Povo não quer tuíte sobre ideologia, mas sim saber como o desemprego vai cair

Foto: Adriano Machado/Reuters.

Leonardo Sakamoto em 11/1/2019

Uma coisa é segurar a imagem de um candidato durante os poucos meses que duram uma eleição, usando doses cavalares de emoção anabolizada pelo clima de ultrapolarização irracional – que, no caso brasileiro, chegou ao limite de se materializar na forma de infames facadas. Tanto contra o então primeiro colocado nas pesquisas, quanto em um eleitor soteropolitano de seu adversário. Outra é garantir que a popularidade permaneça sem que um eleito mostre de que forma vai entregar o esperado. Ou seja, não será bradando o banimento do mitológico “kit gay” ou defendendo chamar o golpe de 1964 de revolução em livro didático, mas mostrando como irá reduzir o desemprego, a violência e a corrupção. Coisa que é lacuna na comunicação do novo governo.

O inovador estilo de comunicação, que se conecta de forma direta com os cidadãos, sem mediações, tem seus limites. Primeiro, porque a imprensa tradicional (ainda) tem papel fundamental na construção simbólica de nosso cotidiano e na organização da agenda pública. O presidente sabe disso, apesar de decretar a falta de credibilidade de jornais e jornalistas. O que é um paradoxo, pois se realmente não tivessem nenhuma, ele não precisaria repetir isso o tempo todo como se quisesse nos convencer disso. A impressão, portanto, é que ele, tendo chegado lá, também busca validação e reconhecimento junto à imprensa. Claro que, para Bolsonaro, admitir isso seria o ó.

E, segundo, com exceção da militância cega, à direita e à esquerda, capaz de saltar com seus líderes no abismo, incorporando o folclore dos lemingues suicidas, o grosso das pessoas é capaz de perceber que jogar purpurina em cima de uma moita de musgo não a torna uma joia de rara beleza, mas apenas uma moita de musgo que brilha.

Tempos atrás, entrevistei o dono de uma empresa de consultoria especializada na construção e desconstrução de reputações através de redes sociais. Ele comercializava os serviços para políticos e empresas – ué, você acha que passou a amar aquele produto completamente desnecessário a ponto de desejá-lo e comprá-lo apenas por sua livre e espontânea vontade? Sabe de nada, inocente.

Para ele, desconstruir reputações é mais fácil, sempre, do que construir. Mas não se desconstrói uma reputação com musculatura facilmente. A credibilidade de um político, o seu principal patrimônio, é garantida pela importância do que ele faz e pelo reconhecimento público disso. Esse tipo reconhecimento sólido não se constrói do zero. E uma vez erguido, não se destrói de um dia para outro. Ou seja, se os políticos fizessem apenas metade do que deveriam fazer já estavam com a vida ganha. O problema é que gastam energia na campanha e após ela para convencer a população que estão fazendo o que deveriam ter feito, mas não fizeram. Emprego, segurança, ordem e, como sempre, saúde e educação são as principais demandas.

A população se beneficiará da melhoria das contas públicas trazida com a Reforma da Previdência, mas é importante lembrar que não se come indicadores. O governo pode explicar quantas vezes quiser que está agindo de forma a preparar terreno para a economia crescer com reformas. De nada vai adiantar se as empresas não criarem vagas suficientes e em um curto espaço de tempo para aplacar o ranger de dentes de 12,2 milhões de pessoas sem trabalho e 4,7 milhões que desistiram de procurá-lo porque não acreditam mais que irão encontrar. Vale lembrar que, nos últimos anos, a criação de postos de trabalho tem ocorrido da mesma forma que a comunicação do novo governo, ou seja, na informalidade.

É mais fácil destruir um sistema do que construir outro usando redes sociais – da Primavera Árabe, passando pelo impeachment de Dilma Rousseff até o discurso antissistêmico e contra tudo o que está aí que ajudou a eleger Bolsonaro, temos exemplos fartos disso. O novo governo mantém sua comunicação em estado bélico, apostando em uma guerra prolongada para unir os apoiadores contra o inimigo, personalizado no PT. O problema é que a estratégia tem limites e a população está cansada.

Se ele não souber como explicar o que o governo está fazendo para garantir uma vida melhor e quando isso vai chegar, sinceramente não importará se as desculpas virão via Twitter ou em uma entrevista coletiva.

Uma resposta to “Povo não quer tuíte sobre ideologia, mas sim saber como o desemprego vai cair”

  1. heloizahelenapiasblog Says:

    tb. acho, queremos outras coisas mais importantes do q essa política podre. ________________________________________

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: