Equipe de ministro de Bolsonaro fez pressão por desvio de verba de campanha, diz candidata a promotores

O ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio. Foto Alex Ferreira/Câmara dos Deputados.

Depoimento foi dado ao Ministério Público e agora está sob análise da Procuradoria Geral da República.

Ranier Bragon e Camila Mattoso, via Folha on-line em 4/2/2019

Uma candidata a deputada estadual pelo PSL de Minas Gerais procurou o Ministério Público em dezembro para afirmar que foi coagida por dois assessores do atual ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, a devolver R$50 mil dos R$60 mil de verba pública de campanha que ela havia recebido da legenda.

A candidata, a professora aposentada Cleuzenir Barbosa, cita nominalmente o ministro em vários pontos do depoimento e diz ter relatado essa pressão a outros cinco assessores dele, em Minas e em Brasília, mas, segundo ela, nada foi feito.

“O dinheiro seria destinado para a campanha eleitoral da depoente [Cleuzenir], em parceria com Marcelo Álvaro; que esta parceria a depoente denominou ‘dobrada’; que a depoente seria a única candidata a deputada estadual que faria a ‘dobrada’ com Marcelo Álvaro na região de Governador Valadares”, diz trecho do depoimento.

A Folha obteve a íntegra do documento, dado em 18 de dezembro, e que está atualmente sob análise da Procuradoria Geral da República, em Brasília. O órgão avalia se irá tocar a investigação, em razão do foro privilegiado do ministro Álvaro Antônio, ou manterá o caso na Procuradoria Regional Eleitoral de Minas.

A Folha revelou na segunda-feira [4/2] que o atual ministro do Turismo, que comandava o PSL em Minas e coordenou a campanha de Jair Bolsonaro no estado, montou um esquema de candidatas laranjas.

Abastecidas com R$279 mil dos fundos públicos eleitorais, quatro candidatas do PSL em Minas tiveram votação irrisória – pouco mais de 2 mil votos – e declararam gastos com quatro empresas de assessores, parentes ou sócios de assessores do hoje ministro.

Na segunda [4/2], o vice-presidente, general Hamilton Mourão, afirmou que o caso deve ser investigado. Segundo ele, se os órgãos de investigação confirmarem a existência da irregularidade em relação ao ministro, trata-se de uma denúncia grave.

No depoimento ao Ministério Público, a professora aposentada relatou aos promotores que foi candidata a deputada estadual pelo PSL de Minas e, em setembro do ano passado, se reuniu em Governador Valadares, no leste do Estado, com integrantes da campanha na região, entre eles Haissander Souza de Paula e Lilian Bernardino.

Haissander foi assessor parlamentar de Marcelo Álvaro Antônio até ele assumir o ministério, tendo passado, após isso, para a assessoria do suplente do ministro na Câmara, Gustavo Mitre, do PHS. Coordenou, também, a campanha à reeleição de Álvaro Antônio, em Valadares.

Lilian Bernardino é uma das candidatas que, mesmo tendo recebido R$65 mil de verba do PSL, uma das mais altas quantias do país, obteve apenas 196 votos e declarou gasto com quatro empresas ligadas ao ministro.

Segundo a candidata, nessa reunião, Haissander disse que a mãe de Álvaro Antônio iria fazer uma doação de R$50 mil a ela e que igual valor iria ser destinado também à também candidata Lilian.

“[A depoente relata] que o mesmo valor seria doado para a candidata Lilian Bernardino, […] que ela, na verdade, não fez qualquer ato de campanha eleitoral sendo que nesta mesma reunião ela [Lilian] disse que ‘estava ali para ajudar o partido, apenas’”, diz trecho do depoimento.

De acordo com seu relato, Cleuzenir teria que fazer uma campanha na região em parceria com Álvaro Antônio, ou seja, pedindo votos para a candidatura dela a deputada estadual e para a de Álvaro Antônio para deputado federal.

Como já havia se comprometido com outro candidato, Cleuzenir afirmou ter ido procurar outro assessor do hoje ministro, Roberto Alves, conhecido como Robertinho, coordenador da campanha de Álvaro Antônio em Ipatinga, a cerca de 100 km de Valadares.

Segundo Cleuzenir, Robertinho afirmou que ela poderia seguir também com a parceria com o outro candidato, mas que o dinheiro que ela receberia seria de R$60 mil e viria não da mãe de Álvaro Antônio, mas da cota do fundo partidário destinado às mulheres.

Os dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral mostram que Cleuzenir recebeu em sua conta de campanha, no dia 18 de setembro, R$60 mil oriundos do fundo especial de campanha do PSL, que é dinheiro público do Orçamento destinado aos partidos.

As siglas têm total liberdade para decidir quem de seus candidatos receberá essa verba, e em quais valores.

Cleuzenir afirmou ao Ministério Público que após esse repasse Haissander passou a cobrar a devolução de R$50 mil, que seriam transferidos para a empresa I9 Minas Assessoria e Comunicação, que é de um irmão de Robertinho, Reginaldo Soares.

A então candidata disse ter de ir ao banco para verificar as informações do repasse, ocasião em que se encontrou com Lilian Bernardino, que “estava realizando operações bancárias, sendo que a depoente deduz que seja a mesma transferência que a depoente deveria realizar”, relata o termo de seu depoimento.

Segundo os dados do TSE, Lilian, tão logo recebeu os recursos, os repassou para supostos fornecedores, entre eles as empresas vinculadas ao gabinete de Álvaro Antônio.

Cleuzenir disse aos promotores que não concordou com o repasse e que, após isso, passou a ser cobrada por Robertinho e Haissander, que, em certo momento, chegaram a fazer proposta de reduzir a devolução de R$50 mil para R$30 mil.

A candidata disse se sentir ameaçada, entre outros episódios, porque Haissander teria colocado uma arma de fogo sobre a mesa em uma das reuniões.

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Leia também:
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