Kennedy Alencar: Bolsonaro exibe seu “complexo de vira-latas” em visita aos EUA

Despreparo, deslumbramento e submissão dão o tom.

Kennedy Alencar em 19/3/2019

O “complexo de vira-latas”, conceito criado por Nelson Rodrigues, é perfeito para descrever a visita aos Estados Unidos do presidente Jair Bolsonaro e sua comitiva.

Nelson Rodrigues entendia o “complexo de vira-latas” como a “inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Ele cunhou a expressão inspirado na derrota do Brasil para o Uruguai na Copa de 1950 e a utilizou em muitas situações depois.

A viagem de Bolsonaro e ministros aos Estados Unidos é “rodrigueana”. É uma manifestação do brasileiro e o seu “complexo de vira-latas”. Por exemplo: a dispensa de vistos para turistas norte-americanos é uma vitória do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) contra todo o corpo técnico do Itamaraty.

O filho do presidente, que se comporta como chanceler do B e um príncipe político, obteve de um ministro submisso uma decisão que contraria o princípio da reciprocidade nas relações internacionais. Um país do tamanho e importância do Brasil não pode ser comportar como um vira-lata diplomático.

O presidente editou ontem um decreto que dispensará a partir de junho a exigência de visto para turistas norte-americanos, canadenses, japoneses e australianos. Não há contrapartida para brasileiros, que continuarão a precisar de visto para esses países.

A medida é um presente de Bolsonaro aos Estados Unidos e ao seu colega Donald Trump. Os governos FHC, Lula, Dilma e Temer discutiram a dispensa do visto, defendida pela área de turismo, mas nunca a implementaram levando em conta a opinião, correta, do Ministério das Relações Exteriores.

Outro exemplo de submissão a Washington foi a visita de Bolsonaro à CIA, a agência de espionagem norte-americana. Dificilmente, presidentes de nações soberanas frequentam um local especializado em obter informações sobre governos e mandatários estrangeiros. A CIA foi responsável por golpes de Estado e teve envolvimento recente em casos de tortura. Opera fora dos EUA e atende aos interesses nacionais norte-americanos.

E inacreditável que Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sergio Moro, tenham feito essa visita, que pretendiam manter em segredo. Ela foi “descoberta” porque Eduardo Bolsonaro a anunciou no Twitter.

Obviamente, a interface da pasta de Moro nos EUA é o Departamento de Justiça, não uma agência de espionagem. Dois assuntos teriam sido discutidos, segundo a assessoria presidencial, já que Moro não quis falar: crime organizado e narcotráfico. Esses temas não costumam ser a prioridade da CIA, mas de outras instituições dos EUA.

Essa passagem pela CIA é mais uma evidência do despreparo e deslumbramento de integrantes do governo brasileiro. Soa como paixão por coisas hollywoodianas.

A lamentável declaração de Eduardo Bolsonaro sobre imigrantes brasileiros em situação de ilegalidade também é prova do “complexo de vira-latas”. Ele considerou a ilegalidade uma “vergonha”.

O filho do presidente estabeleceu relação próxima com Steve Bannon, descartado até por Trump, e com o escritor Olavo de Carvalho. Num jantar com Bannon e Carvalho, houve um festival de besteiras. O presidente da República disse que o Brasil caminhava para o socialismo, para o comunismo. É mentira. Também é grave que um presidente tenha entendimento tão fora da realidade sobre o país que governa.

Bolsonaro não coloca foco nas questões de interesse nacional, como a reforma da Previdência. Está mais preocupado em participar de um jantar com um escritor de extrema-direita que ofendeu com palavrões o vice-presidente, Hamilton Mourão, e militares que participam do governo.

Que sinal Bolsonaro transmite com essa alfinetada nos militares? O sinal de um governo dividido, de baixo nível intelectual e diplomático. Nelson Rodrigues é perfeito para a atual situação. Um visionário, digamos assim.

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“BOLSONARO DEIXA O BRASIL EM POSIÇÃO SUBSERVIENTE”, CRITICA HUMBERTO COSTA
Via Blog do Magno em 20/3/2019

Marcada pela entrega do Brasil sem qualquer contrapartida e repleta de declarações controversas – até mesmo contra brasileiros –, a viagem de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos se tornou, na avaliação do líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), uma vergonha mundial que colocou o Brasil numa posição subserviente e faz lembrar o complexo de vira-lata, cunhado por Nelson Rodrigues.

Para o senador, a passagem do presidente pelos EUA está se mostrando lamentável sob todos os aspectos, principalmente pela fácil entrega do patrimônio do Brasil aos norte-americanos, como a base militar de Alcântara e a isenção do visto para que venham para cá, sem qualquer reciprocidade.

“Depois de falarem tanta besteira e que adoram jeans, Coca-Cola e a Disneylândia, Bolsonaro e sua equipe deveriam passar em Orlando para bater uma selfie com o Pateta, porque essa viagem e as declarações deles são uma vergonha ao Brasil”, declarou.

O senador disse que Bolsonaro foi até a maior potência mundial levando um Brasil apequenado no bolso, subserviente, com base numa política externa errática e tresloucada, que anda a reboque da política norte-americana. Segundo Humberto, o presidente não tem a menor compreensão do papel que o Brasil tem no mundo.

“Eles ganharam a nossa base e a isenção no visto, mas não nos deram nada, a não ser um bonezinho de Trump de 2022. Isso realmente nos deixa em situação vexatória perante o mundo”, disse.

Humberto lembrou que Bolsonaro começou a viagem agredindo os próprios brasileiros que moram ilegalmente nos EUA – e são perseguidos. O capitão reformado disse que “a grande maioria dos imigrantes em potencial não tem boas intenções nem quer o melhor ou fazer bem ao povo norte-americano”. “Que declaração contra os seus compatriotas”, comentou.

O parlamentar também questionou duramente a visita que Bolsonaro e sua comitiva fizeram à CIA, agência central de inteligência norte-americana. De acordo com ele, a ida envergonha não só o Brasil e a cidadania brasileira como também a democracia e a América Latina.

“O presidente foi até a agência que espiona o Brasil há décadas e foi responsável pela ditadura mais sanguinária da América Latina, que foi a de Pinochet, no Chile. É algo profundamente lamentável. E só soubemos dessa visita da comitiva graças à empolgação do filho de Bolsonaro, que posta tudo. Seria uma agenda secreta. Inacreditável!”, disparou.

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NOS ESTADOS UNIDOS A PERGUNTA QUE SE FAZ: QUEM É BOLSONARO?
Mônica Bergamo em 20/3/2019

As buscas no Google feitas nos EUA sobre o presidente Jair Bolsonaro saltaram 18% entre o domingo [17/3] e a terça [19/3], quando ele se encontrou com o presidente norte-americano Donald Trump.

Uma das perguntas mais buscadas era “quem é Bolsonaro?”.

Houve interesse também em saber qual é o índice de aprovação do brasileiro, como ele é descrito, o percentual da população pobre no Brasil e programas sociais desenvolvidos pelo PT e pelo atual presidente.

Leia também: Bernardo Mello Franco: Em encontro com Trump, Bolsonaro só faltou pedir autógrafo

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