Não é só o Queiroz: Cadê a Michelle Bolsonaro?

Nathalí Macedo, via DCM em 27/2/2019

Desde que descobriram aqueles R$24 mil na conta de Michelle Bolsonaro, ela desapareceu das manchetes. Parece que os roteiristas decidiram colocar na geladeira seu personagem gasto.

Justo ela, que adorava aparecer como a persona altruísta e corajosa defensora da comunidade surda e que usa camisetas afrontosas – “se você falar nesse tom comigo, vamos ter problema”, em alusão à fala da juíza Carolina Lebbos para o ex-presidente Lula.

No início, a primeira-dama representava bem seu personagem.

Ensaiou construir uma imagem de quebra de protocolos, quando foi a primeira a traduzir o discurso de posse do marido para a língua brasileira de sinais. “Se Deus abençoasse meu marido, eu tinha que fazer algo por eles [surdos]”, disse à Record.

Sua imagem forjada de benevolência e ousadia era frágil, entretanto, e desmoronou tão rápido quanto tem desmoronado o governo de seu marido.

Desgastada sua imagem com o caso Queiroz – e pelas indicações de suas amigas profissionalmente inexperientes para secretarias em Ministérios –, agora ela só aparece como a esposa dedicada que penteia um marido na cama de um hospital.

O personagem de afronta e salvadora dos surdos e oprimidos desapareceu.

Trata-se de algo absolutamente natural no teatro político: personagens aparecem e desaparecem o tempo todo, conforme a própria conveniência – vejamos, por exemplo, Sérgio Moro e seu voto de silêncio recompensado por um Ministério.

A dinâmica das personagens construídas em torno das primeiras-damas é, entretanto, peculiar: Sérgio Moro ganhou um Ministério por seu silêncio. Cada filho tem direito a uma teta na mamata que nunca termina. E para Michelle sobra uma vida luxuosa e protecionista pela qual paga o preço de continuar representando o personagem que inventaram pra ela, seja para aparecer, seja para desaparecer – no jogo político, ela não tem interesses próprios.

Mulheres, para essa gente, são fraquejadas. Café-com-leite. As que penteiam seus maridos, falam quando eles querem e calam-se quando eles mandam.

Assim como Marcela Temer, Michelle serviu ao governo do marido como parte da construção de sua imagem. Ambas foram rapidamente desgastadas e descartadas, embora por diferentes razões: Marcelinha, quando virou alvo de chacota bela, recatada e do lar, e Michelle, quando surgiu metida até o pescoço nas laranjadas do marido.

Marcela já cumpriu seu papel no espetáculo do absurdo, mas Michele deve ressurgir em breve, assim que seus marionetistas tiverem uma ideia tão brilhante quanto uma camiseta cafona.

***

MP PEDE INQUÉRITO CONTRA BOLSONARO À PGR POR IMPROBIDADE E PECULATO ENVOLVENDO FILHA DE QUEIROZ
Via G1 em 27/2/2019

O procurador da República do Distrito Federal Carlos Henrique Martins Lima enviou à Procuradoria Geral da República representações que apontam suspeita do crime de peculato (desvio de dinheiro público) e de improbidade administrativa em relação ao presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL).

A representação se baseia na suspeita de que Nathália Queiroz, ex-assessora parlamentar de Bolsonaro entre 2007 e 2016, período em que o presidente era deputado federal, tinha registro de frequência integral no gabinete da Câmara dos Deputados enquanto trabalhava em horário comercial como personal trainer no Rio de Janeiro.

A possibilidade investigada é de que ela seria uma funcionária “fantasma”, ou seja, que recebesse salário mas não trabalhasse efetivamente. […]

Nathália é filha de Fabrício Queiroz, ex-motorista e ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PSL/RJ), filho do presidente. Queiroz é alvo do Ministério Público por movimentação atípica apontadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) nas contas que também envolvem Flávio Bolsonaro.

Segundo o procurador, o caso pode ou não ser apurado junto com uma suspeita de irregularidades em relação a outra funcionária que está sob análise da PGR. Caberá à procuradora-geral da República, Raquel Dodge, decidir se pede ou não abertura de inquérito para investigar Jair Bolsonaro.

Carlos Lima apontou na representação que um presidente não pode responder por fatos anteriores ao mandato, mas caberá à Raquel Dodge analisar a questão, uma vez que precedentes indicam que pode haver investigação, sem que uma ação penal seja aberta enquanto o presidente permanecer no cargo. […]

“Tem-se, portanto, que nada impede que o Presidente da República seja investigado e responsabilizado na esfera cível e, na esfera penal, veja a investigação por tais atos ter regular andamento, entendimento partilhado pela atual procuradora-geral da República. A imunidade restringe-se à ação penal e respectiva responsabilização por atos estranhos ao seu exercício, no curso do mandato”, afirmou Carlos Lima.

O procurador da República disse ainda que, embora não haja foro para crimes de improbidade, é preciso aguardar uma posição sobre a suspeita na área criminal “para evitar que o desfecho de uma seara – ao menos ao cabo da investigação – possa estar em claro conflito com o encaminhamento a ser dado na esfera cível”.

[…]

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