Caminhada do Silêncio homenageará mortos e desaparecidos políticos no dia 31 de março

Concentração começará às 16h na Praça da Paz (parque do Ibirapuera) e terminará no Monumento pelos Mortos e Desaparecidos Políticos. Proposta é refletir sobre violações de direitos humanos durante ditadura civil-militar e contará com a presença dos músicos Renato Braz, Mário Gil, Vicente Barreto, Breno Ruiz, Roberto Leão, Fabiana Cozza, Jean Garfunkel, Eduardo Gudin, Karine Telles e Lela Simões.

Lilian Milena, via Jornal GGN em 26/3/2019

No dia 31 de março, data em que o golpe civil-militar de 1964 completa 55 anos, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos promove em São Paulo a Primeira Caminhada do Silêncio. A proposta é refletir sobre as violações de direitos durante os 20 anos da ditadura.

A concentração está marcada para começar às 16h na Praça da Paz, que fica dentro do Parque do Ibirapuera. “Reparar a memória dessas pessoas [mortos, desaparecidos e os que lutaram contra a ditadura] é nossa obrigação, um dever cívico. E, poder aprender com tudo o que aconteceu, serve para que não se repita”, explicou ao GGN o cantor e violonista Renato Braz, responsável pela condução de uma série de apresentações literomusicais que serão realizadas ao longo do ato.

“Vamos fazer uma versão de Cálice [de Chico Buarque e Gilberto Gil], que acabei de gravar no disco com a participação do cantor português Roberto Leão, Mário Gil e Breno Ruiz”, explica Renato que também irá cantar com Eduardo Gudin a música Verde.

Fabiana Cozza irá interpretar o “Canto das três raças”, Vicente Barreto “A Cara do Brasil” e Karine Telles “Morro Velho”, de Milton Nascimento. O poeta Jean Garfunkel vai declamar “Pátria Minha”, de Vinícius de Moraes, e cantará com Renato Braz a música “Cruzeiro do Sul”, composta por ele e seu irmão Paulo Garfunkel.

O evento também contará com a participação da cantora Lela Simões, apontada como uma das mais recentes revelações da música brasileira. Ela cantará Mordaça, de Eduardo Gudin e Paulo Cesar Minheiro. “A música é considerada um hino à resistência e um marco na música popular brasileira”, pontua Braz. Ele lembra que a canção deu título ao histórico show “O importante é que a nossa emoção sobreviva“, de 1975.

Às 18h30 se dará o início da caminhada silenciosa a partir da Praça da Paz em direção ao Monumento pelos Mortos e Desaparecidos Políticos, localizado do lado de fora do parque do Ibirapuera.

O monumento, produzido pelo arquiteto e artista plástico Ricardo Ohtake, foi inaugurado em 8 de dezembro de 2014 e sua estrutura carrega os nomes de 436 mortos e desaparecidos políticos de todo o país, registrados por familiares.

“As pessoas interessadas poderão trazer velas, bem como flores e fotos de seus entes queridos, vítimas de violência estatal, para serem depositadas no Monumento”, escreveram os organizadores do evento compartilhado pelo Facebook. Até as 14 horas de terça-feira [26/3] cerca de 1,2 mil pessoas haviam confirmado a participação no ato.

“A memória para mim é a arte da atenção às pessoas, ao sofrimento alheio. Acredito muito na evolução da consciência humana, e acho que [a memória] faz com que a gente cresça. Você passar por um momento difícil e, mais adiante, fazer uma reflexão se valeu ou não a pena torna-se fundamental [nessa evolução]”, pondera Renato Braz, que nasceu três anos após o golpe de 1964.

A iniciativa tem apoio de várias organizações, incluindo do Departamento de Educação em Direitos Humanos e Direito à Memória, da Secretaria Municipal de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, que irá garantir a estrutura física e logística de segurança, do Instituto Vladimir Herzog e da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), do Ministério Público Federal (MPF).

“A truculência, a crueldade e a ilegalidade são marcas dos atos de repressão a civis praticados no Brasil por agentes de Estado, ontem e hoje. Sob a chancela da segurança nacional ou pública, são cometidos crimes de tortura, atentados sexuais, assassinatos e desaparecimentos forçados”, explica em nota a PFDC sobre a necessidade da Primeira Caminhada do Silêncio, com o intuito de “dar visibilidade à questão” e assim subsídios para a sociedade desenvolver mecanismos de defesa da verdade promoção da justiça.

“Sempre achei que inteligência não é a capacidade de armazenar conhecimento. Se ela não for aliada a bondade não tem valor nenhum. Nessa hora, é preciso ter essa inteligência aliada à bondade e à memória, porque eventos [trágicos] como esse não podem acontecer [mais na história]. Estamos aqui para evoluir e para pensar em um mundo melhor onde sejam garantidos nossos direitos”, completa Renato Braz.

A Caminhada do Silêncio irá encerrar também o ciclo de atividades de um mês organizado pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e que inclui a publicação diária de um episódio de violência estatal praticado durante a ditadura civil-militar brasileira, na página do Facebook da organização, e que estão sendo compartilhados todos os dias aqui no GGN.

GOVERNO DIZ QUE IRÁ COMEMORAR A DATA
Enquanto organizações civis e ligadas aos direitos humanos e democráticos farão em diversos pontos do Brasil atos em memória crítica às atrocidades do regime militar brasileiro, o governo confirmou na segunda-feira [25/3] que a data será marcada com comemorações.

Segundo o porta-voz da Presidência da República, Octávio do Rego Barros, Bolsonaro pediu às Forças Armadas que divulguem uma mensagem comemorativa no dia 31 de março.

Marcar o golpe militar como uma necessidade do momento histórico, olvidando os crimes contra a vida e dignidade praticados pelo próprio Estado é comparado por Renato Braz a uma atividade de raciocínio limítrofe.

“É uma visão limitada dos direitos e dos outros. É preciso enxergar além, às consequências [do regime ditatorial] para o nosso povo. É como no debate da fome, quando as pessoas são estimuladas a pensar que o Bolsa Família é ruim. Então o que isso demonstra é uma pessoa que não está atenta ao Brasil real e com falta do conhecimento da realidade”, lamenta o músico.

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