Para entender a crise global e os juros norte-americanos

Luis Nassif em 28/12/2018

Entenda o xadrez acima
Nos últimos anos, a inflação norte-americana convergiu para a meta fixada pelo FED (o Banco Central norte-americano) de 2% ao ano.

O mainstream econômico desenvolveu duas teorias sobre a inflação.

Uma é a teoria fiscal dos preços, que diz que sempre uma economia em desequilíbrio fiscal gera inflação. Outra, a teoria monetária que vê uma relação inversa entre juros e inflação. Sempre que a taxa real de juros cai, a inflação sobe. Por isso, um desequilíbrio fiscal também provocaria inflação, na medida em que exigiria mais emissão de moeda para cobrir o déficit. Com mais emissão, teoricamente haveria mais inflação, exigindo mais juros.

Nos últimos anos, no entanto, mesmo com juros próximos a zero, a uma situação fiscal delicada, a inflação cedeu nos EUA. Mas o resultado foi fundamentalmente influenciado pelo IPC Energia, que despencou em 2014 e 2015 (–10,6% e –12,6% respectivamente) devido à queda nos preços internacionais das commodities. Nos últimos tempos, os preços voltaram a subir, de 40% para o petróleo e 20% para os metais, puxando novamente a inflação, e levando o FED a anunciar o aumento dos juros.

Aumentando os juros, o xadrez da economia global segue o roteiro do infográfico.

O impacto sobre as dívidas corporativas
Há dois efeitos da alta de juros.

Um é sobre as dívidas corporativas, nos EUA e nos emergentes, principalmente China, Índia, Brasil, África do Sul, Turquia e Argentina. Segundo o Instituto de Finanças Internacionais (IIF) em 2018 e 2019 estarão vencendo US$1 trilhão de dívidas denominadas em dólares nos países emergentes. No caso brasileiro, um volume robusto de reservas torna a situação cambial mais confortável, mas, mesmo assim, não resolve o problema do endividamento das corporações não financeiras.

Segundo a Bloomberg, 25% dos créditos corporativos na China e no Brasil são de alto risco. Se a taxa do dólar aumentar em 200 pontos bases, esse percentual poderia aumentar para 45%. O BIS (o Banco Central dos Bancos Centrais) apontou como um dos grandes fatores de risco a concentração de dívida corporativa nos Estados Unidos na categoria de crédito BBB (um nível apenas dos títulos junk).

O segundo efeito é sobre o preço dos ativos. Há dois movimentos derrubando os preços. O primeiro, de empresas se desfazendo de ativos para honrar compromissos. O segundo, própria elevação dos juros, que impacta diretamente o preço dos ativos globais. Isso leva a uma queda no valor das garantias dadas, aumentando o risco do efeito contágio.

O impacto sobre as dívidas públicas
O risco do endividamento é medido pela relação dívida/PIB. Há duas maneiras de reduzir essa relação: uma é através da redução da dívida (o numerador); a outra, através do aumento do PIB (o denominador).

O alerta do BIS colocou dois pontos claros:

– A política monetária deve continuar sendo favorável, mas é importante encontrar outras formas de políticas macroprudenciais para garantir que os riscos do mercado financeiro sejam mantidos sob controle.
– É importante colocar em prática políticas que apoiarão o crescimento no longo prazo.

O aumento do PIB, aliás, permite dois movimentos virtuosos: reduzir a relação, pelo aumento do denominador; e reduzir a dívida porque crescimento traz aumento da arrecadação fiscal.

O grande nó que divide neoliberais e neokeynesianos é sobre os limites para estimular a economia.

As ferramentas de estímulo são as seguintes:

1) Aumento dos gastos públicos, o que significa, em um primeiro momento, aumentar a relação dívida/PIB até que os resultados comecem a aparecer.
2) Redução dos juros e aumento da oferta de crédito. Muito tempo de juros mínimos induz a um aumento do endividamento, como de fato ocorreu depois de 2008. Hoje em dia, depois de um bom período com taxas próximas de zero, não se acredita mais no estímulo monetário para reativar a economia.
3) Flexibilização fiscal. Da mesma maneira, significaria um aumento do numerador (pela redução fiscal), antes que comece a influenciar o denominador (o PIB).

Em síntese, há nuvens se formando no horizonte da economia mundial e da brasileira. E os timoneiros, no caso dos EUA e do Brasil, são dois desvairados que precisam ser contidos por assessores para não colocar a nave a pico.

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