Governo exonera presidenta do Inep e ex-MBL vai cuidar do Enem

Além de Maria Inês, foram exoneradas outras três diretoras do Inep na segunda-feira [14/1].

Professor da FGV ficará no comando do instituto, depois de crise com Bolsonaro.

Mariana Tokarnia, via Agência Brasil em 14/1/2019

A presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Maria Inês Fini, foi exonerada do cargo hoje [14/1]. O novo presidente será Marcus Vinicius Rodrigues, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV). Também foram exonerados diretores e secretários do Ministério da Educação (MEC) e autarquias.

O governo já havia anunciado que Maria Inês não permaneceria no cargo. O seu nome chegou a ser ventilado para chefiar o Ministério da Educação (MEC). Mas questões da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2018, que é de responsabilidade do Inep, desagradaram o presidente Jair Bolsonaro, que defendeu que o exame deve cobrar “conhecimentos úteis”.

O economista Murilo Resende Ferreira, ex-integrante do Movimento Brasil Livre (MBL) de Goiás, será o responsável pelo Enem.

Além de Maria Inês, foram exoneradas também do Inep na segunda-feira [14/1] a diretora de Estudos Educacionais, Alvana Maria Bof; a diretora de Gestão e Planejamento, Eunice Oliveira; e a diretora de Avaliação da Educação Básica, Luana Bergmann.

Foram exonerados ainda secretários e diretores do MEC, diretores do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e o presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Abilio Afonso Baeta Neves.

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MURILO RESENDE, O “OLAVETE” CONTRA A MARXISMO QUE SUPERVISIONARÁ O ENEM
Economista de 36 anos e nenhuma especialização em educação comandará diretoria do Inep responsável pelo maior vestibular do país.
Beá Lima, via El País Brasil em 12/1/2019

Murilo Resende é o novo diretor do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) para responsável pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o maior vestibular do país. Resende é formado em administração de empresas e doutor em economia pela Fundação Getúlio Vargas, apresentando uma tese sobre a história dos bancos e arranjos financeiros. Discípulo do guru da ultradireita Olavo de Carvalho e militante contra a “doutrinação marxista no ensino”, a experiência em sala de aula do economista se deu no ambiente universitário como professor visitante de economia na Universidade Federal de Goiás e na Escola Superior Associada de Goiânia, uma faculdade particular especializada em economia, ciências contábeis e direito.

Uma enxurrada de críticas ao economista tomou a internet depois da indicação de seu nome para o cargo. O presidente Jair Bolsonaro saiu em defesa da nomeação em sua conta no Twitter. “Seus estudos deixam claro a priorização do ensino ignorando a atual promoção da ‘lacração’, ou seja, enfoque na medição da formação acadêmica e não somente o quanto ele foi doutrinado em salas de aula”, disse o mandatário.

Após a nomeação, o próprio Resende disse ao jornal O Globo que não prevê mudanças imediatas no Enem de 2019, que já começou a ser elaborado. “Tem que manter (as diretrizes), a gente tem milhões de alunos que dependem do Enem para seleção nas universidades. Tudo isso tem que ser mantido”.

O tema, porém, preocupa os especialistas da área porque a família Bolsonaro elegeu o Enem e a suposta “doutrinação” esquerdista nas perguntas da prova como uma das bandeiras políticas prioritárias. Por isso, tanto as declarações como a nomeação podem ter efeito direto na vida milhões de alunos. Em 2018, 5,5 milhões de estudantes fizeram o Enem, que é a porta de entrada para quase todas as universidade federais brasileiras.

Atualmente, a prova tem um rígido protocolo de segurança e elaboração. Poucas pessoas veem o exame final que o atual mandatário já anunciou que quer revisar. De acordo com especialistas, o Enem poderia sofrer alterações de forma indireta sob Bolsonaro, se a Base Nacional Comum do Ensino Médio, um documento que estabelece o currículo mínimo para a última etapa do ensino básico, for modificada para acomodar as petições do novo governo.

Frases de efeito e militância contra o aborto
O professor de economia tem uma vida ativa e polêmica na Internet, administrava um blog, escrevia artigos para jornais como a Gazeta do Povo e possuía um site de cursos online onde oferecia formações sobre economia e filosofia política a partir da perspectiva conservadora. Entre os conteúdos, cursos sobre os autores Eric Voegelin, Bertrand de Jouvenel e, claro, Olavo de Carvalho, a quem Murilo atribuiu seu amadurecimento intelectual.

Integrou as filas do MBL (Movimento Brasil Livre), um dos principais movimentos pró-impeachment. “Um maluco completo. Foi do MBL de Goiás. Expulso, vivia xingando a gente por lutarmos pelo impeachment… Lunático, conspiratório, fora da realidade”, escreveu Renan Santos, um dos líderes do MBL, no Twitter.

Simpatizante do Movimento Escola Sem Partido, em 2016 durante uma audiência pública sobre “Doutrinação Político-Partidária no Sistema de Ensino”, Resende, durante meia hora, acusa os professores de serem “desqualificados e manipuladores” que enganam os pais com “conversinha furada” para pregar o aborto e outras práticas anticristãs. “Qualquer ser humano que tenha alguma dignidade e olhe o currículo das nossas faculdades de pedagogia sabe que precisam de uma reforma absurda, de uma reforma completa para limpar toda essa contaminação ideológica até o ponto em que os professores voltem a se preocupar com a sala de aula e não só com filosofia da educação.”

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