Tereza Cruvinel: As fogueiras vão arder

Tereza Cruvinel em 3/1/2019

Que haveria perseguição no governo Bolsonaro, todos sabiam. Achei, porém, que não montariam tão rapidamente as fogueiras para a queima de “bruxas petistas”. Que iriam primeiro identificar as bruxas, e depois exonerá-las, disfarçando a perseguição ideológica com pretextos funcionais. Mas não, eles vão queimar as bruxas no atacado, antes de saber quem são.

Nesta quinta-feira o ministro Onyx Lorenzoni, da Casa Civil, vai exonerar cerca de 320 funcionários para “despetizar o governo”. Paulo Guedes anuncia o corte de 3.100 cargos de confiança, em nome do ajuste fiscal, mas alguns cargos serão extintos porque estão ocupados por gente “suspeita”. Junta-se o útil ao que agrada o chefe.

No Itamaraty, além da quebra da tradição hierárquica, permitindo que os mais jovens chefiem os mais graduados e experientes, diplomatas terão suas redes sociais vasculhadas, à procura de postagens que revelem petismo, pendor esquerdista, comunista, bolivarianista ou globalista, e ainda qualquer sinal de ateísmo.

Isso tudo foi só no primeiro dia útil do governo.

No caso da Casa Civil, Lorenzoni tenta mostrar a Bolsonaro que ele dá o exemplo aos outros ministros, para que montem suas fogueiras. Lorenzoni sabe que não há petistas no Planalto. Foram todos demitidos há mais de dois anos, quando Temer assumiu e também fez sua caça às bruxas petistas. Eu mesma era comentaristas da TV Brasil (cuja presidência deixei em 2011, retornando como contratada em 2016) e fui demitida na rápida intervenção que Temer fez na EBC. Eu e muitos outros suspeitos de “petismo”. No Planalto, a grande maioria dos ocupantes de cargos comissionados é composta por funcionários públicos de carreira. Não tendo a Presidência quadro de pessoal próprio, a cessão de funcionários por outros órgãos é obrigatória. Poucos ocupam apenas a função comissionada, que poderiam ter obtido por indicação partidária. Depois de exonerados, todos passarão por uma constrangedora entrevista, em que suas inclinações ideológicas serão testadas. Coisa de ditadura mesmo. Depois reclamam quando falamos em traços fascistas do novo governo.

“Para não sair caçando bruxa, a gente exonera e depois conversa. Nós vamos despetizar o Brasil”, disse Lorenzoni. Errado, ministro. O senhor caça bruxas quando demite por suspeitar que a pessoa seja petista. E depois, não haverá exatamente uma conversa, mas uma inquirição humilhante e constrangedora. Podem perguntar à vítima até em quem ela votou, embora o voto seja secreto por garantia constitucional. É isso que Lorenzoni sugere, quando diz: “vamos governar com aqueles que acreditam em nosso projeto”. Vale dizer, com quem votou em Bolsonaro.

E depois enchem a boca para falar em meritocracia. Que meritocracia se um funcionário, por competente que seja, corre o risco de ser exonerado por conta de suas preferências partidárias?

Ó, tempo das amoras, que já começou.

Uma resposta to “Tereza Cruvinel: As fogueiras vão arder”

  1. Aristóteles Barros da Silva Says:

    Tem sido dito e repetido: “Estamos em plena ditadura judicial/midiática e da parte serviçal do Congresso”. Será preciso desenhar?

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