“Apesar do cerco dos EUA, Cuba seguirá sendo socialista”, afirma cônsul Pedro Monzón

Yarisleidis Medina, Fábio Simeon e Pedro Monzón participaram da convenção. Foto: Katia Marko.

Cônsul Geral de Cuba, embaixador Pedro Monzón participou de Convenção em Porto Alegre.

Katia Marko, via Brasil de Fato em 11/6/2019

O Memorial Luiz Carlos Prestes sediou na manhã de sábado, dia 8 de junho, a XI Convenção Gaúcha de Solidariedade a Cuba, realizada pela Associação Cultural José Martí. Com a presença do Cônsul Geral de Cuba, embaixador Pedro Monzón, de Fábio Simeon, da Embaixada de Cuba em Brasília, e de Yarisleidis Medina, do Instituto Cubano de Amizade entre os Povos, foram debatidos temas como a educação em Cuba, os 60 anos da Revolução Cubana, o bloqueio criminoso imposto pelos EUA à Ilha de Cuba, a libertação de Lula e a Solidariedade e Integração dos Povos. A convenção foi encerrada com uma emocionante apresentação dos músicos Leonardo Ribeiro, e Dão Real e Zé Martins, do Grupo Unamérica.

A Associação Cultural José Martí está organizando uma delegação que participará da XXIV Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba, um evento bianual organizado pelo Movimento Nacional de Solidariedade a Cuba – Associações Culturais José Martí e que conta com o apoio do Consulado Cubano no Brasil e vários outros grupos e movimentos sociais. O principal objetivo é construir uma rede de solidariedade a Cuba, promover a troca de cultura entre Cuba e Brasil e incentivar o diálogo e o conhecimento.

Nesse ano o evento será realizado de 20 a 22 de junho de 2019, no Sindipetro, na cidade de Santos/SP, pela Associação Cultural José Martí Baixada Santista. O tema será os 60 anos da Revolução Cubana: Conquistas e Desafios. A programação pode ser acessada em https://www.60anosderevolucao.com.br/.

Ao final do encontro foi aprovada a Carta da XI Convenção Gaúcha em Solidariedade a Cuba com propostas que serão levadas para Convenção Nacional.

Confira a entrevista exclusiva ao Brasil de Fato concedida pelo Cônsul Geral de Cuba, embaixador Pedro Monzón.

Brasil de Fato/RS: Recentemente o primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba, Raul Castro Ruz, publicou um artigo no jornal Granma afirmando que seu país, assim como a Venezuela e a Nicarágua, estão conscientes de que o cerco está se fechando, mas que as novas tentativas dos Estados Unidos de derrubar a Revolução Cubana voltarão a fracassar. Como o senhor avalia esse momento?
Pedro Monzón
: Estados Unidos está de fato recuperando um cerco contra os movimentos progressistas de América Latina, principalmente Venezuela, Nicarágua e Cuba. Estamos certos que estão trabalhando contra a Bolívia também. A ideia é terminar definitivamente com toda gestão revolucionária, progressista, socialista na região, e não necessariamente contra o socialismo, mas contra a independência nacional. Se qualquer país se declare independente embora não se declare socialista, os Estados Unidos vão atacar. Se, um dia, coisa absurda, deixarmos de ser socialista, e sigamos mantendo uma posição independente seguirão tratando de asfixiar. Claro que Cuba seguirá sendo socialista, porque o socialismo para nós é uma condição para a independência e para a justiça social. Raul insistiu em que estivéssemos preparados, com relação a esse cerco que estão fazendo contra nós, porque estão decididos a asfixiar e, além disso, insistiu também em que vamos resistir. Cuba seguirá sendo solidária com Venezuela e com todos os movimentos progressistas, revolucionários, socialistas no mundo. Não vamos ceder. Nossos princípios são sagrados, são invioláveis.

Alguns analistas dizem que com a nova constituição Cuba estaria, aos poucos, abrindo mão do socialismo. Como vocês veem isso?
Nós estamos melhorando o socialismo, queremos que o socialismo seja mais eficiente, queremos o melhor socialismo a partir de nossa experiência histórica. Cuba teve que sofrer durante muitos anos o bloqueio dos Estados Unidos, isso gera a necessidade de proteger-se, de dar passo seguro, de cuidar-se muito. Quando tu está sendo atacado por uma força tão incrível como a dos Estados Unidos, quando uma família é atacada, todas as contradições desaparecem e se unem acima de tudo. Nós tivemos que unirmos, dar passos muito firmes, pensar muito o que vamos fazer no terreno econômico, pensar muito o que vamos fazer no terreno da imprensa e da mídia, porque qualquer abertura, qualquer buraco, qualquer válvula de entrada de influência dos Estados Unidos pode ser perigoso, eles dariam o que não tem a fim de destruir a revolução de fora e de dentro. Desde que triunfou a Revolução Cubana tem tratado de criar uma oposição dentro de Cuba, e tem sido impossível porque a imensa maioria do povo cubano está com a revolução. Isso provocou que tivéssemos sempre que estar alerta, e às vezes mudanças que poderíamos fazer mais rápido, temos que pensar melhor, fazer com mais inteligência para não gerar instabilidade nacional. Para nós a justiça social é um princípio moral, é um princípio ético, além do mais uma garantia de independência. Em um país como Cuba se esta instabilidade é gerada por erro de política, poderia provocar, sem dúvida, uma intervenção dos Estados Unidos. Temos cuidado muito disso.
Claro que a revolução amadureceu, a situação internacional mudou muitíssimo, desapareceram os países socialistas na União Soviética, e nós temos que mudar. Fidel dizia, mudar tudo que tem que ser mudado. É um conceito de revolução que defendia antes de morrer, de retirar-se primeiro, tornou público, mudar tudo que tem que ser mudado. Desde então, inclusive desde antes, a revolução está estudando a necessidade de fazer mudança. Quando Raul foi eleito, fez um processo público, um referendo na prática, tomando critérios da população, e a partir disso fizemos um alinhamento para mudar tudo que tivesse que ser mudado, e fazer o nosso socialismo mais eficiente, proteger a justiça social, porém sem sacrificar a eficiência, e nisso estamos, não é fácil, às vezes estabelecer uma fronteira entre justiça social e eficiência. É possível, em ocasiões que a justiça social provoque paternalismo, provoque ineficiência, e isso temos que mudar. Por isso se há tomado medidas desde então que hão levado ao desenvolvimento de setores que não existiam antes em Cuba, eliminação de proibições que existiam antes em Cuba, flexibilização de políticas que afetavam de fato o desenvolvimento de nossa força produtiva, e isso há avançado até chegar ao processo da nova constituição cubana.
A nova constituição cubana se gerou no meio de um grande processo democrático, se consultou o povo, todas as opiniões que tinham, e depois se fez um projeto a partir dessas opiniões ao parlamento, e voltou ao povo, e o povo em sua totalidade votou por essa nova constituição.
É uma constituição muito democrática, estamos convencidos que não há precedentes históricos de que uma constituição se discuta dessa maneira com o povo, o povo alimentou os critérios que se introduziram na constituição. O projeto que o parlamento fez, o fez a partir dos critérios do povo, e isso regressou ao povo para que o povo votasse a favor, isso é único. A constituição recorre a mudanças que vinham produzindo-se, e mudanças que fariam o sistema mais eficiente, mas sem tocar no princípio básico, com o qual esteve de acordo o povo, o povo o protegeu, como é o socialismo, a independência, a justiça social, a solidariedade. E se criaram mudanças, setores novos, se estimulou o incremento de setores novos, como o chamado trabalhadores por conta própria (cuentapropistas) que é um setor privado, que pode ser setor cooperativo ou privado, que sempre existiu na revolução no terreno da agricultura, porém nem tanto no terreno do comércio e da indústria, hoje florescem dentro de certos limites. Estamos convencidos que tem que haver um limite para a acumulação de riqueza, não podemos propiciar um desenvolvimento ilimitado da polarização da riqueza, isso vai estar sempre controlado.
A ideia é que, inclusive, se priorize a cooperativa acima da propriedade privada individual, porque o que queremos é proteger o socialismo. A indústria estatal está sendo mais eficiente, estão tomando medidas para que a empresa estatal seja mais eficiente, sabemos que isso é fundamental. O grosso da economia, o mais importante da economia siga nas mãos do Estado, os outros setores, a gastronomia, muitos setores de serviço passem a mãos privadas ou cooperativas, sempre dentro de um critério de plano. Para nós a incidência da política no desenvolvimento é fundamental, o que não tem nada que ver com nenhum liberalismo que predomina no mundo, em muitos países, que elimina o papel da política, elimina o papel do Estado e todo o poder siga nas mãos do mercado, e da lei do valor do dinheiro.
No nosso caso não podemos ignorar o mercado, porque existe queiramos ou não, mas o desenvolvimento do país se produz de acordo com políticas nacionais planejadas que têm em conta os interesses do povo e dos interesses de desenvolvimento integral do país, essas são as mudanças básicas, há muitas mudanças na constituição, que te repito vinham andando desde antes, que para relatar-los posso ficar horas falando de todos os terrenos da vida social, etc., mas da política praticamente nenhuma mudança, segue sendo uma política baseada no princípio, na ética, em respeito às leis internacionais.

A Revolução Cubana está completando 60 anos. Cuba é reconhecida no mundo por seus altos índices, por exemplo, na educação e na saúde. Investimento na medicina, formando e mandando médicos para o mundo inteiro em ações solidárias como agora recentemente em Moçambique. Aqui no Brasil também convivemos com os médicos que vieram contribuir no Programa Mais Médicos, atendendo em locais onde antes nunca havia chegado um médico. Qual o legado da Revolução Cubana para o mundo, e como manter acesa essa chama principalmente entre os jovens cubanos?
Um dos nossos princípios que não muda na constituição nem na nossa política em geral é a solidariedade. Algo que não muda é nosso princípio solidário, tem vínculo arraigado, essencial com a ética da revolução. Nosso conceito de justiça social se estende ao mundo. Sentimos que estamos obrigados com a humanidade. Hoje mencionaram nessa convenção um pensamento de José Martí que Pátria é humanidade, é um conceito muito profundo que temos nós cubanos. Fidel, claro, repetiu uma e outra vez essa ideia, e Fidel tem sido o autor principal dessa política básica com o apoio do povo, mas não se pode negar que Fidel tem sido fundamental desse sinal, da política geral de Cuba, da Revolução Cubana, e da política de solidariedade.
Eu penso o seguinte, a consciência revolucionária há que alimentar-lá, a consciência do povo, e a consciência política do povo não se resolve somente nas aulas, não se resolve somente na família, é muito importante, mas não resolve somente com discursos fundamental como fazia Fidel. Fidel foi um maestro do povo, se alimenta com o compromisso ativo, com participação ativa de fato de quem se identifique como revolucionário.
Quando a Revolução Cubana triunfou e se iniciou a alfabetização, eu era um menino e minha geração que participou da alfabetização éramos todos crianças, às vezes de 11 anos, 12 anos, 13 anos, todos tínhamos uma síndrome, uma espécie de enfermidade, de complexo nacional de que havíamos perdido a oportunidade de participar da guerra, víamos os jovens com cabelos longos, sem barba, que vinham da Sierra Maestra, da montanha e dizíamos: perdemos a oportunidade. E Fidel nesse momento disse não, a revolução continua e todos nós teremos oportunidade, e a alfabetização foi uma das oportunidades.
Começamos a fazer nossa própria história com a revolução, a buscar identidade dentro da revolução, fazer parte do processo revolucionário, depois vinham a colheita de café, mas não havia campesinos suficientes, cortes de cana, maestros voluntários, participaram em guerras como de Angola, para apoiar outros povos, ou em Argélia, ou em outros países, participaram em processos de educação em Centro América, os médicos no exterior. Tudo que estamos fazendo na solidariedade, também nos permite cumprir com um dever nacional e internacional, alimenta nossa consciência revolucionária, não há mais ensino nos livros, o ensino na escola, mas que tu chega a fazer parte da revolução, e nisso está a formação da consciência.
Por isso o povo cubano não é fácil confundir-lo. Não é nada fácil quando Obama chega ao poder e começou a falar que havia de mudar a história, havia que começar de novo, a partir de zero, e que podemos ser amigos e etc. E nenhum cubano acreditou nesse anúncio, todos sabemos ser um conto de fadas, adoçado e que efetivamente levou a Trump. A tese que levaram era uma falsidade, quantas coisas há dito Trump contra Cuba. Eu não li nenhuma declaração de Obama rechaçando. Isso também, te repito não mudou agora, Obama o fez muitas vezes, perseguia acabar com a revolução por outras vias.
A juventude é muito importante, há muitas etapas históricas que não viveu e há que seguir alimentando essa relação, e está fazendo dessa maneira. Há muitos médicos jovens que sabem, maestros jovens, os rapazes participam de atividades em Cuba, mas claro há que entender de perto, não se pode pensar que tudo está resolvido, a consciência revolucionária, a consciência política não se estabelece de hoje e para sempre, há que alimentar sistematicamente e sabemos que é uma tarefa que teremos.
Claro que também os jovens estão contribuindo para que mudemos ideias obsoletas, os jovens revolucionários, às vezes rechaçam coisas que tem que mudar, e há que ouvir os jovens, e não somente, há que tratar de ajudar para que os jovens sigam a herança revolucionária, mas tem que ouvir os jovens para que ajudem a fazer a revolução mais dinâmica, mais eficiente.

Qual a importância para Cuba da realização das convenções de solidariedade como essa que se aconteceu em Porto Alegre, como a que vai se realizar nacionalmente em Santos?
Para nós é muito importante. Significa que Cuba não está só, que temos muitas pessoas que nos apoiam no mundo, inclusive admiram nossa resistência e isso é fundamental, saber que tem outros apoiando Cuba é fundamental. Além do mais nos enche de esperança porque isso quer dizer que muitos povos e muitas pessoas estão pela independência e estão contra o imperialismo, porque quem está com Cuba hoje está contra o imperialismo, a favor da justiça social, a favor da solidariedade. Cuba é uma espécie de símbolo, queiramos ou não, de independência, de resistência, que um sistema novo, diferente, mais humano é possível. E nesse sentido, eu dizia antes e repito agora, estamos obrigados a resistir por nós mesmos, e estamos obrigados a resistir porque sabemos que é um símbolo que ajuda que outros povos resistam à ofensiva imperialista antissolidária, anti-independentista, contra os conceitos de justiça social que deveriam permear a humanidade.

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