Caos fundamentalista do Itamaraty: Chanceler exonerado por Ernesto Araújo analisou programa de governo como medíocre

Foto: Roque de Sá/Agência Senado

Em entrevista ao GGN Paulo Roberto de Almeida, que foi cotado para assumir ministério das Relações Exteriores antes de Ernesto, mostra que decisão de afastá-lo está ligado às críticas que vem fazendo desde antes de Bolsonaro tomar posse. Ele conta que procurou orientar a equipe durante a campanha.

Via Jornal GGN em 7/3/2019

“Não é surpresa [que a minha demissão aconteceria], mas é surpresa no sentido de cair em uma segunda-feira de Carnaval pela manhã”, ironiza o embaixador Paulo Roberto de Almeida, exonerado pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, do cargo de presidente do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipre), dia 4 de fevereiro.

Em entrevista ao jornalista Luis Nassif, do GGN, o diplomata e também escritor ressalta que sempre manteve um posicionamento crítico aos governos, desde que iniciou sua carreira diplomática. Como antipetista, chegou a “ficar na geladeira” do Itamaraty entre os anos 2003 e 2016, até que o ex-presidente Michel Temer lhe deu o cargo no Ipre.

Ainda em 2018, Almeida foi convidado pela equipe que formava o governo Bolsonaro para assumir o ministério das Relações Exteriores. “Recusei de imediato muitos meses antes que o chanceler olavista [Ernesto Araújo] fosse sequer cogitado”. Na ocasião, as tratativas estavam sendo feitas com a equipe econômica do atual governo e Almeida explicou que não era eleitor de Bolsonaro por considerá-lo “um candidato fraco”. Ele votou em João Amoedo.

Almeida conta ainda que chegou a mandar materiais para nortear a proposta de política externa do governo Bolsonaro. Mas quando leu o programa final, publicado entre agosto e setembro, considerou a proposta para política externa “um horror, sem fim”. “Muito medíocre. Critiquei isso e eles não gostaram. E nunca mais falaram comigo”, relembra.

Assim, mesmo sendo antipetista e crítico às políticas econômicas keynesianas, Almeida não se aproximou dos grupos “bolsonaristas” e, antes das eleições de 2018, já considerava o “olavismo” (termo que remete às ideias do astrólogo Olavo de Carvalho), nocivo à política externa brasileira.

“Eu o conheço [Olavo de Carvalho] desde os anos 90, como polemista, um opositor ferrenho do petismo, marxismo vulgar, gramscismo acadêmico, dos filósofos da USP, todo aquele progressivismo dos nossos ‘intelectuais’ de academia, que ele desenhava […] Mas eu não tinha nenhuma atividade com essa pessoa que julgava apenas um polemista oposto ao petismo”, destaca. Até que um dia foi convidado para uma entrevista-debate com a participação do astrólogo.

“Eles [entrevistadores] tinham definido os temas que estão na berlinda: globalismo e globalização. Eu disse o que eu pensava da globalização, o que é, digamos, o common sense [senso comum] entre os acadêmicos bem informados, e disse todo o mal que pensava dessa imbecilidade, dessa estupidez do globalismo, que é um monstro metafísico alimentado por illuminates e adeptos das teorias da conspiração que juntam George Soros com a esquerda”, pontua.

Após bater de frente com Olavo de Carvalho, ridicularizando sua principal teoria, Almeida tornou-se mais um desafeto do astrólogo.

“Hoje mesmo o Olavo de Carvalho disse que provou que eu era ignorante em matéria de globalismo. Isso ficou mais na opinião dele, evidentemente, não com base em nenhuma evidência empírica”, sorri.

O filósofo das massas de direita emplacou, pelo menos, dois ministros no governo Bolsonaro: além de Ernesto Araújo, Ricardo Vélez Rodríguez na pasta da Educação – o ministro que ganhou destaque recente por mais um escândalo do governo ao enviar para as escolas um e-mail pedindo vídeos de alunos e funcionários cantando o Hino Nacional, junto a leitura de uma mensagem, escrita por ele, finalizada com a frase “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Após a repercussão negativa, Vélez Rodríguez voltou atrás.

Já Ernesto Araújo é conhecido entre seus pares do Itamaraty como um crítico ferrenho do globalismo e do PT. Algumas das frases publicadas em seu blog, antes de assumir o novo cargo, causaram preocupação internacional como essa: “Ao longo do tempo […] a esquerda sequestrou a causa ambiental e a perverteu até chegar ao paroxismo, nos últimos 20 anos, com a ideologia da mudança climática, o climatismo”.

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