Na TV, Bolsonaro chama ministro Gustavo Bebbiano de mentiroso e adverte o vice Mourão

Bolsonaro chega a Brasília e saúda Mourão.

Filho do presidente chamou ministro do núcleo duro do Planalto de “mentiroso” e foi retuitado pelo pai. Onyx defende colega, mas parlamentares se queixam de desgaste por causa dos indícios de sigla usou candidatas-laranja.

Afonso Benites, via El País Brasil em 14/2/2019

Após 17 dias afastado do centro do poder político, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) teve alta hospitalar e desembarcou na quarta-feira [13/2] em Brasília com algumas bombas a desarmar. A principal delas é a crise provocada pelos indícios de que seu partido, o PSL, usou candidaturas-laranja na eleição e o mal-estar com o seu ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, que comandava a sigla durante a campanha. Bolsonaro endossou críticas públicas a Bebianno feita por um de seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro. A conta oficial do Twitter do mandatário replicou a mensagem de Carlos que acusava o ministro, até então um dos homens-fortes do Planalto, de mentir ao mencionar contatos com o presidente. Depois, o próprio Bolsonaro disse o mesmo em entrevista à TV Record.

“É mentira”, disse o presidente na entrevista ao canal de TV, negando ter conversado com seu ministro a respeito da crise enquanto ainda convalescia de uma operação intestinal no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Bolsonaro não anunciou, no entanto, que Bebianno deixaria o cargo. O mandatário disse ter ordenado à Polícia Federal que investigue os casos suspeitos no PSL. “Se (Bebianno) tiver envolvido, logicamente, e responsabilizado, lamentavelmente o destino não pode outro a não ser voltar às suas origens”, seguiu.

Advogado de formação, Bebianno se aproximou de Bolsonaro há apenas dois anos. Em 2018, a pedido do então pré-candidato a presidente, assumiu interinamente o comando do PSL no período eleitoral, quando ao menos três candidaturas aparentemente fictícias foram lançadas pela legenda. Uma delas, a de Maria de Lourdes Paixão (PSL/PE), abocanhou R$400 mil do fundo partidário, que é composto de dinheiro público. Outra, de Érika Siqueira Santos (PSL/PE), recebeu R$250 mil, autorizados pelo hoje ministro. Os casos foram revelados pelo jornal Folha de S.Paulo.

O incômodo político-familiar cresceu depois que o ministro afirmou à imprensa que tinha conversado com Bolsonaro sobre as candidaturas-laranjas na terça-feira, quando ele ainda estava internado. Em um aparente movimento para blindar o pai do desgaste do escândalo, Carlos, usou suas redes sociais para dizer que Bebianno mentiu. “É uma mentira absoluta de Gustavo Bebbiano (sic) que ontem [12/2] teria falado três vezes com Jair Bolsonaro para tratar do assunto citado por O Globo e retransmitido pelo Antagonista.” Em mais um ineditismo de um Governo que orbita nas redes sociais, o vereador ainda publicou no Twitter um áudio no qual o presidente diz que não iria conversar com Bebianno naquele dia. “Ô Gustavo, tá complicado de conversar, ainda. Eu não vou falar, não vou falar com ninguém, a não ser estritamente o essencial. Estou em fase final de exames para possível baixa hoje. Tá, ok? Boa sorte, aí”, diz a gravação.

Horas depois, o presidente replicou as mensagens de Carlos. Já em Brasília, seguiu para o Palácio da Alvorada e não teve agenda pública. Bebianno, por sua vez, também não participou de eventos públicos nem respondeu às perguntas da reportagem, por telefone e por e-mail, sobre o tema. Ao G1, Bebianno disse que não pretende pedir demissão e que aguardará a decisão do mandatário.

Desgaste na base
Mesmo antes da entrevista da TV Record ir ao ar, entre assessores da presidência e alguns aliados do governo a demissão de Bebianno era dada como quase certa. No plenário da Câmara, o deputado federal Alexandre Frota (PSL/SP) queixou-se das críticas que a legenda vem recebendo. “A maioria dos partidos de esquerda que subiram aqui [na tribuna da Câmara] falou que o PSL é um partido de laranjas. O PSL não é um partido de laranjas”. Disse ainda que ninguém será protegido pelo governo, caso cometa alguma irregularidade. “Qualquer secretário, deputado, ministro envolvido em qualquer coisa, essa laranja podre vai cair.”

Outra parlamentar que atua na linha de frente de Bolsonaro, a deputada Joice Hasselmann (PSL/SP), reclamou das postagens de Carlos. “Não pode se misturar as coisas. Filho de presidente é filho de presidente. Temos que tomar cuidado para não fazer puxadinho da Presidência da República dentro de casa para expor um membro do alto escalão do governo dessa forma”, criticou.

O chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM/RS), amenizou a crise e defendeu seu colega na Esplanada dos Ministérios. “Ajustes nas relações são normais. Temos 40 dias de governo. O presidente ficou quase 20 hospitalizado. Temos de ter calma. O ministro Gustavo Bebianno é uma pessoa superdedicada ao projeto, é um homem sério, responsável, correto”.

De oposição a Bolsonaro no Congresso, o PSOL apresentou um requerimento pedindo a convocação dele para prestar esclarecimentos na Câmara e uma representação criminal na Procuradoria Geral da República.

Outras bombas a desarmar e advertência a Mourão
Em menos de dois meses de um governo eleito com a bandeira anticorrupção, é o segundo caso em que o presidente é cobrado a se explicar. O outro, também em investigação, trata de movimentações suspeitas de um ex-assessor de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro. Se não bastasse isso e agora a crise em seu partido, Bolsonaro terá ainda nos próximos dias de resolver problemas pontuais –e não tanto– nas mais diversas áreas. Na econômica, terá de dar encaminhamento à sua reforma da Previdência, escolhendo qual proposta será enviada ao Congresso até o dia 20. Na entrevista à TV Record, o presidente prometeu “bater o martelo” sobre a questão na tarde desta quinta-feira. Em outra frente, terá também de conter uma queda de braço entre os ministros Paulo Guedes (Economia) e Tereza Cristina (Agricultura), que não se entenderam sobre a taxação de leite que é importado pelo Brasil. A taxa caiu. Depois da reclamação da bancada ruralista, voltou.

Todos esses ruídos já acendem os primeiros alertas nos investidores do mercado financeiro, que esperam ansiosos por sinais de estabilidade que possam reforçar as chances de o governo aprovar no Legislativo reformas econômicas liberais, especialmente a mudança nas aposentadorias. A questão é que, na relação com o Congresso, o presidente também terá de deter os primeiros danos: as críticas feitas ao seu inexperiente líder na Câmara dos Deputados, o major Vitor Hugo (PSL/GO), um parlamentar em primeiro mandato. Com Bolsonaro hospitalizado, Hugo tentou reunir os líderes do partido aliado e não conseguiu. Tem sido vítima até de fogo amigo do PSL. Deputados entendem que era necessário ter alguém mais experiente no trato com os colegas. Por ora, o presidente deverá mantê-lo na função.

Já no Senado, o presidente também está em busca do líder de seu governo. A ideia é que seja algum político fora do PSL. O nome ventilado até agora é o de Fernando Bezerra Coelho (MDB/PE). Dois fatores pesam contra ele, no entanto, ser do MDB e aliado de Renan Calheiros (MDB/AL), o cacique que foi derrotado por Davi Alcolumbre (DEM/AP) na disputa pela presidência do Senado. Ainda falta definir também o líder do governo no Congresso. Segundo o ministro Onyx, os nomes serão levados a Bolsonaro neste fim de semana e devem ser anunciados em breve.

Na entrevista à TV Record, o presidente acrescentou ainda um item na agenda de arestas: afinar os ponteiros com o vice-presidente, Hamilton Mourão. Questionado sobre a atuação do vice durante sua convalescência, Bolsonaro afirmou que o vice dá “escorregadas” ao falar com a imprensa, mas frisou que há harmonia entre os dois. “Circulou pela mídia que os generais do governo queriam que eu me afastasse para o Mourão assumir. Isso não houve, estamos muito bem no governo”.

***

BOLSONARO FRITA BEBIANNO REPLICANDO POSTAGEM DO FILHO CARLOS CHAMANDO-O DE MENTIROSO
Fernando Brito, via Tijolaço em 13/2/2019

Ao melhor estilo “Tropa de Elite”, o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência levou um “pede pra sair”, diz a Folha, em reportagem de Igor Gielow, onde se diz que Jair Bolsonaro esperava aterrissar em Brasília com [Gustavo] Bebianno demitido.

A Folha apurou que Bolsonaro esperava que o ministro pedisse demissão já no começo desta quarta (13), para que ele voltasse a Brasília de sua internação em São Paulo com um trunfo para conter os impactos do caso. Não deu certo. Bolsonaro irritou-se, chegando a gritar com interlocutores ao telefone de dentro do hospital Albert Einstein, exasperado com a situação e os relatos do próprio Bebianno de que não havia crise porque ele estava conversando normalmente com o presidente.

Diz Gielow que Bolsonaro se encarregou pessoalmente de retransmitir a aliados o “sacode” do Pitfilho no ministro, endossando a humilhação pública de seu ex-braço direito eleitoral. Tanto que soou patética a tentativa de defesa feita por Onyx Lorenzoni a O Globo, dizendo que Bebianno é “sério, responsável e correto”.

Chamo a atenção para as informações do texto de que o episódio gerou apreensão na ala militar do governo. Gielow é pessoa com muitos contatos neste meio, por ter sido, durante muito tempo, o analista da Folha em questões de Defesa e assuntos militares.

Militar, como se sabe, resolve conflitos no Boletim de Serviço, não no Twitter. Oficial superior não bate boca com oficial subalterno.

Ao que parece, frustraram-se as recomendações médicas para uma “dieta leve” para Jair Bolsonaro nos primeiros dias do hospital. Entre o sapo e o pepino, ao que parece, ele escolheu o pepino.

Repercussão nas redes sociais

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