Na primeira semana sem o “socialismo”, Bozo destrói o País

Bolsonaro concede ao SBT sua primeira entrevista após assumir o Palácio do Planalto.

ENQUANTO DAMARES DANÇA E OS BRASILEIROS BATEM PALMA, BOLSONARO DESTRÓI O BRASIL
Joaquim de Carvalho, via DCM em 4/1/2019

Enquanto Damares Alves dança embalada pelas palmas dos brasileiros, o governo de Jair Bolsonaro avança na direção do que, realmente, quer fazer: desmontar o que restou do que poderia ser chamado de “estado do bem-estar social”.

Foram 17 medidas regressivas no primeiro dia de governo. Mas vem mais, muito mais, por aí.

Enquanto Damares nos distraía falando “na nova era, meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, Bolsonaro dizia uma frase que não recebeu a atenção devida.

Disse o chefe do Poder Executivo, através do SBT (Sistema Bolsonaro de Televisão):

“O Brasil é o país dos direitos em excesso, mas faltam empregos. Olha os Estados Unidos, eles quase não têm direitos. A ideia é aprofundar a reforma trabalhista”, disse o capitão.

A ideia de que o trabalhador brasileiro tem direitos em excesso é tão falsa quanto uma moeda de 15 cruzeiros em 1964.

Em 1995, no segundo mês de seu governo, Fernando Henrique Cardoso recebeu os diretores da Volkswagen em Brasília.

Eles vieram para anunciar que construiriam mais duas fábricas no Brasil – uma de caminhões em Resende, no Rio de Janeiro, e outra da Audi, no Paraná.

Na conversa, disse que o custo Brasil era um dos mais baixos do mundo. Na época, como agora, se dizia que os encargos trabalhistas desestimulavam investimentos empresariais.

Era mentira.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) tinha um estudo, a que eu tive acesso, que fixava em 60% da média mundial o custo da mão de obra das fábricas do setor no Brasil.

Sem fazer referência ao estudo da Anfavea, Fernando Henrique registrou no volume I dos livros da memória de seu governo o encontro com os diretores da Volkswagen.

Logo em seguida, além da montadora alemã, a GM, a Fiat e a Ford também anunciaram novos investimentos.

A razão para o interesse dessas empresas no Brasil era óbvia: o poder aquisitivo do brasileiro, com a valorização da moeda, havia aumentado.

Até os estagiários de economia sabem que, inclusive para ser explorado, um país tem que ter seus atrativos, e o maior deles é a capacidade de compra dos trabalhadores.

Direitos trabalhistas, como diz Bolsonaro, resultam em poder de compra maior por parte dos empregados.

Por exemplo, um dos direitos trabalhistas mais conhecidos é o 13º salário – que o vice-presidente, Hamílton Mourão, afirma que gostaria de ver extinto.

Os maiores investimentos da história no Brasil ocorreram quando houve a expansão do mercado.

No governo Lula, foram criados 20 milhões de empregos com carteira assinada, sem que nenhum direito trabalhista tenha sido revogado.

No governo de Michel Temer, o desemprego chegou a mais de 13% da chamada população economicamente ativa, mesmo depois da aprovação de um pacote de medidas que retiraram direitos dos trabalhadores e a terceirização irrestrita foi autorizada.

Medidas como as que Bolsonaro pretende implementar produzem lucros maiores, mas nenhum novo emprego.

Até porque as empresas só contratam quando precisam de mão de obra para fazer frente a uma demanda aquecida.

E demanda aquecida só ocorre quando o poder de compra dos trabalhadores aumenta.

Esta é a regra de mercado.

Damares Alves ainda produzirá muita notícia e vai, na prática, causar estragos.

Mas ela é uma gota no oceano de maldades que está vindo por aí.

Um tsunami.

Por isso, tomemos cuidado com a magia.

O ilusionista dirige nosso olhar para outro ponto enquanto executa o truque sem que o público se dê conta.

Sejamos o Mister M, para acabar com essa farra.

***

NA PRIMEIRA SEMANA SEM O “SOCIALISMO”, JÁ VIRARAM O BRASIL DE PERNAS PARA O AR
Ricardo Kotscho em 4/1/2019

Em ritmo alucinante, não deixaram pedra sobre pedra nas conquistas sociais dos últimos anos e deram uma guinada tão forte para a direita que o Brasil corre o risco de cair no mar.

Ao final de quatro anos, poderá ser anexado à África.

Tento fazer um balanço desta primeira semana do bolsonarismo varrendo o “socialismo” do país, mas nem sei por onde começar, tantas são as barbaridades cometidas e anunciadas neste início de governo cívico-militar, uma nova jabuticaba nativa.

Como confundem “socialismo” com direitos e políticas sociais de proteção aos mais pobres, ou seja, a maioria da população brasileira, resolveram atacar ao mesmo tempo as aposentadorias, os índios, os direitos humanos e trabalhistas, a população LGBT, os quilombolas, e entregar tudo nas mãos de quem sempre mandou no país, desde Cabral, com pequenos intervalos.

Jair Bolsonaro foi eleito com 39,2% do eleitorado total e é para seus fanáticos seguidores que vai governar, como deixou bem claro em seus discursos e nas primeiras medidas anunciadas.

Como seis em cada dez eleitores não votaram no capitão, eles que se danem.

“Agora é nóis!”, parecem gritar em Brasília os alucinados novos donos do poder.

O dólar caiu, a Bolsa subiu, o mercado está eufórico. Era tudo o que eles queriam.

Com o especulador Paulo Guedes na Economia e o xerife Sérgio Moro na Justiça, está tudo sob controle.

O resto não passa de figurantes exóticos convocados para distrair a plateia enquanto desmontam o Estado brasileiro de cima a baixo.

Cortar R$8,00 do salário mínimo, a primeira medida do novo governo, foi o de menos.

Ao mesmo tempo, acabaram com o Ministério do Trabalho, deixaram o Coaf sob os cuidados de Moro, decretaram o sigilo nos processos, entregaram a demarcação de áreas indígenas aos latifundiários, a Educação e o Itamaraty a dois discípulos de Olavo de Carvalho e, os direitos humanos, à pastora da goiabeira.

Nada deve surpreender quem acompanhou a carreira político-militar e a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro: ele está cumprindo exatamente o que prometeu _ e o pior é isso.

Em nenhum momento, os novos donos do poder se preocuparam em dar uma esperança aos 12 milhões de desempregados, nem às as legiões de miseráveis e famintos do campo e das cidades, que não param de crescer.

Estes podem esperar. O importante agora é fazer só o que o mercado quer.

Nenhum plano de emergência foi anunciado para o colapso do serviço público de saúde, agravado com a saída dos médicos cubanos, e apontado como o maior problema nacional na pesquisa do instituto Datafolha.

A nova ordem está mais preocupada em combater a “doutrinação marxista nas escolas” e em liberar o fornecimento de armas à população.

Na entrevista de quinta-feira ao SBT (Sistema Bolsonariano de Televisão), o presidente avisou que pretende permitir, não só a posse, mas liberar o porte de duas armas para cada cidadão.

Vamos ter um bangue-bangue para nenhum filme de faroeste botar defeito.

Quem pode segurar o desvario destes novos governantes? Quem controla o enlouquecido chanceler que quer declarar guerra a meio mundo, no melhor estilo do seu êmulo Donald Trump?

Com o Congresso já caindo nos braços do governo e a mídia se dividindo entre amedrontada, eufórica e subserviente, Bolsonaro continua disparando seus tuítes a esmo.

Bolsonaro encontrou tempo, em meio ao tsunami de reuniões, até para desmentir e chamar na chincha pessoalmente, pelo Twitter, uma apresentadora da Globo News, que teve a ousadia de criticar medidas do governo.

E a oposição, por onde anda?

Minoritária no Congresso (deve reunir na Câmara no máximo 150 deputados em 513), está mais dividida do que nunca, com Lula preso, e Ciro solto, sem saber o que quer fazer da vida.

Só no dia 14 o PT vai reunir suas várias instâncias, pela primeira vez depois da eleição, para discutir como se comportar diante do fato consumado do país dominado pelos bolsonaristas em marcha.

Estamos apenas no quarto dia de um movimento fundamentalista teocrático-jurídico-militar, e o país já é outro.

Como o Brasil será num futuro próximo, ninguém sabe dizer.

Para quem fez das urnas um cassino, e das armas um argumento, a sorte está lançada.

Façam suas apostas.

Vida que segue.

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