O surgimento do Cristianismo para iniciantes

Macário Carvalho Jr., via A Era da Idiocracia em 15/1/2019

1) Nunca houve um único Cristianismo, mas vários. Desde os tempos de Jesus, se seus seguidores configuravam em polos de influência: a) os “12”; b) as mulheres, entre elas Maria Madalena; e c) possivelmente outro polo seria o da família de Jesus (mãe e irmãos)

2) Os evangelhos não foram escritos pelos nomes que conhecemos, Mateus, Marcos, Lucas e João. Esses nomes foram atribuídos posteriormente aos textos que circulavam nas comunidades que, segundo a tradição, eram influenciadas por tais figuras.

3) Vários evangelhos circularam na Antiguidade e Idade Média, mas não entraram no Novo Testamento. Sobreviveram o Evangelho de Tomé, de Judas, de Maria Madalena e até o da infância de Jesus, dentre outros. Eles nos ajudam a entender no que as pessoas acreditavam naqueles tempos.

4) Maria Madalena não era prostituta. Os evangelhos sinóticos afirmam que era uma pecadora. A prostituta que quase é apedrejada em João 4 não tem seu nome mencionado, e a maioria dos estudiosos não crê que essa passagem seja histórica.

5) 33 anos (provavelmente) não é a idade de Cristo. Um dos evangelhos afirma que o ministério de Jesus começou quando ele tinha 30 anos, mas é em outro, uma fonte completamente independente, afirma a duração de três anos. Nada garante que os dois estejam corretos.

6) As cartas de Paulo são mais antigas que os Evangelhos, e preservam tradições orais pré-literárias. Por meio da rima, do estilo de outros indícios literários, é possível identificar passagens que às vezes contêm informações preciosas para o historiador

7) Jesus seus discípulos mais próximos eram provavelmente analfabetos. Nenhum deles foi chamado apóstolo enquanto Jesus exercia o ministério. A palavra apóstolo só foi utilizada para denominar os missionários das primeiras comunidades alguns anos depois da crucificação

8) Jesus e seus discípulos mais próximos falavam aramaico, mas os livros que entraram no Novo Testamento foram todos escritos em grego.

9) Há pelo menos 3 Marias nos evangelhos: Maria Madalena, Maria irmã de Marta, e a mãe de Jesus. Às vezes é preciso muita atenção para não confundi-las.

10) Além de Jesus e João Batista, houve dezenas de outros profetas que falavam sobre o fim do mundo conhecido (dominado pelos romanos). Vários deles foram condenados e mortos por sedição, ou seja, incitação à revolta. Jesus, provavelmente foi acusado desse crime.

11) O primeiro evangelho na Bíblia é Mateus, mas o primeiro escrito foi o de Marcos. Pode-se inferir datas a partir de vários indícios diferentes, um deles é a Guerra contra os romanos. Em Marcos não aparece a expectativa de uma guerra. Em Mateus, ela parece já estar acontecendo

12) A guerra aconteceu entre os anos de 66 e 73. Assim, e com auxílio de outros indícios, costuma-se datar Marcos um pouco antes do início da guerra, e Mateus em seus últimos anos

13) Mateus está cheio de referências a costumes e práticas judaicos. Durante séculos pensou-se que era um texto de comunidades judaico-cristãs. Mas, no século 20, os estudiosos se deram conta de que só faz sentido explicar termos e costumes judaicos para quem não os conhecia. Assim, hoje em dia, é mais corrente considerar que Mateus foi escrito para um público gentio, ou seja, politeístas que não conheciam bem a cultura judaica.

14) Do ponto de vista histórico, Lucas é o pior dos evangelhos, pois apesar de afirmar fazer uma investigação histórica, reúne relatos desencontrados, às vezes divergentes, ora optando por umas versões, ora por outras, às vezes tentando conciliar o impossível.

15) Marcos, Mateus e Lucas são chamados de evangelhos sinóticos, pois são semelhantes. Têm muitas passagens relatando acontecimentos em comum. Isso acontece porque um foi utilizando o outro como fonte de informações

16) Além disso, os estudiosos inferem a existência de uma outra fonte, chamada “Q” (de Quellen, fonte em alemão), que seria o material comum a Mateus e Lucas, mas ausente de Marcos.

17) João é um caso à parte. É bastante posterior aos outros evangelhos que entraram na Bíblia, cerca de 90-95. Seu autor não é o ex-discípulo de Jesus, o apóstolo João, mas provavelmente alguém que se coloca como tal para dar mais peso a seu escrito.

18) João tem uma estrutura e uma cronologia completamente diferente de Marcos, Mateus e Lucas. As tentativas de harmonizar sua cronologia com a dos sinóticos são ridículas ou simplesmente trabalhosas demais para terem credibilidade.

19) João tem poucas passagens com correspondentes nos sinóticos, e a maneira de representar Jesus é substancialmente diferente. Ainda assim, algumas passagens mais marcantes dos evangelhos vêm dele: “Jesus como verbo, a mulher que ia ser apedrejada”, por exemplo. Além disso, as declarações de Jesus sobre sua própria suposta natureza divina vêm todas de João: O caminho a verdade e a vida, o pão da vida, o da terra e a clássica João 3:16 “porque Deus amou o mundo de tal maneira…”

20) João tem características de um tratado teológico, o que nos leva a pensar que talvez seja uma tentativa de harmonizar certas visões teológicas divergentes a respeito de Jesus no interior das primeiras comunidades cristãs.

21) Na Antiguidade alguns humanos normais tornaram-se divinos ou foram reconhecidos como tendo sido divinamente concebidos ou ainda foram exaltados a uma posição sobre-humana: Rômulo, Alexandre o Grande, Júlio César e Apolônio de Tiana são exemplos desse processo.

22) No Judaísmo antigo, conforme aparece nos livros deutero-canôonicos, anjos podiam tornar-se humanos e humanos podiam ser exaltados à condição sobre-humana. Exemplos são o Anjo do Senhor, os anjos enviados a Abraão e Ló, Moisés e Elias que acendem aos céus.

23) Quando alguns começaram a sussurrar que Jesus poderia ser: a) O Filho do Homem; b) O Messias; c) um profeta; d) o rei dos judeus. Nenhuma dessas afirmações foi negada por Jesus, que deixava os boatos sobre a sua pessoa correrem livremente

24) Filho do Homem e Messias são dois títulos que costumamos relacionar com Jesus, mas no século 1 eram diferentes. O Filho do Homem seria o libertador, que traria um fim ao domínio estrangeiro, enquanto o Messias seria o novo rei colocado no poder para governar o povo judeu.

25) É nossa leitura cristã dos documentos do século 1 que nos faz identificar o Filho do Homem e o Messias à pessoa de Jesus, como se os três fossem um só. Mas uma leitura atenta dos textos mostra que não necessariamente é assim. Nos evangelhos sinóticos, Jesus fala muitas vezes do Filho do Homem como se fosse uma figura distinta de si mesmo, o que não faz com o título de Messias. Provavelmente ele acreditava que poderia ser o Messias, mas não o Filho do Homem.

26) Jesus provavelmente se considerava um humano divinamente escolhido, ou exaltado a uma posição sobre-humana, mas não Deus no sentido cristão do termo. Só quem pode pensar em Jesus dessa forma são os cristãos, e Jesus não era cristão, era judeu.

27) O Novo Testamento não foi instituído por decisão de um concílio nem pela instituição Igreja. Ele foi resultado da construção de um consenso entre diferentes comunidades ao redor do Mar Mediterrâneo, escolhendo quais escritos eram considerados mais úteis e sagrados que outros. E esse processo levou de quatro a seis séculos pelo menos.

28) Essas informações não são novas nem surpreendentes, são o que se estuda normalmente nas faculdades de teologia, tanto católicas quanto protestantes e ortodoxas. Os padres, pastores e teólogos sabem disso, mas não falam do assunto para não abalar a fé dos seguidores.

29) Algumas pessoas me perguntaram de onde tiro as minhas informações. Aqui vai:

30) As mulheres tinham papel destacado nas primeiras comunidades cristãs. Mulheres ricas ajudavam a sustentar e eram próximas de Jesus. Paulo teve várias colaboradoras mulheres a quem cumprimenta em suas cartas: Tecla e Júnia são duas delas.

31) No Novo Testamento há referências a mulheres em posições de destaque, mas ao mesmo tempo, alguns livros pregavam manter as mulheres em papéis subordinados. Assim são as chamadas epístolas pastorais, falsamente atribuídas a Paulo 1 e 2, Timóteo e Tito.

Uma resposta to “O surgimento do Cristianismo para iniciantes”

  1. heloizahelenapiasblog Says:

    cada dia q passa mais coisas diferentes tem acontecido no catolicismo,realmente Jão,Marcos,Lucase Mateus falam as mesmas coisas nas bíblias, claro com uma pequena diferença,maso formato igual.qq DIA DESTES UM VAI DIZER Q deus NUNCA ESTEVE NESTE MUNDO COSMICO, E Q jESUS NUNCA ANDOU NESSAS TERRAS, ERA SÓ O Q faltava ouvir. ________________________________________

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