Como Miriam Leitão consegue dormir servindo hoje a quem a torturou no passado?

Carlos Fernandes em 30/4/2019

Li o emocionante relato da jornalista Miriam Leitão sobre os dias, meses de terror que passou sob a tutela da ditadura militar brasileira.

Da forma como ela e seu então companheiro foram presos até as atrocidades que se seguiram imediatamente, as descrições por ela narradas chocam e nos enchem de vergonha, solidariedade e compaixão.

Ter ciência que apesar dos absurdos incompreensíveis e injustificáveis que lhe sucederam dia após dia não representam o pior do que aconteceu nessa terrível noite de mais de duas décadas, torna sua descrição ainda mais aterradora.

Ter vivido um décimo do que Miriam Leitão viveu sob o totalitarismo de “cidadãos de bem” amparados por parte majoritária da justiça e da igreja católica, já seria desumano sob todo e qualquer aspecto.

Tenho a humildade para reconhecer que não sou capaz de sequer vislumbrar o terror por qual passou uma jovem mulher, grávida, trancafiada em uma sala escura com a presença ignóbil de uma jiboia que, por ironia e sadismo, fora “batizada” com o seu próprio nome.

Miriam Leitão, infinitamente mais do que eu, e a exemplo de muitos outros brasileiros que tiveram suas vidas dilaceradas pelo que acontecia nos subsolos dos centros de repressão da ditadura, sabe o mal que o regime então apoiado por Roberto Marinho, e não só por ele, causou à nossa democracia.

Servir hoje às Organizações Globo com tamanha fidelidade canina não se justifica mesmo se um paralelo psicológico se interligasse ao trauma causado pelo fato dos militares a terem colocado inúmeras vezes frente a frente com cães prestes a lhe estraçalharem as vísceras.

É triste constatar que algumas pessoas que foram brutalmente violentadas das mais variadas formas, hoje prestem um serviço tão degradante como o que lhes foi imputado.

E não, aqui não há nenhum hiperbolismo das causas e efeitos do que fizeram os militares no passado e do que hoje fazem os interesses espúrios que os irmãos Marinho, chefes – e de certa forma, donos de Miriam – causam ao povo brasileiro.

Poderíamos aqui romantizar toda essa história e atribuir a uma espécie de Síndrome de Estocolmo, a vassalagem com que Miriam Leitão serve aos seus próprios torturadores.

Mas isso seria de alguma forma diminuir sua força interior e sua inteligência.

Miriam Leitão sabe muito bem o que faz e faz, suspeito eu, com um certo prazer sádico.

O que sinceramente me foge à compreensão, é como uma mulher que passou pelo que passou hoje consegue deitar ao travesseiro e dormir sabendo que provoca à população mais pobre desse país, tortura semelhante, ou pior, do que sofreu outrora.

Miriam Leitão atualmente defender o que defende e servir a quem serve é a prova cabal que o egoísmo do ser humano está além de qualquer humilhação que ele possa ter passado.

Isso, direta ou indiretamente, explica muito o porquê de muitos brasileiros que hoje penam sob os desgovernos de Michel Temer e Jair Bolsonaro ainda possuam a pachorra de defendê-los.

Não é só burrice. Existe um quê de cretinice envolvido.

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Uma resposta to “Como Miriam Leitão consegue dormir servindo hoje a quem a torturou no passado?”

  1. Magda ferreira santos Says:

    PIOR DEVE SER SE OLHAR NO ESPELHO QUANDO ACORDA DE MANHÃ!

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