Ideias retrógradas, mentira e “inimigos” marcam os discursos de posse de Bolsonaro

Sintomático: A terceira-dama usou um vestido tomara-que-caia na posse.

Para acadêmicos, o agora presidente do Brasil ignora temas sociais, ataca quem pensa diferente dele e inaugura período de mistificação no país.

Via RBA em 2/1/2019

Ideias reacionárias, inversões e mentiras, inimigos internos, religiosidade imposta e ausência de sensibilidade para os problemas sociais do país. Essas são as características dos dois discursos pronunciados, no dia da posse, pelo agora presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL), segundo três analistas políticos ouvidos ontem [1º/1] pelo jornalista Glauco Faria na Rádio Brasil Atual.

Francisco Fonseca, professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de São Paulo, avalia que tanto o discurso no Congresso Nacional como o outro no Parlatório não apresentaram novidades e reiteraram um conjunto de pressupostos que vêm sendo utilizados desde a campanha eleitoral.

Para Fonseca, as falas podem ser divididas em duas partes: uma voltada ao discurso conservador relativo aos costumes, e outra baseada na inversões de conceitos. “Falar ‘ideologia de gênero’ como algo depreciativo, num mundo em que as mulheres lutam por direitos iguais, é desconhecer a mais brutal e profunda realidade das mulheres, até em perspectiva internacional”, afirma o professor da FGV.

Ele também considera ultrapassado o esforço do novo presidente em trazer o tema da família tradicional para o centro da vida política. “O Estado moderno separou o público do privado, e a família está no âmbito do privado, do foro íntimo das pessoas”, ponderou, em referência à ideia conservadora de que “família” só pode ser a união entre um homem e uma mulher. “É algo que nos leva para o mundo pré-moderno, quase na Idade Média.”

“É um conjunto de aspectos reacionários, antimodernos e antidemocrático que promovem injustiças, na medida em que a mulher precisa ser protegida, precisa de políticas públicas e, do ponto de vista da família, o reconhecimento de que as pessoas devem viver do jeito que querem viver. Não é um tema de chefe de Estado, o que mostra a pequenez do pensamento de Bolsonaro.”

O segundo eixo, para Francisco Fonseca, é o que chama de “inversões” ou “mentiras” simplesmente. “Quando ele diz ‘vou respeitar a Constituição’ é uma inverdade. Ele já não a respeita nos seus quase 30 anos de mandato. Alguém que é contra os direitos humanos, que é favorável à tortura, que sempre teve descrença no processo democrático…Então ele tem uma história contrária à Constituição brasileira.”

O professor de Ciência Política da FGV também enfatiza o que seria uma inversão de muitas das falas de Bolsonaro sobre a soberania nacional, o povo brasileiro e a classe trabalhadora. “Todas as suas políticas e entrevistas, ou falas de seus apoiadores, são contra a soberania popular e contrários aos direitos dos trabalhadores. Um governo que extingue o Ministério do Trabalho é porque não tem nenhuma consideração pelos trabalhadores. A perspectiva que se abre do governo Bolsonaro, do ponto de vista dos trabalhadores, dos democratas e dos progressistas, é a pior possível. É um discurso que reitera a tragédia que está sendo inaugurada hoje no Brasil.”

Outro ponto destacado por Fonseca é a ideia de haver inimigos, algo recorrente nos discursos de Bolsonaro e que se repetiu na posse. “Quem não é favorável a seu grupo e suas ideias, é considerado inimigo”, afirma, lembrando que o candidato Fernando Haddad (PT) teve 45% dos votos válidos, e que cerca de 30% do eleitorado votou em branco, nulo ou se absteve.

“Falar em nome do povo brasileiro quando na verdade ele representa uma minoria? O país continua dividido. Quem são os inimigos?”, pondera, para logo em seguida responder: “São aqueles que não são adeptos do fanatismo religioso da sua campanha, aqueles que querem justiça social, uma sociedade mais equilibrada, com distribuição de renda. Esses são os inimigos”, explica. “A síntese da fala mostra um regime de extrema-direita e esperamos agora o grande laboratório que será o Brasil. E saber se o Conselho Nacional de Justiça, se o Ministério Público, se o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal Superior Eleitoral, que irá julgar o caixa dois de Bolsonaro, ou seja, se as cortes superiores do Brasil farão o seu papel de fiscalizadora do cumprimento da Constituição.”

Segundo o professor, a posse de Bolsonaro marca o início de um processo de mistificação. “Chama-se de democracia o que é autoritarismo; de povo brasileiro o que na verdade é uma plutocracia, um governo voltado para os empresários; chama-se de defesa da Constituição o que na verdade é uma leitura torpe da Constituição.”

Ideologia
Também frequente na carreira política de Bolsonaro, o discurso contra a ideologia de esquerda foi enfatizado na posse do novo presidente. A narrativa, no entanto, se caracteriza por não perceber o próprio discurso como altamente ideológico, fato demonstrado ao segurar a bandeira do Brasil e exclamar que ela “jamais será vermelha”, como explica Aldo Fornazieri, professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

“Não foram palavras apropriadas para um presidente da República. Foram palavras violentas e agressivas que incitam justamente aquilo que ele disse que queria desarmar, o espírito da luta ideológica.”

Fornazieri ainda aponta a contradição do novo presidente ao dizer que as relações exteriores do Brasil não serão pautadas por ideologia, enquanto ao mesmo tempo nomeia para o Itamaraty um chanceler que se guia exatamente por uma pauta ideológica, alinhada com os Estados Unidos e Israel. “Saltam aos olhos as contradições. Há que se esperar para ver o que vai acontecer, porque ele afirma uma coisa que se desdiz no próprio discurso.”

A referência no discurso à educação, ao dizer que a escola no país agora começará a formar pessoas para “o mercado de trabalho e não para a militância política”, também chamou a atenção de Aldo Fornazieri.

“A educação tem duas funções em qualquer país do mundo, que é formar para o mercado de trabalho e formar para a cidadania, algo que envolve valores, a política e a democracia. O indivíduo não será um bom profissional se não for um bom cidadão, e não será um bom cidadão se não for um bom profissional, essa é a realidade. Então de novo ele cai em contradição e nesse discurso ideológico conservador.”

Sobre a futura relação do governo Bolsonaro com o Congresso, considerando seu discurso contra a classe política, o professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo analisa que, a partir de agora, só a prática irá mostrar como essa relação será na prática. “Em certo sentido, esse discurso contra o ‘toma lá, dá cá’ tem ressonância com uma aspiração justa da população, mas uma coisa é o discurso, outra é a funcionalidade das instituições.”

Mistificação
No mesmo sentido, Paulo Silvino, também professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, diz que os dois discursos da posse mostraram claramente a posição ideológica de Bolsonaro, em que pese o tempo todo ele tentar reiterar a crítica ao que chama de “ideologia”.

“‘Libertar o país do socialismo’… como se de fato nós fôssemos um país socialista, o que é um grande engodo, uma grande besteira. É evidente que nós temos correntes mais à esquerda, socialistas de fato, mas nunca tivemos um governo plenamente socialista. Portanto ele continua, tanto no discurso voltado ao Congresso quanto no discurso voltado à população, tocando em elementos que estiveram presentes na sua campanha e que já mostram a toada do que serão os primeiros três ou quatro meses do seu mandato.”

Silvino reforça que os conceitos são importantes na política, assim como em outras áreas do conhecimento, ao definirem ideais. “E essas ideias, quando deslocadas de sua verdadeira definição, geram interpretações equivocadas”, aponta.

Ela ainda destaca a ausência de menção à expressão “social”, às minorias e às questões de políticas raciais nos discursos de posse de Bolsonaro. Embora reconheça que temas econômicos tenham certa prevalência no momento em função da crise, diz que é preciso perceber a insensibilidade do governo aos temas sociais que são importantes na sociedade brasileira.

“Estamos falando de como atrelar questões econômicas com questões sociais que sempre estiveram presentes como bandeiras das minorias neste país. Como falar de união se, nas entrelinhas, se criminaliza a posição política de alguém e enaltece a outra? Em que pese que eu seja cristão, defendo o Estado laico. Não adianta dizer que Deus está acima de tudo se na hora de fazer políticas não se tem um pensamento universalizante como o evangelho de Cristo”, afirma.

Silvino igualmente critica a obsessão do presidente em apontar quem são os “inimigos” dele e do país. “O problema é que, nessa toada, se elege mais da metade da população brasileira que não votou em Bolsonaro”, pondera, ainda que reconheça o forte sentimento antipetista na sociedade brasileira.

O professor ainda questiona qual o espaço real de quem não votou em Bolsonaro dentro da união que o agora presidente propõe. “Um espaço até para quem não tem lado nenhum e acredita num Brasil menos desigual e que não precisa ser autoritário, não precisa ser truculento ou violento para ser um bom presidente”, define.

***

CINCO PONTOS QUE MARCARAM OS DISCURSOS DE POSSE DE BOLSONARO
Via BBC Brasil em 1º/1/2018

O 38º presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, assumiu o governo neste 1º de janeiro, em cerimônias no Congresso, para o juramento constitucional e a assinatura do termo de posse, e no Palácio do Planalto, onde recebeu a faixa presidencial de Michel Temer.

Em ambos os locais, Bolsonaro discursou. No Congresso, falou a parlamentares e convidados estrangeiros para delinear as prioridades de seu governo. Na rampa do Planalto, ele fez seu primeiro pronunciamento à nação já oficialmente como presidente, discursando perante os apoiadores que foram a Brasília acompanhar a posse.

Bolsonaro manteve o tom de campanha e a defesa da pauta conservadora, além de abordar economia, crise econômica, segurança pública e relações exteriores.

A seguir, a BBC News Brasil destaca os principais pontos das falas do novo mandatário, com observações de três analistas políticos entrevistados pela reportagem.

“Valorizar famílias e respeitar religiões”
“Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e nossa tradição judaico-cristã, combater a ideologia de gênero, conservando nossos valores. O Brasil voltará a ser um país livre das amarras ideológicas”, afirmou Bolsonaro em seu discurso de posse no Congresso, reforçando valores conservadores que foram centrais para a sua eleição.

Esses mesmos temas foram repetidos com mais ênfase mais tarde, no discurso perante a população no Planalto.

“Não podemos deixar que ideologias nefastas destruam valores e famílias. […] Temos o desafio de enfrentar os efeitos da crise econômica, do desemprego recorde, da ideologização de nossas crianças, da desvirtualização dos direitos humanos, da desconstrução da família.”

“O discurso trouxe pílulas do que foi mais marcante na campanha de Bolsonaro e foi coerente com ela”, opina o analista político Rafael Cortez, da consultoria Tendências, em referência à pauta conservadora de valores familiares. “É, também, um discurso de pouco apelo à pluralidade ou ao diálogo entre as instituições, com menções apenas a uma maioria (da população) de perfil definido.”

“Segurança das pessoas”
No discurso à nação, no Planalto, o momento em que Bolsonaro foi mais aplaudido foi quando falou de segurança pública – outro ponto crucial de sua campanha eleitoral.

“É urgente acabar com a ideologia que defende bandidos e criminaliza policiais, que levou o Brasil a viver um aumento nos índices de violência e no poder do crime organizado, que tira vidas de inocentes, destrói famílias e leva insegurança. Nossa preocupação será com a segurança das pessoas de bem, da garantia do direito de propriedade e da legítima defesa. Nosso compromisso é valorizar o trabalho das forças de segurança”, afirmou o presidente.

Mais cedo, no Congresso, ele dissera que contava com o “apoio” dos parlamentares para “dar o respaldo jurídico para os policiais realizarem o seu trabalho”.

Para Cortez, segurança pública “é o tema em que Bolsonaro mais mobilizou as pessoas na campanha e conseguiu criar uma narrativa de que poderia fazer diferente”.

“As referências à posse de armas sinalizam que esse deve ser um dos primeiros temas alvos de medidas presidenciais” em flexibilização do porte de armas, diz o analista.

“Combater o socialismo”
“Este é o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo”, afirmou Bolsonaro, em uma entre diversas menções a “combate a viés ideológico” e a “ideologias nefastas”.

“A construção de uma nação mais justa e desenvolvida requer a ruptura com práticas que se mostram nefastas para todos nós, maculando a classe política e atrasando o progresso. A irresponsabilidade nos conduziu à maior crise ética, moral e econômica de nossa história”, disse.

“Reafirmo meu compromisso de construir uma sociedade sem discriminação ou divisão. Daqui em diante, nos pautaremos pela vontade soberana daqueles brasileiros: que querem boas escolas, capazes de preparar seus filhos para o mercado de trabalho e não para a militância política; que sonham com a liberdade de ir e vir, sem serem vitimados pelo crime; que desejam conquistar, pelo mérito, bons empregos e sustentar com dignidade suas famílias; que exigem saúde, educação, infraestrutura e saneamento básico, em respeito aos direitos e garantias fundamentais da nossa Constituição.”

Geraldo Tadeu Monteiro, professor e pesquisador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), aponta que, diferentemente de outros presidentes antes dele, “Bolsonaro não procurou moderar o discurso de campanha após eleito. Deu declarações de que vai perseguir de forma militante a agenda de campanha. […] Ficou claro que, pelo menos no começo, não será um governo de acomodações de diferentes setores, ainda que ele tenha feito também uma fala de defesa ao princípio democrático.”

Para o brasilianista Brian Winter, editor-chefe da publicação Americas Quarterly, o discurso de Bolsonaro marca “uma grande diferença em relação a qualquer outro discurso (de seus antecessores), com menção a termos como ‘judaico-cristã’, ‘guerra ao socialismo’ e ‘ideologia de gênero’.”

“Mas ele falou também em humildade, e fontes próximas a ele dizem que ele tem escutado pessoas, inclusive as que têm opiniões divergentes da dele. Ao mesmo tempo, as pesquisas mostram que apenas uma pequena porcentagem do eleitorado se opõe a ele no momento (segundo o Datafolha mais recente, 65% dos brasileiros acham que o governo será ótimo ou bom; 12% acham que será ruim ou péssima). Politicamente falando, ele provavelmente não precisa falar com esse público, embora devesse, como chefe de Estado. Mas é assim que a política funciona.”

 

“Romper com antigas práticas” e “reformas estruturantes”
Menções à crise econômica, ao desemprego e à corrupção também marcaram as falas do novo presidente.

“Convoco cada um dos Congressistas para me ajudarem na missão de restaurar e de reerguer nossa pátria, libertando-a, definitivamente, do jugo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade econômica e da submissão ideológica”, disse Bolsonaro na abertura de seu discurso de posse no Congresso.

As falas defenderam o livre-comércio, a propriedade privada, a meritocracia e de “tirar peso do governo sobre quem trabalha”.

“Montamos nossa equipe de forma técnica, sem o tradicional viés político que tornou o Estado ineficiente e corrupto. […] Na economia traremos a marca da confiança, do interesse nacional, do livre mercado e da eficiência. Confiança no cumprimento de que o governo não gastará mais do que arrecada e na garantia de que as regras, os contratos e as propriedades serão respeitados.”

“Realizaremos reformas estruturantes, que serão essenciais para a saúde financeira e sustentabilidade das contas públicas, transformando o cenário econômico e abrindo novas oportunidades. Precisamos criar um círculo virtuoso para a economia que traga a confiança necessária para permitir abrir nossos mercados para o comércio internacional, estimulando a competição, a produtividade e a eficácia, sem o viés ideológico.”

“Brasil ocupar o lugar que merece”
Nas relações internacionais, Bolsonaro disse querer “fazer o Brasil ocupar o lugar que merece no mundo”.

Segundo ele, o objetivo é “tirar o viés ideológico das relações internacionais, que atendem interesses partidários que não o dos brasileiros”.

A política externa retomará o seu papel na defesa da soberania, na construção da grandeza e no fomento ao desenvolvimento do Brasil.

Até agora, isso se traduziu em uma aproximação com países como Israel – o premiê Benjamin Netanyahu compareceu à posse e fez uma visita oficial ao país – e Estados Unidos.

Mais além do simbolismo, porém, “nem pessoas próximas ao governo de Donald Trump sabem exatamente o que esperar e quais políticas serão implementadas”, afirma o brasilianista Winter. “Se será na área de comércio? Não se sabe se o Brasil embarcará em uma negociação significativa (para aumentar as trocas comerciais) com os EUA ou qual será a grande diferença (em relação a Temer).”

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