A estratégia dos jornalistas lacradores do Twitter

Luis Nassif em 7/1/2019

É curioso esse novo mercado que se desenvolveu com as redes sociais. Criou-se uma nova linguagem, especialmente para os embates pelo Twitter. Consiste em frases curtas, taxativas, geralmente agressivas, utilizando os mitos das redes sociais, sem nenhuma preocupação com a veracidade ou com a interpretação dos fatos. Visa exclusivamente “lacrar” – o termo que a rapaziada dá aos posts que “liquidam” com adversários.

Normalmente, esse mercado é atendido por novos personagens midiáticos, longe da formação da imprensa tradicional.

Mas, nos últimos tempos, jornalistas com biografia passaram a frequentar esse universo. É o caso de José Roberto Guzzo, com larga e bem sucedida trajetória no Grupo Abril, e de Guilherme Fiuza, escritor e colunista, que tinha espaço na grande mídia pré-Temer, como um dos pontas de lança do antipetismo.

Suas “lacradas” chamam atenção não propriamente pelo antipetismo radical. Mas também pela defesa incondicional do governo. Inclusive com afirmações muito próximas do nível de discernimento dos irmãos Bolsonaro, mesmo eles estando, intelectualmente, muitos degraus acima.

Por exemplo, endossando a “denúncia” do novo ministro do Meio Ambiente (condenado por suspeita de fraude quando Secretário em São Paulo) contra contrato de locação de veículos do Ibama. Os acusadores – o ministro e Bolsonaro – voltaram atrás. Guzzo, foi em frente.

Ou então, a apologia que Guzzo fez do preparo do presidente Jair Bolsonaro que, segundo ele, ganharia “de lavada” de Lula em “qualquer mano a mano”. Justo no momento em que Bolsonaro se projeta como o mais despreparado presidente da história.

As “lacrações” de Fiúza não ficam atrás, inclusive assumindo um dos recursos mais empregados pelo chamado ciberbulling: apelidos e situações desmoralizantes do alvo visado. Por exemplo, quando tenta “lacrar” Fernando Haddad com o apelido de Fefeca. E com aplausos de Guzzo.

Ou então, equiparando o PT ao PCC.

Tudo isso poderia ser um exercício de adaptação das velhas práticas jornalísticas ao mundo dos 300 toques do Twitter, um momento de gozar com a cara do distinto público, ou mesmo um reflexo sincero do antipetismo que tomou conta de parte relevante da sociedade, não fosse um detalhe intrigante. Não sigo nenhum dos dois jornalistas. Nem os incluí em minhas listas de Jornalistas. No entanto, vivo recebendo seus Twitters, alguns com mais de 12 mil curtidas.

O que significa que os Twitters de ambos estão sendo “promovidos”, recurso normalmente utilizado em campanhas publicitárias.

Como explica o próprio Twitter (clique aqui), sobre como utilizar a ferramenta para campanhas promocionais.

“Os Tweets dessas campanhas são claramente chamados de Promovidos, mas são como Tweets normais em todos os outros aspectos. As pessoas podem retweetá-los, responder a eles, curti-los e muito mais.
Os Tweets Promovidos aparecem em timelines, páginas de perfil e páginas de detalhes do Tweet. Você pode criar uma campanha de engajamentos com Tweets em ads.twitter.com”.

O curioso, nessa estratégia, é o fato de dois jornalistas experientes falando exclusivamente para o universo paralelo de Bolsonaro, tarefa que poderia ser desincumbida por pessoas de menor expressão. O normal seria que terçassem armas nas batalhas de ideias e conceitos que se travam junto aos grupos mais bem informados, terreno em que Bolsonaro vem cada vez mais se desmoralizando.

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