Kennedy Alencar: Pelo padrão Lava-Jato, Queiroz já teria sido preso

É ruim começar governo com suspeita de corrupção.

Kennedy Alencar em 28/12/2018

Pelo padrão estabelecido pela Lava-Jato no Judiciário e no Ministério Público nos últimos anos, já teria sido decretada a prisão temporária ou preventiva de Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar e dublê de motorista e segurança de Flávio Bolsonaro, deputado estadual fluminense e senador eleito.

O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) rastreou movimentação atípica de R$1,2 milhão em conta bancária de Queiroz no período de janeiro de 2016 a janeiro de 2017. Funcionários da Assembleia Legislativa e uma ex-assessora do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL/RJ) fizeram depósitos na conta de Queiroz. Nathalia, ex-assessora do presidente eleito, é filha de Queiroz.

Em entrevista concedida ao SBT em 26/12, o ex-assessor parlamentar não deu explicação específica sobre essa movimentação, afirmando que o faria em depoimento futuro ao Ministério Público. Ele faltou a quatro depoimentos alegando ter grave problema de saúde.

O caso Queiroz sugere uma série de perguntas às autoridades.

Como o Judiciário e o Ministério Público vão agir num imbróglio que envolve a família Bolsonaro?

A falta de explicação de Queiroz fragiliza a sua situação jurídica e eleva a suspeita de que ele seria um laranja para arrecadar parte de salários de servidores da Assembleia Legislativa do Rio e também de uma então funcionária do gabinete do deputado federal Jair Bolsonaro. Nessa hipótese, houve extorsão da parte dele ou existiu esquema com autorização superior?

É fundamental que o Ministério Público ouça os funcionários que abasteceram a conta de Queiroz. Quantos depoimentos já foram tomados ou estão marcados?

Outra pergunta: a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, tomará alguma providência em relação à ex-assessora de Bolsonaro e filha de Queiroz? Afinal, há dinheiro federal depositado na conta do ex-assessor parlamentar.

A Procuradoria Geral da República fez denúncia recente contra o senador José Agripino Maia (DEM-RN) por associação criminosa e peculato, acusando-o de ter mantido um funcionário fantasma durante 7 anos.

Houve vazamento da investigação do Coaf e alerta para as exonerações de Queiroz e sua filha Nathalia? Pai e filha foram demitidos no mesmo dia, 15 de outubro, dos gabinetes de Flávio e Jair Bolsonaro. Se ocorreu um vazamento, poderia ser apontada eventual obstrução de Justiça?

Todo político deve satisfações à opinião pública.

Um político que se elegeu presidente com o discurso de combate a corrupção e de moralidade no trato da coisa pública não pode deixar de dar mais explicações sobre as atividades da ex-assessora Nathalia Queiroz em seu gabinete.

Integrantes do futuro governo buscam minimizar a importância de um caso com potencial explosivo. É negativo que uma nova administração comece com tamanha nuvem de suspeita.

O futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, disse em entrevista em 11 de novembro ao “Fantástico”, da Rede Globo, que também teria a função de auxiliar Bolsonaro a avaliar eventuais casos de corrupção. Moro disse que seria possível fazer “juízo de consistência” sobre tais acusações e agir, eventualmente demitindo ministros.

O caso Queiroz parece merecer mais atenção do ex-juiz Moro.

Como figuras importantes da Lava-Jato agiriam nessa situação? Alguma medida preventiva já teria sido tomada, por exemplo, para evitar eventual contato de Queiroz com quem fez depósitos na sua conta bancária?

Ontem, o Ministério Público do Rio de Janeiro divulgou nota afirmando que o ex-assessor de Flávio Bolsonaro comprovou a gravidade de seu quadro de saúde e que daria o depoimento após eventual cirurgia para retirar um tumor do intestino.

Ao longo da Lava-Jato, operação que serve de inspiração para o Judiciário e o MP de todo o país, houve medidas duras contra investigados que estavam gravemente doentes, como conduções coercitivas a quem não havia sido intimado a depor e até prisões temporárias e preventivas.

Naufrágio político
Vice-governador eleito do Acre e deputado federal, Major Rocha fez pedido ao Conselho de Ética do PSDB para expulsar o senador e deputado federal eleito Aécio Neves. Acusado de corrupção, Aécio virou um problema para os tucanos.

Uma ala quer sua expulsão ou que o político mineiro tome a iniciativa de deixar o partido. Outro grupo diz que há mais tucanos acusados de corrupção e que Aécio não deveria pagar o pato sozinho.

Há quatro anos, Aécio perdera a eleição presidencial para Dilma, mas era um promissor líder da oposição e um nome com forte chance de ser eleito para comandar o país em 2018. Seu ocaso reflete o caminho de autodestruição trilhado pelas escolhas políticas do PSDB nos últimos anos.

Sigmaringa Seixas
O advogado e ex-deputado federal Sigmaringa Seixas morreu no dia de Natal, aos 74 anos. Ele foi um dos responsáveis pela moldura da atual composição do Supremo Tribunal Federal.

Bem-humorado, brincava que tinha certos arrependimentos em relação a ministros que chegaram ao tribunal com o seu apoio. Ele foi um conselheiro importante do então presidente Lula em relação a questões políticas em geral e ao Supremo em particular.

Bom articulador, era o canal de Lula com ministros do STF. Ele era próximo do ex-presidente, que não teve autorização da Justiça para comparecer ao velório e sepultamento do amigo. Foi filiado ao PT e ao PSDB e manteve pontes entre os dois partidos no auge da rivalidade entre petistas e tucanos.

Figura doce e firme, Sigmaringa demonstrou coragem quando o Brasil mais precisava dela. Foi um atuante advogado de direitos humanos durante a ditadura militar de 1964, defendendo perseguidos políticos. É um exemplo a inspirar atitudes contra o autoritarismo e o preconceito.

Verde
O documento com a agenda de 100 dias do futuro governo Bolsonaro é genérico. Mostra que propostas ainda estão em estágio embrionário. O tempo da transição de governo não parece ter sido bem aproveitado.

Há temas, como a reforma da Previdência, que já estão num grau de maturidade alto no Congresso. Mas a estratégia do novo governo não está clara em relação a essa reforma. A conferir.

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