A briga de facções entre Lava-Jato e os Bolsonaro

Luis Nassif em 5/3/2019

Tales Faria é um dos mais experientes repórteres políticos brasilienses, jornalista de total confiabilidade. Em seu blog na UOL, Tales descreve a reação de procuradores da Lava-Jato à humilhação imposta ao ex-juiz Sérgio Moro por Jair Bolsonaro, desautorizando uma indicação dele para um cargo irrelevante.

Mencionaram as investigações sobre o ministro do Turismo, sobre Flávio Bolsonaro e suas relações suspeitas com milicianos. No artigo de Tales, fica mais do que caracterizada a guerra entre facções políticas, com um dos lados dotado de poder de Estado, de investigar, denunciar e prender.

E caracterizo como facção política porque, com a decisão de se apropriar de R$2,5 bilhões das reparações pagas pela Petrobras, a Lava-Jato

A ameaça dos homens da Lava-Jato não visa livrar o país da mancha de ser governado por um presidente suspeito de envolvimento com milícias, posto que foram e são sócios do projeto de poder dos Bolsonaro. É disputa de território.

Desde o início havia uma atuação política explícita de Sérgio Moro e seus procuradores, no Power Point, no vazamento de conversas privadas entre Dilma e Lula, na divulgação de depoimentos antigos de Antônio Palocci nas vésperas das últimas eleições. O que pretendia Moro ao aceitar o cargo de ministro da Justiça de um governo envolvido com milicianos – ou os procuradores cariocas não sabiam disso antes mesmo das eleições, ou Sérgio Moro, o juiz com maior experiência em tratar com organizações criminosas não havia sido informado?

Para quem ainda duvidava, ali ficava explícito que a Lava-Jato saíra definitivamente dos trilhos e caminhava para se institucionalizar como poder autônomo, sem ser incomodada pelos sistemas de controle do Judiciário e do Ministério Público. Hoje em dia tem mais poder que a própria Procuradoria Geral da República e, agora, mais orçamento.

Aliás, parte da extrema condescendência com que são tratados pela mídia talvez seja explicado pelas operações que desapareceram do noticiário. Por onde andará a lista dos correntistas internacionais do HSBC? E a contabilidade apreendida no escritório Mossak Fonseca, que o MPF e a Polícia Federal invadiram julgando encontrar offshores em nome de Lula, e acabaram se deparando com contas de grupos de mídia? Por onde andam as investigações sobre o escândalo da CBF, os documentos enviados pelo Ministério Público espanhol e pelo suíço? As investigações foram interrompidas? Estão sendo tocadas? O que procuradores que se especializaram há anos no uso político de informações sigilosas, estão fazendo com esses arquivos?

Agora, com o controle de uma fundação dotada de patrimônio de R$2,5 bilhões da Petrobras, ganham a possibilidade da institucionalização final, sem as limitações da carreira, sem uma transferência imprevista, uma promoção que os afaste do pote de ouro da Lava-Jato: lançando as bases para um partido próprio, o representante maior da ultra-direita com método, que enxerga a disputa política como uma luta de extermínio total dos adversários.

Os abusos da apropriação dos R$2,5 bilhões
O dever do MP de reparar interesses coletivos lesados por ações criminosas ou meros desvios administrativos já é regulado por várias leis do país, sendo a mais relevante a Lei 7.347, de 1985, que instituiu o Fundo dos Direitos Difusos Lesados. Para garantir uma atuação técnica, imparcial, não individual desses recursos, não poder ser algo ligado do gabinete de um dos grupos de procuradores. Agindo assim, estão frustrando todo o sistema legislativo, assumindo papel do Executivo, o que representa nítida ofensa à separação de poderes. Com essa fundação, a Lava-Jato está ferindo o princípio da separação de poderes e todas as cláusulas pétreas:

4º Não será objeto de deliberação a proposta de emenda à constituição tendente a abolir:
I – a forma federativa do Estado;
II – ao voto direto, secreto, universal e periódico;
III – a separação dos poderes;
IV – os direitos e garantias individuais.

Os abusos na criação dessa fundação merecem uma representação correcional. A Procuradoria Geral da República não pode se furtar a essa responsabilidade.

Não se tenha dúvida. A maior ameaça à democracia não é uma família desequilibrada e sem noção, como os Bolsonaro. Nem sequer o poder militar. Pelas informações disponíveis, as Forças Armadas dispõem de um Alto Comando profissional e respeitador da Constituição.

São os jovens turcos da Lava-Jato a caminho do poder.

***

MORO ESTARIA PREPARANDO CONTRA-ATAQUE A BOLSONARO DEPOIS DA HUMILHAÇÃO QUE SOFREU
Via DCM em 4/3/2019

Da coluna de Tales Faria, publicada no UOL:

A confraria de promotores e policiais federais que gira em torno do ex-juiz e hoje ministro da Justiça, Sérgio Moro, ficou até mais indignada que o próprio com o fato de ele ter sido desautorizado publicamente pelo presidente Jair Bolsonaro. Como se sabe, o presidente da República determinou o afastamento da cientista política Ilona Szabó do cargo de suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. O ministro a havia convidado.

Guindado à pasta da Justiça como um superministro intocável do novo governo, Moro viu sua autoridade jogada por terra. A chamada República de Curitiba, que o cerca, passou a temer pelos movimentos futuros do presidente depois que conseguiu enfraquecer a figura pública do ex-juiz da Lava-Jato. Mas o ministro mandou um recado pedindo calma aos mais exaltados. Disse considerar o desgaste momentâneo. E, principalmente, que ele e seu grupo têm cartas nas mangas que, cedo ou tarde, colocarão o Planalto contra a parede: as investigações contra ministros e outros integrantes do governo.

[…]

A irritação do grupo de Moro não tem a ver apenas com a vergonha pelo fato de o chefe ter sido desautorizado publicamente. Tem uma motivação política, de poder. O grupo de Moro sonha com a candidatura do chefe à sucessão de Jair Bolsonaro

[…]

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