De seu trono digital, Bolsonaro usa desinformação como estratégia de poder

Jamil Chade em 13/3/2019

GENEBRA – A informação sempre foi um dos pilares do poder. Desde sempre, o professor, o padre, o censor e o espião ajudaram déspotas a controlar suas populações. Sob a velha ditadura fascista, o propagandista do partido substituiu o padre e o controle das mentes por uma informação administrada passou a ser tão importante como a tortura ou campos de concentração.

A avaliação não é minha. Mas do cientista político Bertram Gross, numa obra lançada ainda na década de 80 sobre o poder e que conseguiu prever o que seria o futuro de uma assustadora precisão.

Mas o livro também alertava: essa arte do controle das mentes ficaria ainda mais sofisticada. “A próxima onda de fascistas não virá de campos de concentração. Mas virão com o sorriso no rosto e talvez programas de TV. Isso é como os fascistas do século 21 tomarão o poder”, alertou.

Quando ele escreveu o livro, a internet não era nem sonhada. Mas ele lançaria a possibilidade de que fossem estabelecidos “tronos eletrônicos” que permitiriam uma ampliação do poder daqueles no comando, graças à televisão.

Hoje, temos “tronos digitais”, com presidentes e líderes usando as redes sociais não apenas para fazer chegar sua mensagem ao eleitorado. Mas também, em alguns casos, para governar… ou desgovernar de forma calculada, desviando a atenção que deveria estar focada em problemas reais para ameaças imaginárias.

No Brasil, temos um chefe-de-estado que, com seu cetro moderno, tuíta sem qualquer compromisso com a república ou com a democracia. A insígnia real – seu smartphone – parece dar o tom de um governo com um repertório limitado aos caracteres autorizados pela tela. E, como ouvi de seus próprios membros, com a muleta do corretor automático.

O compromisso com a verdade não é uma marca desse início de governo e isso, por si só, é uma ameaça. O site Aos Fatos chegou a constatação que, em 68 dias na presidência, Bolsonaro deu 82 declarações falsas ou distorcidas. Desde o início do governo, Bolsonaro fez questão de não deixar passar mais de três dias sem criticar pelas redes sociais a imprensa.

Em Davos, em janeiro, eu tive a ocasião de ouvir de sua equipe e familiares o ódio real contra a imprensa, sem filtro. Num café da manhã na cidade suíça, usavam termos como “vagabundos” e outros impublicáveis para se referir a certos jornais. Sim, há um problema sério quando tal comportamento se transforma também em um ato presidencial.

Quando essa visão é transmitida aos seus apoiadores, por exemplo, ela se transforma em uma licença indireta para a violência e assédio contra os jornalistas – e qualquer um que falar em direitos humanos.

Nos clippings internos do governo, sites que flertam com a desinformação e ligados a certos partidos passaram a ser listados ao lado da imprensa tradicional como base do noticiário que se recomenda aos membros do governo que leiam para ficar “atualizados” sobre o que ocorre no Brasil.

Nesta semana, os jornalistas que trabalham na Empresa Brasil de Comunicações (EBC) foram orientados a reduzir a cobertura relacionada com o assassinato de Marielle Franco. Parte da redação cruzou os braços em protesto.

Mudar a narrativa passou a ser uma estratégia de governo, enquanto ecoam pelos sites de fato independentes os trechos de discursos pronunciados pelo então deputado do baixo claro, Jair Bolsonaro, ensaiando uma defesa às milícias. “Quero dizer aos companheiros da Bahia – há pouco ouvi um Parlamentar criticar os grupos de extermínio – que enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo”, disse Bolsonaro na Câmara de Deputados em 2003, segundo pesquisa do repórter João Paulo Charleaux.

Nesta terça-feira, enquanto o Brasil fervia em torno das revelações sobre as investigações sobre a morte de Marielle, enquanto seu presidente usava fontes falsas de informação para atacar a imprensa, do outro lado do mundo o criador da Web, Tim Berners-Lee, basicamente estragava a festa do aniversário de 30 anos da web.

Sua avaliação era de que aquela tecnologia havia potencializado a desinformação e o ódio e, a partir de agora, um novo contrato social seria necessário para “salvar a Internet”. Na verdade, para salvar as democracias. “Ooops, não era isso que queríamos da Internet”, admitiu.

No front, esse ódio deixa o mundo digital e se transforma em sangue e lágrimas para defensores de direitos humanos, lideranças indígenas, LGBT e tantos outros grupos. O engenheiro-físico britânico, no fundo, mandava uma mensagem de que a crise é real, e não virtual.

Com um sorriso no rosto e com a disseminação da (des) informação pelas redes sociais, governos fazem questão de insistir que nada mudou, que as liberdades estão resguardadas e que estão comprometidos com o estado de direito.

Mas talvez outro ex-morador de Genebra, Jean Jacques Rousseau, tivesse razão: “não há subjugação tão perfeita como a que mantém as aparências de liberdade”.

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