Um escândalo na família

Sérgio Saraiva em 28/12/2018

Gilberto Dimenstein foi muito feliz ao descrever o futuro governo Bolsonaro: “Bolsonaro está começando seu governo no estado em que outros presidentes acabam”.

Isso porque escândalos e casos que costumam vitimar governos no seu final estão presentes no governo Bolsonaro, mesmo antes de sua posse. A bem da verdade, as sombras de Fernando Haddad e do PT são o principal escudo de Bolsonaro. Porém, por quanto tempo o antipetismo defenderá Bolsonaro? Eis a questão.

Há pelos menos três casos – dois escândalos de alta octanagem – que colocam o TSE, o Ministério Público Federal e a Polícia Federal na encruzilhada do governo Bolsonaro.

O caixa 2 – o maior deles, denunciado pela Folha de S.Paulo, o caixa 2 para disparo em massa de mensagens via grupo de WhatsApp. Pago por empresários e não declarado na prestação de contas da campanha de Bolsonaro. Há nomes e quantias. Coisa de dezenas de milhões de reais. Nomes de quem pagou, para quem e do informante. Documentos e o roubo de dados de idosos para viabilizar as operações de disparo em massa de mensagens com fake news contra Haddad durante as eleições. O caso está com o ministro Barroso – que aprovou com elogios as contas de Bolsonaro, mas manteve a investigação em relação ao caixa 2. Barrosianas. Esse escândalo ameaça o mandato de Bolsonaro. Mas nada acontecerá, por enquanto. Se condenado, perde o mandato. E isso acontecendo antes da metade do mandato, tanto pode dar Haddad – impensável – quanto se convocar novas eleições – Haddad de novo, impensável. Mas é possível manter-se cuidadosamente esse escândalo em banho-maria até a segunda metade do mandato. A partir de então, a bola estará com o Congresso Nacional. Foi assim com a chapa Dilma-Temer e as doações da Odebrecht. O mandato de Bolsonaro, no limite, estaria sujeito, então, aos ritos do TSE, durante toda a sua duração.

O caso Queiroz – Bolsonaro está diretamente envolvido, dado o cheque depositado na conta de sua mulher. O caso tem ares de ser um clássico. Queiroz seria o caixa de Flávio Bolsonaro – deputado estadual do Rio de Janeiro. Recolheria, além de talvez alguma mesada, os salários de funcionários fantasmas e quitaria com eles as contas da família Bolsonaro. Queiroz não é investigado e não pesa contra ele oficialmente nenhuma acusação. Uma situação estranha onde há provas, mas não há convicção. Mas isso por enquanto. Nada vai ocorrer até que Bolsonaro assuma. Depois disso, não poderá ser investigado por crime anterior ao mandato, até o fim do mandato. Sem risco de dar Haddad. Com o filho eleito senador, isso é diferente. E tudo dependerá da ação ou inação do Ministério Público Federal. E lá está Raquel Dodge. Buscando a recondução ao posto de PGR – procuradora geral da República e já rejeitada por Bolsonaro. Rejeitada, até aqui.

E há ainda, correndo por fora, a extemporânea investigação da Polícia Federal em relação a Adélio Bispo – a pessoa que esfaqueou Bolsonaro durante a campanha eleitoral.

O caso Adélio Bispo – a questão aqui é o porquê dessa investigação. Aparentemente o caso está encerrado desde o início. Adélio foi apresentado, pela própria Policia Federal que cuidou inicialmente do caso e efetuou sua prisão em flagrante, como um desequilibrado. Um psicopata com delírios persecutórios de fundo político-ideológico que teria agido sozinho no atentado à vida de Bolsonaro. Isso atestado por psiquiatras forenses. Caso encerrado. Só que não.

Uma outra equipe da mesma Polícia Federal investiga também o caso. No mínimo, pouco usual. Preocupam-se com que poderia haver um mandante, por trás de Adélio. Então, a própria Polícia Federal que atestou que Adélio agiu sozinho é incompetente ou está acobertando um mandante de atentado político? A contradição entre a conclusão apresentada e essa investigação é gritante.

Não que não existam acontecimentos estranhos no caso.

Bolsonaro era protegido por elementos da própria Polícia Federal, nas suas caminhadas públicas durante a campanha. Como Adélio – um tipo estranho ao grupo – pode chegar tão perto de Bolsonaro? A Polícia Federal é descuidada a esse ponto? E se Adélio não foi percebido como alguém estranho ao grupo? E por que não seria?

Adélio foi preso em flagrante, no local do crime, acabara de esfaquear “o mito” de todos que ali estavam – mais de uma centena de homens vociferando macheza e violência. E, no entanto, a Polícia Federal, que não protegeu Bolsonaro, garantiu a segurança de seu agressor. Adélio chegou à delegacia sem que tivesse recebido sequer um tapa desferido por um bolsonarista transtornado de dor. Como se, surpreendidos pelo ato, os bolsonaristas não soubessem o que fazer. O que os surpreenderia? Não esperavam aquela ação vinda de alguém como Adélio?

Adélio é um psicopata. Mas era também um trabalhador volante, desses que rodam o interior do Brasil – no caso dele, Minas Gerais – de cidade em cidade, sobrevivendo de pequenos trabalhos temporários e mal pagos. Seus parentes, do norte do Estado, são tão pobres que tiveram de se cotizar para que, pelo menos, um deles pudesse viajar até Juiz de Fora – no sul do Estado – para visitá-lo na prisão. O próprio Adélio estava havia poucos dias na cidade.

Como alguém assim tem um benfeitor secreto – e anônimo até para o advogado contratado – que paga R$300 mil para bancar a sua defesa? Defende o mandante? Há um mandante?

Em plena campanha eleitoral, Adélio não foi interrogado a ponto de dizer se obedeceu às ordens de um mandante? Adélio um ex-militante do PSOL. A Polícia não se interessou em perguntar? O PSL – partido de Bolsonaro – tampouco se interessou? Adélio se manteve estoicamente em silêncio? Não teria um telefone celular que pudesse ter rastreado as suas ligações? Como faria contato com esse suposto mandante?

Essas perguntas poderiam também ter-lhe sido feitas pela imprensa, mas o ministro Gilmar Mendes proibiu Adélio de dar entrevista. Censurou ninguém menos que a revista Veja – sua velha amiga. Atendia a uma solicitação do TRF3 – Tribunal Regional Federal – que temia que a entrevista pudesse atrapalhar as investigações. Como poderia? O que os jornalistas poderiam obter de Adélio que a Polícia Federal já não soubesse? O caso de um psicopata andarilho do interior justifica a atenção de um ministro da Suprema Corte?

E por fim, como Adélio – um trabalhador volante do interior de Minas Gerais – conseguiu recursos para frequentar o clube de tiro frequentado pelos filhos de Bolsonaro… em Santa Catarina?

Orbitando esse fato, a revista Época de 14 de dezembro de 2018 traçou um perfil de Carlos Bolsonaro – filho do meio de Bolsonaro e frequentador do clube de tiro – que o retrata como uma personalidade problemática – quando não violenta, quase um psicopata também. E a mesma revista diz que Carlos estava em Juiz de Fora quando Adélio agrediu seu pai.

E o que Carlos Bolsonaro quis dizer quando postou em sua conta no Twitter que a eventual morte de seu pai “não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto”? De quê aparentemente se defende, quando diz que fez sua parte e que é preciso entender o contexto da situação?

Em 21 de dezembro de 2018, a Polícia Federal invadiu o escritório do advogado de defesa de Adélio – o escritório funcional de advogados é inviolável por lei, mas, aqui, de nada adiantou a lei. Oficialmente, queriam saber se o advogado sabia o nome de quem o pagara para defender Adélio. Seria essa pessoa o mandante?

Buscavam saber se o advogado sabia o nome de quem o pagara ou buscavam confirmar e garantir-se de que o advogado realmente não sabia o nome de quem o pagara?

A pergunta acima fica no campo da teoria da conspiração. Mas imaginemos, por um momento, que Adélio tenha sido recrutado – e sabe-se lá com que propósito – por alguém próximo a Bolsonaro. A campanha de Bolsonaro foi uma polifonia de muitos grupos de apoio sem um comando centralizado. Parece loucura? Não, não creio que essa hipotética pessoa que teria hipoteticamente arregimentado Adélio seja mandante de um atentado. Apenas alguém que desavisadamente teria aproximado um psicopata do candidato vencedor das eleições de 2018. Isso traria respostas para muitas das indagações acima. E colocaria a Polícia Federal de posse de uma informação que deveria ser tratada com todo o sigilo que a sensibilidade de sua não revelação exige. Sabemos que a Polícia Federal não vaza informações, mesmo quando isso possa ser do interesse de algum ator político em particular.

Então, nesse caso, ao menos, o governo Bolsonaro pode ficar tranquilo. Até porque Sérgio Moro – no Ministério da Justiça – comandará a Polícia Federal. E Moro é conhecido pelo trato sigiloso que dá às informações a que tem acesso e jamais agiu em interesse próprio, nos casos de que cuidou.

Ainda que tenha quem diga que sua indicação ao cargo de ministro da Justiça, após ter mandado para a prisão o principal adversário de Bolsonaro, já seria por si só um escândalo.

Uma resposta to “Um escândalo na família”

  1. heloizahelenapiasblog Says:

    lembram do COLLOR, vou limpar BRASILIA,e o congresso e tudo mais, falava q ia fazer isso e aquilo, e o q aconteceu, foi vergonhosamente cassado seu mandat0, e agora como fica se o Rei q será empossado amanhã já está c o rabo brem prezo e defamado, aliás os principes e ss motoristas kakakakaka ________________________________________

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