Dilma ao general Augusto Heleno: A “inteligência” na qual não se deve acreditar

Dilma Rousseff lembra a Augusto Heleno que episódios que compuseram o cenário para o golpe de 2016 não foram detectados pelo serviço de inteligência brasileiro.

Ex-presidenta publica nota em que rebate afirmações do chefe do Gabinete de Segurança Institucional de Bolsonaro, que a acusa de má gestão do setor durante seu mandato.

A “INTELIGÊNCIA” NA QUAL NÃO SE DEVE ACREDITAR
A “senhora Rousseff não acreditava na inteligência”. A declaração é do “senhor Heleno” ao assumir o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Tal afirmação vem sendo feita pelo “senhor Heleno” em todas entrevistas dadas à imprensa. Em vista disso, é inevitável tratar do assunto.

De fato, durante meu mandato, tive várias situações de manifesta ineficácia do GSI e do sistema de inteligência a ele articulado.

Houve falha, por exemplo, ao não detectar e impedir o grampo feito ilegalmente no meu gabinete, em março de 2016 – sem autorização do Supremo Tribunal Federal –, quando foi captado e divulgado meu diálogo com Luiz Inácio Lula da Silva, às vésperas dele ser nomeado para a Casa Civil.

O caso mais grave, entretanto, ocorreu em 2013, por ocasião da espionagem feita em meu gabinete, no avião presidencial e na Petrobras pela National Security Agency (NSA), a agência de inteligência dos EUA.

Os setores da inteligência brasileira não só desconheciam que a interferência vinha ocorrendo há tempo – só souberam após o caso Snowden – como sequer sabiam os meios necessários para bloqueá-la. Nem mesmo sabiam o que havia sido captado pela NSA nos referidos grampos.

Uma “inteligência” ligada à Presidência da República que não tem conhecimento, capacidade e tecnologia para enfrentar a moderna espionagem cibernética não é crível.

Na verdade, a própria defesa da soberania do país exige que nela não se acredite para que se possa tomar todas as medidas necessárias para torná-la efetiva e contemporânea. Negar tal fato só atrasa o processo.

Aliás, a falha mais recente ocorreu no governo Temer, o que evidencia que tudo continua igual no setor de inteligência. Durante a campanha, quando o atual presidente, então candidato, foi alvo de atentado em Juiz de Fora, a “inteligência” já supostamente reconstruída, desconhecia a ameaça e, portanto, não pode impedi-la.

Tais exemplos mostram porque a inteligência do governo ainda não é credível.

***

RESPOSTA DE DILMA AO GENERAL REVELOU UM DOS PRINCIPAIS ERROS DE SEU GOVERNO
Renato Rovai em 7/1/2019

Dilma fez muito bem em responder ao general Heleno, que afirmou na sua posse no GSI que a ex-presidenta não acreditava nos órgãos de inteligência do Estado. Mas, ao fazê-lo, acabou corroborando as críticas que muitos dirigiam a ela e ao seu governo naquele episódio.

Quando Snowden denunciou ao mundo que os EUA utilizavam a NSA para investigar a Petrobras e o governo brasileiro, Dilma afirmou que a GSI e Abin não tinham ideia do que estava ocorrendo. E o que ela fez naquele momento? Modificou completamente aquelas estruturas? Informou ao país dos riscos daquele grave erro de defesa e inteligência? Mandou o governo romper contratos com empresas como a Microsoft e criou no Brasil o maior centro de apoio ao desenvolvimento de softwares do mundo?

O gesto mais forte de Dilma foi cancelar uma visita aos EUA e uma reunião já marcada com Obama. Será que não teria sido melhor ter ido ao encontro e cobrado publicamente o então presidente norte-americano?

Foi aquele episódio que deixou claro que haviam interesses internacionais que poderiam resultar em desestabilização política no Brasil. Ali o ovo da serpente estava sendo chocado e poderia ter sido quebrado.

Faltou ao governo brasileiro uma resposta de contra inteligência mais firme, como as que foram realizadas pela Rússia, a Turquia e mesmo a Alemanha, a França e o Japão, que também estavam na mira da NSA.

Se o problema eram os militares entreguistas ou incompetentes que estavam à frente da nossa inteligência, eles deveriam ter sido imediatamente afastados. E talvez aquele grampo da conversa de Dilma com Lula, como ela lembra em sua resposta, não tivesse ocorrido.

A história recente ainda precisa ser revisitada por estudiosos, mas ao mesmo tempo também necessita ser reavaliada sem comiseração, mas com sinceridade pelos seus principais atores políticos. Seria muito importante que neste episódio Dilma também respondesse à sociedade sobre onde acha que errou. E não apenas a Heleno, que se comporta como um provocador barato.

Dilma fez um governo muito melhor do que avaliam seus algozes e alguns de seus ex-aliados, mas cometeu erros políticos graves. Um dos maiores foi a reação pífia ao escândalo dos grampos da NSA. Ali ela poderia ter construído um sentimento de nação muito diferente do pato amarelo.

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