Anjos rebeldes: A vitória dos estudantes contra a truculência policial e a tirania de um diretor

Os alunos na frente do Fórum: não arredaram o pé até a libertação de dois colegas.

Joaquim de Carvalho, via RBA em 6/4/2019

Se havia alguma dúvida sobre a ação abusiva da Polícia Militar na escola estadual Frederico Brotero, em Guarulhos, ela não existe mais.

Hoje, dois alunos apreendidos durante a ação da PM na escola foram colocados em liberdade. Eles haviam sido levados pela PM ao distrito policial sob a alegação de ameaça e dano ao patrimônio.

Só que, na verdade, o que eles fizeram foi participar de um protesto contra o que eles entendem ser a tirania do diretor do estabelecimento de ensino.

Uma aluna, Janaína Libória explicou, em sua conta no Facebook:

Em nome dos alunos do Brotero, segue o motivo dessa palhaçada toda:
Gostaria de informar o correto motivo para o protesto dos alunos, que não tem nada a ver com maconha ou uso de drogas, invertendo a situação, porque a situação é manifestar os nossos direitos contra o diretor que está acabando com a nossa escola, que temos mais aulas vagas do que aula, que não temos tolerância, se chegarmos 19:01 na escola, não podemos entrar, tem muita gente que vem do trabalho, pegamos o ônibus, tem trânsito, tem acidentes, diversos fatores, e aí chegamos na escola não podemos entrar, e perdemos um dia de aula, ainda fecha o portão antes das 19:00 e somos obrigados a ser enquadrados, que é uma humilhação, ainda mais em ambiente escolar!
Agora uma coisa aqui: o cara se diz diretor de uma escola estadual de um porte grande, e fica de braços cruzados ao ver um policial militar apontando a arma para um de seus professores e seus alunos????
[…]
Só estamos atrás dos nossos direitos como alunos.

Como é possível ver nos vídeos amplamente divulgados, um policial empurra uma menina com um fuzil. Ele está na companhia de outros três PMs, todos portanto armas pesadas e mirando na direção dos estudantes. Um professor se coloca entre o PM armado e a aluna, para salvá-la da agressão.

Heroico.

Os dois estudantes levados para um distrito policial passaram a noite lá e hoje, depois de prestarem depoimento a um juiz da infância e juventude, foram postos em liberdade.

Muitos estudantes não deixaram os dois colegas sozinhos. Alguns passaram a noite na frente do DP e hoje foram para o Fórum. Seguravam cartazes com frases como “Escola não é lugar violência policial” e “Verá que um filho teu não foge à luta”.

Na saída do Fórum, os jovens foram recebidos com festa. Veja o vídeo abaixo.

Outro professor que é ativista na área de educação foi ao Ministério Público denunciar o diretor que chamou a PM. Ele acompanhou os alunos o tempo todo.

O advogado Ariel de Castro Alves, que é conselheiro do Conselho Estadual de Direitos Humanos, também acompanhou o desdobramento do caso.

O advogado Ariel de Castro Alves, que é conselheiro do Conselho Estadual de Direitos Humanos, também acompanhou o desdobramento do caso.

O conselheiro encaminhou denúncia ao ouvidor de Polícia Benedito Mariano, que logo depois informou que as imagens estavam sendo analisadas pela Corregedoria Geral da PM.

Segundo o ouvidor, o PM que colocou o cano da arma no peito de uma aluna foi afastado de suas funções pela corregedoria e o Comando da PM.

Vitória de quem não se calou diante da truculência. Mas essa vitória não pode ficar só nesse afastamento do PM que ameaçou agrediu com fuzil uma estudante desarmada.

Disse Ariel de Castro Alves:

“Os policiais militares podem responder pelo crime de abuso de autoridade, previsto na lei 4898, de 1965. Os PMs também podem ser punidos pelo crime de submeter crianças e adolescentes a constrangimento, previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente. Reivindicações dos estudantes e questões educacionais não podem ser tratadas como caso de polícia”.

Na saída dos alunos do Fórum hoje, estudantes choraram. Mas foi de alegria.

Nestes tempos obscuros, em que a violência policial é estimulada, tanto por Bolsonaro quanto por Dória, a PM recebeu uma lição, juntamente com o diretor que permitiu a entrada de policiais na escola: ainda existem leis e juízes neste país.

Leia também: Como na ditadura: Policial ameaça atirar contra alunos durante protesto em escola de Guarulhos

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