Agência Pública: Rastreamos a hashtag que espalhou fake news sobre Jean Wyllys

Iniciados por anônimos, boatos que ligavam ex-deputado a ataque a Bolsonaro explodiram com atuação de Olavo de Carvalho, Alexandre Frota e Lobão no Twitter e Facebook

Via Pública em 11/2/2019

Levou pouco mais de duas horas para que a notícia da renúncia do ex-deputado Jean Wyllys (Psol) devido a ameaças, em 24 de janeiro, fosse capturada por seus mais ferrenhos opositores e transformada em um novo ataque ao parlamentar. Entre as ameaças denunciadas por Wyllys antes de deixar o país, havia avisos sobre um atentado com explosivos e advertências de que seus familiares seriam estuprados e esquartejados, incluindo dados pessoais de parentes, como endereços e placa de carro.

Mas, nos dias 24 e 25 de janeiro, boatos insinuavam ou afirmavam que Jean estaria envolvido no atentado a faca contra o presidente Jair Bolsonaro (PSL) cometido por Adélio Bispo, que confessou o crime e está preso. Mesmo com a Polícia Federal (PF) descartando o envolvimento de terceiros no inquérito concluído em 2018 e sem evidências de que Wyllys estaria ligado às investigações em andamento – a PF afirmou à Pública que não comentaria o inquérito em curso –, diversos perfis de direita e ultradireita afirmaram que a saída de Wyllys do Brasil era uma fuga das autoridades brasileiras.

O caminho do boato nas redes seguiu um roteiro já conhecido das fake news: primeiro, foi lançado por perfis anônimos no Twitter, que, em seguida, foram retuitados por perfis mais populares, influenciadores e políticos com alcance nacional. Além do Twitter, o boato alcançou youtubers com milhares de seguidores, assim como páginas conhecidas no Facebook. Depois de terem explodido na rede, vários tweets, vídeos e postagens foram deletados.

A Pública analisou mais de 300 mil postagens no Twitter, além de conteúdos no Facebook, YouTube e no GAB – rede social criada pela ultradireita dos EUA que chegou ao Brasil no ano passado – e concluiu que os boatos ganharam repercussão após terem sido compartilhados por figuras ligadas a Jair Bolsonaro, como Olavo de Carvalho, Lobão e Alexandre Frota, além do próprio presidente, que endossou ligação do Psol com o autor do atentado.

A reportagem apurou também que páginas de notícias hiperpartidárias e de apoio a Bolsonaro foram fundamentais na difusão do boato, o que pode levar a condenações criminais para quem o espalhou.

Anônimos iniciaram boato
O primeiro registro nas redes que traz os nomes de Wyllys e Adélio juntos apareceu no Twitter cerca de uma hora depois da publicação da entrevista da Folha de S.Paulo que revelou que Wyllys deixaria o país. Às 15h48, Ruth Coriar compartilhou uma nota do site Renova Mídia, que replicou a entrevista da Folha, acrescentando que estava mal contada “essa história” da renúncia de Wyllys. O Renova, que se afirma um veículo “sem o filtro politicamente correto da velha imprensa”, tem sido utilizado como fonte por apoiadores de Bolsonaro. A coleta foi realizada pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, da Universidade de São Paulo (USP).

Às 15h56, em um comentário na própria matéria no site do Renova, um usuário chamado Diogo Marques questionou a relação de Adélio Bispo, autor confesso da facada em Bolsonaro, com Wyllys.

Às 15h57, uma resposta ao Twitter oficial da Folha de S.Paulo fomentou o boato. A usuária @margareth_rei, que faz constantes críticas ao PT e elogios a Bolsonaro em seu perfil, tuitou: “ah, se Adélio falasse…”. A publicação teve seis curtidas.

As publicações seguiram sem grande engajamento até que, às 16h49, Milene Reis, com mais de 12 mil seguidores (entre eles o vereador Carlos Bolsonaro e o assessor do presidente Filipe Martins), escreveu que a fuga de Wyllys ocorreu após um vídeo comprovar visita de Adélio ao Congresso. Com a hashtag #VaiPraCubaJean, a postagem de Milene teve mais de 1,5 mil compartilhamentos e mais de 4,9 mil curtidas.

A história que Adélio teria sido registrado na Câmara dos Deputados no dia do atentado já foi desmentida pela própria Câmara. Em setembro de 2018, a casa informou que os registros em sistema da entrada de Adélio foram um erro do recepcionista da portaria onde se acessa o sistema de identificação de visitantes (Sivis).

A partir daí, dispararam as interações com conteúdos semelhantes. Contas pessoais como a do advogado e membro do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp) Ricardo Peake Braga (@peakebraga) e a do consultor em negócios Adriano Tomasoni (@adrianotomasoni), mas também páginas de memes e humor como a Bolsonéas (@Bolsoneas) publicaram tweets sugerindo relações entre Wyllys a Adélio.

Procurado pela Pública, Adriano respondeu “Quem vcs acham que são pra chegar aqui e fazerem esse tipo de afirmação? Vocês têm o intuito de me colocar medo?”.

Entre as contas que mais tuitaram sobre o tema nesse período está a de Maria Rita Lopes (@maryritalopes), que publicou uma série de tweets insinuando envolvimento de Wyllys no crime, inclusive pejorativos à orientação sexual de Wyllys e a LGBTs em geral. Com mais de 30 mil seguidores, Maria pediu que outros usuários usassem a hashtag #VaiPraCubaJean.

À noite, às 21h56, foi a vez de uma conta não verificada no Twitter do ex-secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior (PRB), que publicou que “essa história do Jean Wyllys tá muito estranha!!! Tem coelho nesse mato!”. O tweet alcançou mais 2,1 mil compartilhamentos e foi repercutido por diversos perfis de apoio a Bolsonaro, incluindo de usuários do GAB.

Nessa primeira leva de publicações com grande repercussão há perfis que foram desativados após a onda de boatos, como a “O Corvo”, crítico ao PT e apoiador de Bolsonaro. O perfil havia obtido mais de 2,2 mil curtidas em uma postagem que associava a saída de Wyllys a uma suposta descoberta da PF: “Talvez a PF tenha descoberto o vínculo de Adélio com alguém do Psol no caso do atentado! Será que Jean Fugiu?”, publicou. Depois da desativação do perfil, O Corvo possui agora uma segunda conta.

Entram em cena os youtubers e Olavo de Carvalho
Um fator decisivo para a repercussão do boato foi a publicação de vídeos no YouTube por apoiadores do presidente. O canal Cabra da Peste TV, de Regina Vilella, compartilhou um longo vídeo listando razões pelas quais Wyllys estaria deixando o Brasil. Especulando sobre as investigações da PF sobre o atentado a Bolsonaro, a transmissão de mais de 40 minutos passou das 70 mil visualizações.

Em seguida, veio o canal Política Play, que republicou o vídeo do Cabra da Peste e teve mais de 500 mil visualizações. O vídeo está atualmente deletado. A página de Facebook Avança Brasil, de maçons, também compartilhou e depois deletou o vídeo.

No Facebook, uma série de páginas de ultradireita e apoiadoras de Bolsonaro também amplificaram o boato. O Notícias Brasil Online questionou: “se Jean Wyllys está sofrendo ameaças, será por queima de arquivo?”. Na madrugada, o blog do empresário e jornalista Cleuber Carlos, de Goiás, afirmou que “Jean Wyllys pode ser o mandante por trás de Adélio Bispo na tentativa de matar Jair Bolsonaro”. A página Movimento Curitiba Contra a Corrupção sugeriu “juntar os pontinhos” entre a renúncia de Wyllys e o crime contra Bolsonaro.

Por fim, ainda durante a madrugada, foi a vez de Olavo de Carvalho publicar que “a perseguição ao Flávio Bolsonaro, a fuga de Jean Wyllys e a tentativa de assassinato de Jair Bolsonaro, por um ex-membro do PSOL, estão ligados de alguma forma bem bizarra”. A postagem, com mais de 2,1 mil compartilhamentos, ainda trouxe um vídeo que acusa o Psol de ter origens terroristas. O vídeo é de autoria do Canal Terça Livre, do comunciador Allan dos Santos e do analista Ítalo Lorenzon, que apoiam Bolsonaro.

Lobão foi um dos primeiros a usar hashtag contra Jean Wyllys
Na manhã seguinte à publicação da reportagem da Folha, as críticas a Wyllys ressurgiram na forma da hashtag #InvestigarJeanWillis. E uma das figuras a liderar essa campanha foi a do músico Lobão. Às 6h44, ele publicou no Twitter que a saída “levanta sérias suspeitas” de envolvimento no atentado. A postagem, ainda pública, teve mais de 6,8 mil compartilhamentos e mais de 29 mil curtidas.

Lobão foi compartilhado pelo deputado Alexandre Frota (PSL), que já havia sido condenado por difamar Wyllys publicando uma fala falsa do ex-deputado na qual ele trataria a pedofilia como algo normal. Além de compartilhar a postagem de Lobão, Frota usou emoticons para insinuar ligação com a facada e compartilhou outros conteúdos com a hashtag #InvestigarJeanWillis e, mesmo dia depois, segue postando referências de Wyllys com o atentado a Bolsonaro.

O próprio Jair Bolsonaro publicou no Twitter uma relação do Psol com o atentado. A publicação não faz menção a Wyllys, mas despertou comentários que refizeram a associação, inclusive do próprio Lobão, que, em resposta ao presidente, ajudou a impulsionar novamente a hashtag #InvestigarJeanWillis. A resposta de Lobão a Bolsonaro pelo Twitter teve quase 4 mil curtidas.

Com a ação conjunta desses perfis, a hashtag #InvestigarJeanWillis se tornou uma das mais utilizadas no Twitter no Brasil no dia (Trending Topic). O movimento foi amplificado pela repercussão da entrevista de Caio Coppolla, um comentarista, youtuber e influenciador da direita, para a rádio Jovem Pan, na qual ele critica os motivos do autoexílio de Wyllys. Vídeos da entrevista foram utilizados em milhares de publicações com a hashtag #EstamoscomCaio junto à #InvestigarJeanWillis.

A Pública coletou mais de 300 mil tweets com a hashtag #InvestigarJeanWillis. Na coleta, os principais perfis são de personalidades da direita, ultradireita e de apoio a Bolsonaro. Destaca-se também uma rede de páginas de YouTube que produziram vídeos endossando os boatos, como a de Nando Moura, indicado pelo presidente como opção “de excelente canal de informação”.

Repercussão nas redes sociais

Uma resposta to “Agência Pública: Rastreamos a hashtag que espalhou fake news sobre Jean Wyllys”

  1. heloizahelenapiasblog Says:

    n precisa ser inteligente q tem nome e sobrenome destes fake news a Jean Willys, como foi relatado neste página dá entender q os autores seria Frota,e Lobão, Olavo d Carvalho, os dois primeiro tem e toveram uma conduta canastrante, ambos com vívio de drogas e má conduta, aliás essas figuras n dfeveriam nunca estar fazendo parte de cargos dentro deste Governo.
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