Fechamento de escritórios, demissões e coworking: Petrobras ficou do jeito que o diabo gosta

Joaquim de Carvalho, via DCM em 27/2/2019

Há dez anos, o mercado financeiro mundial parou para ver um momento histórico, na Bovespa: o lançamento de ações da Petrobras, que teve emissão recorde.

Num único dia, foram vendidas ações no valor de US$66,9 bilhões.

Vestido com colete laranja de funcionários da empresa, Lula declarou, sem esconder a enforia:

“Não foi em Frankfurt, nem em Londres, nem em Nova Iorque. Foi em São Paulo, aqui na Bovespa, que consagramos o maior processo de capitalização da história do capitalismo mundial.”

Ontem à noite, o presidente da Petrobras, Roberto Castelo Branco, gravava um vídeo em que apresentava a empresa como se fosse uma companhia em situação pré-falimentar.

Com expressão cansada, tropeçando nas palavras, Castelo Branco admitia a adoção de medidas para reduzir custos, como o fechamento da sede em São Paulo e o estudo de um programa para incentivar demissões voluntárias.

Entre outras medidas, anunciou que funcionários trabalharão em escritórios de coworking, outros serão transferidos de cidade.

Para passar a mensagem de que está cortando na própria carne, Castelo Branco disse que a diretoria também ficará sem lugar para se reunir em São Paulo.

“A diretoria e o conselho de administração vão utilizar qualquer coisa, qualquer área em São Paulo”, afirmou.

Além disso, vai desmobilizar carros utilizados pelos diretores – três.

O vídeo gravado por Roberto Castelo Branco foi dirigido aos funcionários da empresa, assustados com as declarações de um gerente de recursos humanos que, na véspera, havia anunciado o apocalipse: o fechamento da sede e demissões.

A empresa que Lula apresentou aos investidores internacionais em 2010 parece outra, que não tem nada a ver com a que é retratada pelos gestores nomeados pelo governo Bolsonaro.

Como pode uma empresa decair tanto em tão pouco tempo?

Os críticos, com base no noticiário da velha imprensa e nas sentenças da Lava-Jato, dirão que foi por culpa do PT, que transformou a Petrobras num “antro de corrupção”.

Mas os fatos não dão razão a esses críticos.

Em 2002, último ano do governo de Fernando Henrique Cardoso, o valor de mercado da Petrobras era de US$15,4 bilhões.

Em 2009, no governo de Lula, foi a US$207,9 bilhões, segundo levantamento da Economática, um espantoso crescimento de 1.250% em sete anos.

O preço do petróleo estava alto, é fato, mas a Petrobras tinha feitos próprios a apresentar: havia descoberto a maior reserva de petróleo do século 21, a do pré-sal.

Também tinha passado pela análise de algumas das maiores instituições bancárias do mundo, que atestaram a excelência de sua governança.

Não fosse assim, a Petrobras não teria tido, um ano depois, sucesso no lançamento de ações no mercado.

O crescimento da Petrobras foi o motivo que levou a NSA, agência de espionagem norte-americana, a fazer do Brasil o país mais monitorado do mundo entre 2010 e 2013, conforme revelou o analista Edward Snoden.

Até a presidente da época, Dilma Rousseff, foi alvo de espionagem.

E por quê?

A Petrobras mostrou que era uma competidora de peso e poderia ajudar o Brasil a alcançar um patamar superior na relação com outras nações.

Para quem duvida, basta prestar a atenção num fato:

A empresa brasileira levou apenas nove anos para atingir a marca de extração de 1,5 milhão de barris de petróleo por dia, em águas ultraprofundas, como é o caso do pré-sal hoje, enquanto que, no Mar do Norte, a mesma marca só foi atingida depois de 30 anos de operação.

Com uma diferença: lá, a profundidade é menor.

A Nigéria, na costa da África, também tem óleo em águas ultraprofundas, mas não tem a mesma produção do Brasil.

E por quê?

Porque não existe lá uma empresa nacional como a Petrobras, com um corpo técnico capaz de desenvolver tecnologia adequada para esse tipo de extração de petróleo.

As mesmas empresas estrangeiras que operam hoje no pré-sal brasileiro poderiam estar operando no pré-sal da Nigéria, mas então por que não vão para lá?

Porque lá não tem Petrobras.

Não é por acaso que a maioria das petroleiras de fora que assumem campos de produção brasileiro fazem questão de estar associados à Petrobras ou de trabalhar muito próximo e de olho no método de produção da empresa brasileira.

Na avaliação de engenheiros da empresa, com quem conversei, esta é a razão pela qual a Petrobras não será privatizada.

Nem no governo de Bolsonaro, nem em nenhum outro.

Ela ficará menor, mas não deixará de ser estatal. Se mantido o plano dos atuais gestores, vai se desfazer de refinarias e sair da distribuição de gás, mas continuará explorando petróleo.

A Petrobras como estatal é perfeita para atender ao interesse privado de quem quer o petróleo brasileiro.

A estatal entra com os riscos no desenvolvimento da tecnologia, a petroleira estrangeira fica com o lucro.

O que a Petrobras não pode é ser grande o suficiente para induzir o crescimento brasileiro.

O que querem é uma Petrobras estatal trabalhando prioritariamente para eles em vez de servir ao Brasil, seu principal acionista e responsável por fazer dela uma empresa de excelência.

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