Ex-motorista acusa Alexandre Frota de usá-lo como laranja em empresas

Em 2010, o ator pornô Alexandre Frota posou vestido de noiva para a Trip com direito a véu, buquê e salto alto.

Em depoimento, funcionário diz que assumiu duas firmas e que recebeu na campanha por caixa 2.

Ricardo Della Coletta e Camila Mattoso, via Folha em 8/6/2019

Ex-motorista de Alexandre Frota, Marcelo Ricardo Silva afirma que foi usado como laranja pelo deputado federal do PSL.

Em depoimento ao Ministério Público de São Paulo, Marcelo disse que assumiu, a pedido do atual parlamentar, a titularidade de duas empresas que eram de Frota em troca de promessas de compensações.

Afirmou também que recebia, por orientação do deputado, pagamentos de terceiros e os repassava para a mulher de Frota.

Vice-líder do PSL na Câmara, Frota se tornou um dos protagonistas do partido do presidente Jair Bolsonaro na Casa, com disputas frequentes na articulação política do governo e para impulsionar projetos como a reforma da Previdência.

À Folha o ex-motorista de Frota reafirmou o que disse ao Ministério Público e fez novas acusações. Afirmou que trabalhou na campanha eleitoral do parlamentar e que foi pago por empresários amigos de Frota, recursos que não foram declarados à Justiça Eleitoral.

Marcelo chegou a ser lotado no gabinete de Frota por cerca de 20 dias em fevereiro, mas foi exonerado no final daquele mês.

Procurado, Frota negou irregularidades e se disse vítima de “práticas de ameaças e extorsão.”

“Dessas condutas criminosas, em março de 2019, o deputado lavrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil de Cotia (SP) e uma representação perante a Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados (razão porque o mesmo está proibido de lá adentrar)”, respondeu o parlamentar, em nota.

O depoimento de Marcelo foi prestado em 28 de maio de 2019. Nele, o ex-funcionário relata uma relação de serviços a Frota que remonta a 2017, quando os dois teriam sido apresentados por um amigo em comum.

De acordo com o que disse Marcelo ao Ministério Público paulista, Frota lhe conseguiu um emprego na TV Nova Cidade e naquele mesmo ano pediu que ele entrasse como dono em duas empresas: a F. R. Publicidade e Atividades Artísticas e a DP Publicidade Propaganda e Eventos Ltda.

“Ele [Frota] falou: eu tenho essas duas empresas minhas. Vou passar para o teu nome, e vou te dar uma porcentagem. Eu falei beleza, tá bom, crente que ia ganhar alguma coisa”, disse Marcelo à Folha.

Registros na Junta Comercial de São Paulo revelam que as duas empresas estavam no nome de Frota e foram transferidas para Marcelo.

A entrada de Marcelo no quadro societário da DP Publicidade ocorreu em julho de 2017. Na FR Publicidade, o ex-motorista se tornou um dos sócios em março de 2018.

O parlamentar alega que “as opções empresariais” com seu ex-funcionário “foram lícitas”. “Toda a relação com o mesmo anteriormente a 2019 foi privada”, justificou, também em nota.

No relato do ex-funcionário ao Ministério Público, o primeiro problema da sua relação com Frota ocorreu em 2018. À época, diz, ele já não prestava serviços à TV Nova Cidade e havia recém-concluído um trabalho em uma empresa de telecomunicações.

Ao pedir o seguro-desemprego, Marcelo diz que teve o benefício negado em razão de constar como sócio das empresas.

Segundo o ex-motorista, ao informar Frota sobre o problema, o agora parlamentar lhe prometeu uma compensação de R$10 mil. Marcelo afirma que nunca recebeu o valor.

Ele contou ainda ao promotor de Justiça que seguiu prestando serviços de motorista para Alexandre Frota.

Por orientação de Frota, disse Marcelo, ele repassava à mulher do agora deputado, Fabiana, valores que recebia de terceiros e cuja origem desconhecida.

O ex-motorista disse que os depósitos que ele fez na conta da esposa de Frota chegaram a cerca de R$70 mil.

“Ele [Frota] não falava em dinheiro. Dizia que vai ter um show e estou precisando dos ingressos. O Frota mandava eu cobrar os ingressos. Um cara do Rio de Janeiro já sabia que era o dinheiro que tinha que depositar. Ele depositava picado”, disse Marcelo à Folha.

“Caía na minha conta e ele passava: ‘os ingressos já foram emitidos.’ Eu já sabia que era para ir no banco sacar o dinheiro e transferir para a esposa dele [Fabiana]”, acrescentou.

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