para um evento onde as pessoas ovacionam um youtuber que mostra vídeos editados para afirmar que as agências espaciais são mentirosas e que o homem nunca foi à Lua. Terraplanistas sentem orgulho da perseguição, isso valida suas crenças.

No final do dia, quando o pessoal partiu para uma hamburgueria temática de Terra plana na Vila Madalena, o grupo de WhatsApp se encheu de elogios sobre a conferência e de críticas sobre “infiltrados” globaloides (termo negativo usado para quem acreditam no globo terrestre), e sobre a imprensa não ter se focado nas refutações científicas trazidas pelos palestrantes. “O GLOBO finalmente ACABOU”, escreveu um dos membros do grupo.

Não é improvável que a segunda edição da conferência aconteça novamente no ano que vem, mesmo que seja na frente de uma loja maçônica.

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