Ministro Marcelo Álvaro Antônio me chamou para ser laranja e desviar dinheiro, diz Zuleide Oliveira, candidata do PSL

A então candidata Zuleide Oliveira com Marcelo Álvaro Antônio.

Zuleide Oliveira implica diretamente chefe do Turismo; ela afirma que proposta foi feita no gabinete do parlamentar.

Ranier Bragon e Camila Mattoso, via Folha on-line em 7/3/2019

Uma integrante do PSL em Minas Gerais afirma que o atual ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, a chamou pessoalmente para ser uma candidata laranja na eleição de 2018, com o compromisso de que ela devolvesse ao partido parte do dinheiro público do fundo eleitoral.

Zuleide Oliveira, 41, inscrita na disputa a deputada estadual, fez uma denúncia ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais em 19 de setembro, mas obteve apenas uma resposta protocolar da Justiça Eleitoral.

E-mail enviado no dia 14 de setembro por Zuleide para o TRE/MG.

A candidata é a primeira a implicar diretamente o hoje ministro no esquema de desvio de dinheiro público por meio de candidaturas de laranjas do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro.

O caso foi revelado pela Folha no início de fevereiro e levou à queda de Gustavo Bebianno da Secretaria Geral da Presidência. Polícia Federal e Ministério Público de Minas investigam o esquema.

Zuleide diz em entrevista à Folha ter se encontrado com Álvaro Antônio em seu escritório parlamentar, em Belo Horizonte, em 11 de setembro, na companhia do marido e de um amigo.

Resposta do TRE/MG após e-mail enviado pela candidata Zuleide.

Ela afirma não saber se algum dinheiro foi depositado porque o controle das contas bancárias ficou, segundo ela, com os dirigentes do partido.

“Eu não entendia de nada, eles que fizeram tudo [para registrar a candidatura], eu não tirei uma certidão minha, eles tiraram por lá, eu só enviei meu documento e eles fizeram tudo. Acredito, sim, que fui mais uma candidata-laranja, porque assinei toda a documentação que era necessária e não tive conhecimento de nada que eu estava fazendo […] Fui usada, a minha candidatura foi usada para fazer parte de uma lavagem de dinheiro do partido”, afirmou Zuleide.

Ela diz que, neste encontro, foi instada por Álvaro Antônio a assinar requerimento de solicitação da verba, endereçado ao então presidente nacional do PSL, Gustavo Bebianno.

Procurado pela reportagem, o ministro do Turismo diz não se lembrar da reunião.

“Ele [ministro] disse pra mim assim: ‘Então a gente vai fazer o seguinte: você assina a documentação, que essa documentação é pra vir o fundo partidário pra você. […] Para o repasse ser feito, você tem que assinar essa documentação. E eu repasso a você R$60 mil, e você tem que repassar pra gente R$45 mil. Você vai ficar com R$15 mil para sua campanha. E o material é tudo por nossa conta, é R$80 mil em materiais’“, afirma Zuleide.

A reportagem teve acesso a e-mails e mensagens de áudio trocados por ela com cinco dirigentes do PSL mineiro, comandado à época por Álvaro Antônio, incluindo um recado escrito por Rodrigo Brito, então assessor parlamentar do ministro, com o endereço do escritório do político em Belo Horizonte.

Mensagem de um dirigente do PSL de Minas informando à candidata o endereço do escritório parlamentar de Marcelo Álvaro em Belo Horizonte.

Há também e-mail do partido com requerimento para solicitação da verba da cota das mulheres a Bebianno.

“Marcelo ofereceu um monte de coisa”, diz Zuleide, afirmando que o hoje ministro prometeu que ela ganharia uma vaga na Funai ou na secretaria de Saúde da região. Ela mora em Santa Rita de Caldas, a cerca de 50 km de Poços de Caldas, no sul do estado.

Zuleide acabou tendo o pedido de registro de candidatura indeferido pela Justiça Eleitoral devido a uma condenação em 2016, transitada em julgado, por uma briga com outra mulher. Ela enviou a sentença ao PSL de Minas por e-mail no final de agosto.

“Eles já sabiam que não ia dar em nada [a candidatura, por ser ficha suja]. Hoje eu sei que eles sabiam que não iam aparecer meus votos, que eu não ia conseguir concorrer às eleições porque eu estava com os direitos políticos suspensos. Eles sabiam de tudo isso. Ele quis falar para mim que não ia dar em nada [a condenação não seria problema] pra mim poder preencher a chapa”.

Zuleide afirma que tudo começou no fim de julho com um telefonema de uma assessora de Álvaro Antônio, Cláudia, questionando se ela não gostaria de sair candidata pelo PSL. Após o convite, foi para a convenção estadual do partido, na Câmara Municipal de Belo Horizonte, em 28 de julho, ocasião em que teve o primeiro contato com Álvaro Antônio.

Após isso, Rodrigo, o assessor do político, passou a enviar mensagens solicitando documentos.

Álvaro Antônio era filiado ao PR e migrou junto com Bolsonaro para o PSL, tendo sido o deputado federal mais votado em Minas.

No comando estadual do PSL, foi o responsável pela montagem da chapa de candidatos do partido e definiu, com o aval da direção nacional, o repasse das verbas públicas da legenda aos candidatos.

Até hoje, Zuleide não apresentou a prestação de contas à Justiça por se recusar a atender aos pedidos de dirigentes do PSL. A candidata afirma nunca ter ido ao banco ver os extratos.

Ela diz que recebeu 25 mil santinhos —em todos eles, Álvaro Antônio aparece dividindo o espaço— em 25 de setembro, em Belo Horizonte. Nem o PSL de Minas nem o PSL nacional declaram à Justiça gastos com a candidata.

Santinhos guardados pela candidata Zuleide Oliveira, nos quais ela aparece com o ministro Marcelo Álvaro Antônio.

Em uma das mensagens enviadas a Zuleide, Rodrigo Brito enviou a ela o telefone de Mateus Von Rondon, hoje assessor especial do ministro.

Rondon prestou serviços ao gabinete de Álvaro Antônio até 2018. O Ministério Público o investiga como o principal elo entre o ministro e o esquema de laranjas.

No TSE, no entanto, não aparece que tenha prestado serviço a candidata do sul de Minas.

Os dirigentes do PSL mineiro cujos nomes aparecem nos e-mails e nas mensagens de WhatsApp dela são, além de Rodrigo Brito, Aguinaldo Mascarenhas, então chefe de gabinete de Álvaro Antônio em Minas e hoje presidente do partido no estado, Michelle Paim, tesoureira, Gustavo Graça, também da direção do PSL em Minas, e Leonardo Andrade, advogado da sigla.

Como a Folha mostrou em reportagens publicadas desde 4 de fevereiro, um grupo de quatro candidatas do partido recebeu R$279 mil, tendo tido votação ínfima. Parte desse dinheiro voltou para empresas de pessoas ligadas ao gabinete do hoje ministro.

Uma quinta candidata, Cleuzenir Barbosa, deu depoimento ao Ministério Público em dezembro afirmando ter sido pressionada por dois assessores de Álvaro Antônio a devolver parte dos R$60 mil que recebeu da verba do PSL. Ela diz que o ministro sabia de tudo.

Outro lado
Em nota, Álvaro Antônio afirmou não se lembrar de encontros específicos com Zuleide e nega que tenha feito oferta de valores do fundo ou pedido de devolução de dinheiro a ela.

“Em setembro, Marcelo Álvaro Antônio recebeu diversos pré-candidatos e eleitores na sede do PSL. Ele não se lembra ter se reunido especificamente com a sra, Zuleide. O ministro jamais ofereceu ou pediu a devolução de qualquer valor, seja do fundo eleitoral ou de qualquer outra fonte, à sra. Zuleide.”

O ministro também afirma que jamais indicou profissionais para qualquer candidatura.

Disse ainda que o PSL forneceu material de campanha aos seus candidatos e que “as despesas do partido foram devidamente declaradas à Justiça Eleitoral na prestação de contas”, não especificando se de forma individual ou coletiva. “O partido respeitou a impugnação declarada pela Justiça Eleitoral da candidatura da sra. Zuleide.”

O ministrou reiterou na nota não ter havido qualquer candidatura laranja no PSL de Minas. “A campanha político-partidária da Folha de S.Paulo contra o ministro Marcelo Álvaro Antônio, citado em mais de 100 matérias desde 04 de fevereiro, ultrapassou todos os limites do razoável. Ao julgar, condenar e atacar a honra do ministro, o jornal e os jornalistas agiram de forma leviana e, por isso, estão sendo processados.”

O ministro tentou censurar a Folha, mas teve seu pedido negado pela Justiça em Brasília.

Procurado, Mateus Von Rondon, assessor do ministro e também citado no escândalo, não respondeu.

ENTENDA O CASO DOS LARANJAS EM MG
Origem
A Folha revelou, em 4 de fevereiro, que o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL), deputado federal mais votado em MG, patrocinou um esquema de quatro candidaturas de laranjas no estado.

Funcionamento
Álvaro Antônio era presidente do PSL em Minas e tinha o poder de decidir quais candidaturas seriam lançadas. As quatro receberam R$279 mil da verba pública de campanha da legenda, ficando entre as 20 que mais receberam dinheiro do partido no país. Não há sinais de que tenham feito campanha.

O relato
Cleuzenir Barbosa, candidata a deputada estadual, prestou depoimento ao Ministério Público em 18.dez e afirmou que foi coagida por dois assessores de Álvaro Antônio a devolver R$50 mil dos R$60 mil que recebeu.

Outro lado
O ministro nega irregularidades e diz ter cumprido rigorosamente a lei.

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