“Frota fantasma” de petroleiros: Sanções de Trump podem ser as responsáveis pela mancha de óleo no Nordeste

Extensa mancha de óleo é vista na praia do Pontal do Peba, vizinha à foz do Rio São Francisco em Alagoas. Foto: Simone Santos/Projeto Praia Limpa.

Hugo Souza, via Come Ananás em 10/10/2019

O desastre ambiental sem precedentes no litoral do Nordeste brasileiro pode ser uma pegajosa, untada demonstração de que as “sanções totais” que o governo dos EUA impôs à Venezuela têm consequências para além daquelas mais imediatas, em terra firme – aquelas para os venezuelanos.

A transmissão de sinal por navios para rastreamento por satélite é uma exigência da Organização Marítima Internacional, mas as sanções americanas à Venezuela e a obsessão de Donald Trump de criar um bloqueio naval à PDVSA resultaram, nos últimos meses, numa verdadeira frota de petroleiros fantasmas, com sinal desligado, operando no Atlântico Sul, como há tempos já é prática comum em navios-tanques que carregam no Irã.

O site American Shipper, especializado em assuntos de transporte marítimo, informa que as sanções dos EUA a países como Venezuela, Irã e Coreia do Norte está dividindo o setor em dois: “Os navios dispostos a cumprir as sanções dos EUA e os que lucram ao preencher a lacuna”.

Em abril, outro site especializado, o Argus, noticiou que a PDVSA determinou aos navios-tanques que vão buscar petróleo na Venezuela que desligassem seus transponders, caso não quisessem abrir mão de fretes que chegam a custar a bagatela de US$12 milhões – cerca dois milhões a mais do que antes das sanções. Em julho, a Bloomberg adiantava que petroleiros que cumprem a rota Venezuela-Cuba estão “go dark” para os satélites ou até mudando de nome.

Nesta quarta-feira, 9 de outubro, a Reuters adiantou que um terço dos navios da estatal chinesa Cosco Shipping Tanker desligaram seus transponders desde que os EUA puniram a empresa, em setembro, por transportar petróleo iraniano. A Cosco opera mais de 50 superpetroleiros, os maiores navios para transporte de petróleo bruto do mundo.

Não obstante estas mais recentes notícias do mundo offshore – e off transponder -, o governo brasileiro se diz empenhado em identificar a origem do vazamento de petróleo que emporcalhou o litoral do Nordeste usando rotas de navios-tanques descritas por satélite.

Uma das hipóteses mais consideradas pelas “autoridades” brasileiras é a de vazamento durante um carregamento de petróleo feita em alto mar de navio para navio.

As importações de petróleo pela China provenientes de transferências de navio para navio (ship-to-ship, no jargão do setor) triplicaram em setembro – mês em que o petróleo começou a aparecer na costa nordestina – em relação a agosto, indicando estratagema dos chineses para mascarar negócios petrolíferos com países sancionados pelos EUA.

“No limite da irresponsabilidade”
Com sua capacidade de investimento há anos fortemente impactada pela queda do preço internacional do petróleo, a Venezuela, desde maio do ano passado, está enfrentando dificuldades redobradas para abastecer navios-tanques em seus terminais portuários. O motivo é uma apreensão de ativos da PDVSA no Caribe da ordem de US$2 bilhões determinada pela Câmara de Comércio Internacional, que atendeu requisição da empresa americana ConocoPhillips.

Esta apreensão de ativos inviabilizou, por exemplo, as operações no terminal BOPEC, na ilha de Bonaire, responsável por transferir a navios petroleiros quase um quarto das exportações de petróleo da Venezuela.

A dramática situação operacional dos portos venezuelanos resultou num enorme “engarrafamento” de petroleiros no mar do Caribe, o que levou o governo de Nicolás Maduro a “propor” à clientela o abastecimento ship-to-ship em alto mar.

“Propor”, assim, entre aspas, porque caso os contratantes não aceitassem o esquema ship-to-ship, que requer equipamento especial e equipe experiente para não entornar óleo no mar, aos relutantes, dizíamos, Caracas avisou que invocaria “força maior” para romper contratos. Quando chegou a “proposta”, muitos petroleiros estavam esperando no Caribe há meses. O preço do frete de um navio-tanque da Venezuela para a China ainda não chegava a US$12 milhões, mas nunca foi uma pechincha. Ganha um fim de semana numa praia oleada no Nordeste quem deduzir o que aconteceu.

Em junho de 2018, o Sonangol Kalandula, que estava ancorado no Atlântico Sul desde fevereiro, foi primeiro navio-tanque carregado no modo ship-to-ship com petróleo venezuelano.

Meses após a apreensão de ativos pela ConocoPhillips, dos EUA, vieram as “sanções totais”, dos EUA também, para “pressionar” – esta palavra realmente agradável do léxico da política externa americana – o governo da Venezuela.

Ganha não um, mas dois finais de semana no Nordeste untado de mais essa desgraça quem acertar, no chute – porque só mesmo no chute – quantos petroleiros flutuam no Atlântico Sul agora mesmo em modo, como diria um certo homem-bomba tucano, “no limite da irresponsabilidade”, com transponder no modo off e carregando petróleo no modo ship-to-ship, com os cumprimentos do Tio Sam.

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