O que a China fez (e o Brasil não) para dar certo

Luis Nassif em 16/1/2019

Um bom resumo do modelo chinês de desenvolvimento foi preparado por Ricardo Lopes Katz, da Universidade Federal de Santa Catarina, a partir de sua dissertação “A nova rota da seda: entre a tradição histórica e o projeto geoestratégico para o futuro” (clique aqui).

O sucesso do modelo é indiscutível. Tirou 800 milhões de pessoas da linha da pobreza, de 1978 para cá aumentou a renda per capita de menos de US$1.0000,00 para mais de US$8.800,00. O país representava 3% da economia global quando Deng Xiaoping iniciou seu mandato. Agora, representa 19%. Mais que isso, enquanto as democracias liberais estão em crise, China continua em trajetória pujante, apesar de muitos problemas ainda não resolvidos, como a desigualdade entre o leste e o oeste do país, questões ambientais e de sustentabilidade, envelhecimento da população, bolha imobiliária, como explica Katz.

Xiaoping avançou em quatro grandes modernizações:

1) Agricultura, com o objetivo de se alcançar a autossuficiência alimentar.
2) Forças Armadas, reduzindo a burocracia e investindo em equipamentos de maior intensidade tecnológica.
3) Indústria, mudando do modelo intensivo em capital (herdado da ex-URSS), para indústrias leves intensivas em mão-de-obra.
4) Promoção das exportações, seguindo o modelo vitorioso de outros países do leste asiático.

O modelo de inovação consistiu em abrir zonas econômicas especiais no sudoeste, para atrair investimentos e integrar o país ao comércio exterior. E usou o mercado interno como instrumento de barganha. Empresa estrangeira, para investir na China, deveria obrigatoriamente estabelecer uma joint venture com empresa local.

Ao Estado coube papel central:

1) Grandes investimentos em infraestrutura. No Brasil, tenta-se esvaziar o maior financiador da infraestrutura, o BNDES.
2) Grandes investimentos em ciência, tecnologia e inovação. No Brasil, entrega-se o setor a um ex-astronauta, sem nenhuma familiaridade com políticas de inovação.
3) Investimento em educação básica e superior, incluindo intercâmbios universitários no exterior. No Brasil, acabam com o programa Ciência Sem Fronteias.
4) Proteção às indústrias nascentes e subsídios às empresas chinesas, além de políticas monetária e cambial estimulando a competitividade nas exportações com conteúdo nacional. No Brasil, anuncia-se um processo de abertura indiscriminada da economia, sem negociação de contrapartidas.

Como explica o economista Paulo Gala, no caso da indústria automobilística, exigiu-se que as montadoras estrangeiras tivessem um nível de conteúdo nacional de autopeças de até 70% no prazo de três anos (clique aqui). Essa exigência fez com que as montadoras cooperassem estreitamente com os fornecedores locais. A capacitação foi tão completa que, depois de ter sido derrubado esse requisito (quando a China aderiu à Organização Mundial do Comércio), manteve-se a fidelização.

Na fase mais alta da globalização, a China conseguiu se inserir com sucesso. Agora, que a globalização entra em xeque, e até os Estados Unidos acenam com políticas protecionistas, o Brasil caminha célere para a abertura indiscriminada às exportações.

Espera-se que os ministros da Infraestrutura e de Energia, que parece ter pés no chão, incutam um mínimo de racionalidade e discernimento à tropa bolsonariana-guediana.

Uma resposta to “O que a China fez (e o Brasil não) para dar certo”

  1. Péricles Pegado Cortez Says:

    Cada povo elege o governo que merece. Lá o povo com líderes populares a frente, tomaram o poder depois de milênios de opressão. Aqui o povo apoia seguidamente aventureiros que os detesta e engana. Vai demorar ainda para acordarem.

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