The Guardian: “Brasil se tornou a vanguarda apocalíptica”.

BOLSONARO É PRESIDENTE HÁ APENAS UMA SEMANA E JÁ ESTÁ PREJUDICANDO O BRASIL
O capitalismo messiânico de Jair Bolsonaro ameaça as minorias e a floresta tropical que protege o planeta.
Eliane Brum, via The Guardian em 10/1/2019

O mundo precisa entender o que o Brasil se tornou, antes que seja tarde demais. O Brasil de Jair Messias Bolsonaro não é apenas outro país que elegeu um presidente de extrema-direita em um momento em que a nação mais poderosa do mundo é liderada por Donald Trump. Não é apenas a versão sul-americana da tendência atual de países se transformarem em autoritarismo, como vimos na Hungria, Polônia, Turquia e Filipinas. Não é simplesmente uma nação periférica com um líder patético. O Brasil se tornou a vanguarda apocalíptica que sinaliza quão radical é esse momento – um com o poder de agravar a crise climática em alta velocidade e deteriorar o planeta inteiro.

A eleição de Bolsonaro é uma resposta ao que poderíamos chamar de novo descontentamento da civilização. Talvez as pessoas não consigam identificar a fonte de sua ansiedade, que impulsionou o consumo de tranquilizantes e sedativos. O cidadão comum pode aplicar rótulos mais familiares à corrosão de sua qualidade de vida, ar e água; a um medo implacável do “outro”; para a sensação de que eles estão andando na areia movediça. Mas o que está sustentando esse novo descontentamento que permeia todas as áreas da experiência humana é a nossa crise climática.

Bolsonaro foi eleito em outubro, em sua promessa de voltar “50 anos”. Há cinquenta anos, o Brasil vivia sob uma ditadura militar. Para Bolsonaro e seus seguidores, que são defensores da tortura e da eliminação dos adversários, foi uma época gloriosa. Apesar da terrível ameaça da guerra nuclear, o mundo ainda era um lugar onde a ciência prometia nada além de progresso e soluções – não gerava más notícias, como o aquecimento global, que levavam a limitações na vida diária de um indivíduo ou em ações do governo. Foi uma época em que homens heterossexuais brancos detinham o poder e sabiam exatamente quem eram. Eles podem ter enfrentado alguma resistência das minorias, mas ainda desfrutavam de absoluta hegemonia.

Não podemos compreender o que está acontecendo agora no Brasil – e no mundo – a menos que entendamos que nossas guerras culturais estão intimamente ligadas à necessidade da humanidade de dizer adeus às ilusões de poder do século 20 e encarar um planeta tornado mais hostil pela mão humana. As coisas logo atingirão níveis catastróficos se as nações e seus residentes não se unirem em um esforço global para fazer algo extremamente difícil e impopular: impor limites a nós mesmos para contrabalançar o aquecimento global.

A eleição de Bolsonaro une tudo isso como nenhum outro evento. A administração Bolsonaro promete uma “nova era” – um retorno a um tempo livre de dúvidas e insegurança, com certeza sobre o que é um homem e o que é uma mulher e um sentido claro quem está encarregado da esfera pública e da família. Seu ultra-conservadorismo é às vezes brega, às vezes bíblico – mas nunca inocente.

Logo após a posse de Bolsonaro na semana passada, a ministra de mulheres, família e direitos humanos, Damares Alves – pastor evangélico – afirmou em um vídeo que agora “as meninas usam rosa e meninos, azuis”. Ao lado dela, um defensor segurava uma bandeira israelense. Alguns neopentecostais também agitaram as bandeiras israelenses na inauguração. Esses grupos religiosos, que estão crescendo numericamente e exercendo maior poder no Brasil, votaram esmagadoramente por Bolsonaro.

Uma parte significativa deles acredita que os judeus terão um papel no cumprimento das profecias bíblicas sobre o retorno do Messias. Deve ser lembrado que Bolsonaro foi batizado no rio Jordão, em Israel, um par de anos antes da campanha presidencial. Agora no poder, ele anunciou que o Brasil transferirá sua embaixada para Jerusalém, que, dizem esses evangélicos, será o “palco do Armagedon”. Em uma recente visita ao Brasil, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou: “Não temos melhores amigos no mundo do que a comunidade evangélica”.

Ernesto Araújo, o ministro das Relações Exteriores dogmático, disse que a ascensão de Bolsonaro será marcada por “Deus através da nação”. Ele também escreveu que a mudança climática é uma “ideologia” idealizada para que nações imperialistas pudessem determinar o futuro do Brasil. “As pessoas que dizem que não há homens e mulheres são as mesmas que pregam que os países não têm o direito de proteger suas fronteiras”, afirmou Araújo em seu discurso inaugural.

Este Brasil, costurado a partir de uma colcha de retalhos de dogmas, poderia ser um tópico fascinante de estudo se não colocasse todo o planeta em risco. O discurso ideológico serve para incutir a noção de destino e assegurar a coesão dentro de uma população assustada com tudo o que pode perder, de salários e empregos a posições simbólicas nos domínios da raça, gênero e orientação sexual. Quando Bolsonaro diz que vai “libertar o Brasil da correção política”, ele está prometendo quebrar as “cadeias” que forçam as pessoas a respeitar as minorias e aquelas que limitam a devastação da floresta amazônica.

Em seus primeiros dias no poder, o presidente transferiu a responsabilidade pela demarcação do território indígena e quilombola – que constitui uma grande parte da Amazônia protegida – para o Ministério da Agricultura. Esse setor do governo é controlado pelo agronegócio, responsável por grande parte do desmatamento e ansioso por colocar as mãos na floresta remanescente. Bolsonaro prometeu transformar as terras públicas ocupadas pelos povos indígenas em terras privadas, onde as preocupações com a mineração e o agronegócio podem obter lucros. O objetivo é disponibilizar mais terras florestais para a especulação capitalista: gado, soja, mineração e grandes projetos de construção.

É por isso que os ideólogos do governo fabricaram a ideia de que o “comunismo” – um sistema nunca implementado no Brasil e hoje em grande parte irrelevante em todo o mundo – é uma ameaça iminente para os brasileiros. O suposto “enredo marxista internacional” serve para justificar transformar a floresta em uma mercadoria. Nessa fantasia, os povos indígenas, que são a principal barreira à destruição da Amazônia, são retratados como uma “ameaça à soberania nacional”.

A taxa de desmatamento para 2018 foi a mais alta em uma década. A mera possibilidade de que Bolsonaro ganhasse tinha um efeito libertador sobre os desmatadores e inflamava ainda mais os conflitos em um país onde mais defensores do meio ambiente são mortos do que em qualquer outro.

Sem a maior floresta tropical do mundo, não há como controlar o aquecimento global. Se o capitalismo messiânico de Bolsonaro não for interrompido, a vida neste planeta será muito pior para todos. Para um contingente de evangélicos neopentecostais, isso pode ser bem-vindo como um apocalipse que precede a salvação final dos “verdadeiros crentes”. Para a maioria da humanidade, não trará nada além de horror e sofrimento – perpetuado pela estupidez de uma espécie com delírios de grandeza.

Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista brasileira. Traduzido por Diane Grosklaus Whitty.

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Uma resposta to “The Guardian: “Brasil se tornou a vanguarda apocalíptica”.”

  1. heloizahelenapiasblog Says:

    mINHA triste e derradeira conclusão c tudo isso, o Brasil entrou na era do rebaixamento sócio cultural e economico, o REI vai acabar de asfundar estebarco antes dele sair em definitivo, que lástimade nós estamos vivendo,. ________________________________________

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