Fernando Horta: Uma estranha ideia de Democracia

Gilles Deleuze.

Fernando Horta em 30/12/2018

Gilles Deleuze argumenta, em seu Mil Platôs, que o fascismo pode se esconder dentro do liberalismo. Ser “liberal” pela metade, escamoteia os “microfascismos”, as práticas autoritárias do dia a dia, que fazem o fascismo forte. Quando se defende apenas a prática do voto e não de um processo de representação limpo e amplo, temos exatamente este exemplo. Quando se defende a “liberdade de expressão” e não a “liberdade de existir”, temos outro. Atitudes “meio liberais”, ações e argumentos que defendem apenas as aparências, contribuem para o autoritarismo que o Brasil vive. É exatamente a sentença do ex-juiz de piso, Sérgio Moro, ou o impeachment de fachada que Dilma sofreu. Respeitam-se os “passos processuais”, mas não o cerne constitucional. Como se a forma definisse o conteúdo.

A última discussão política do ano de 2018 é bastante explicativa dos nossos tempos. A decisão de PSOL e PT (e tardiamente o PCdoB) de não irem à posse do presidente fascista provocou a saída do armário de diversos “liberais” que primam pela “isenção”, adoram a “democracia”, defendem o “diálogo”, e parecem não ter ido a nenhum funeral dos mais de 60 líderes sindicais, militantes de esquerda, quilombolas, feministas, ou defensores de pautas LGBT que foram assassinados no país, desde que Bolsonaro fez do ódio e do extermínio de opositores sua plataforma para a presidência.

É triste ver uma casca de Fabergé com conteúdo fétido e podre. Triste, mas elucidativo.

Não há uma intervenção falada ou escrita do fascista, nos últimos anos, que não seja carregada de ódio e incitando a violência contra seus opositores. O príncipe-herdeiro do novo regime ditatorial brasileiro, o filho do fascista, já demonstrou isto fazendo uma “compilação” dos “melhores momentos” do todo-poderoso pai na internet. A mesma figura que disse que o STF seria fechado com um cabo e um soldado, que quer julgar “os crimes de Cuba” no Brasil, contribui grandemente para explicar os “bolsonaros” pelos “bolsonaros”. E, tirando as ignorâncias e violências, não sobra nada de civilizado ou democrático no vídeo.

Por certo também aqueles que defendem que o PT, PSOL e PCdoB devam ir à posse do fascista concordam que Lula esteja preso. Devem também achar que foi “democrático” o uso do WhatsApp para promover mentiras, pago com dinheiro de empresários não declarado. Também devem concordar com o uso, em escala nunca antes vista, de “visitas” de candidatos militares a organizações militares pelo país, pedindo votos e indicando “um dos nossos” para receberem votos de soldados e cabos. As pessoas que defendem que se deva ir à posse daquele que ameaça a todos de morte e prisão devem não se importar com “grupos apolíticos” financiados de formas escusas e, não raro, internacionalmente originadas.

Talvez, para esta gente, democracia seja apenas o ato de colocar o voto na urna. Não importando que o regime tenha proibido candidatos mais votados, feito vistas grossas para o uso – apenas por um dos lados – de recursos proibidos legalmente e da violência institucional travestida de “lei”. Também, neste liberalismo de forma, deve ser tolerável o convite – no meio da campanha – ao juiz medieval, que levou a cabo as violências mais explícitas contra a oposição do regime a que veio a integrar. Pode-se dizer que neste novo liberalismo verde-oliva, generais garbosos comandando tropas no Twitter ameaçam a Suprema Corte, apenas dentro do mais puro e original sentido rousseauniano de “vontade da maioria”.

Esta casca oca de liberalismo defende que vale tudo até o voto ser colocado na urna, e deste ato sagrado e mágico nasce um regime democrático alvo e completo de legitimidade. Parecem defender que as oposições devam se ajoelhar e beijar o anel do monarca, em sinal de submissão ao “Deus Mercado”, aquele que compra tudo, até eleições. É importante ir à posse como ato de “respeito à democracia”, mas não é importante respeitar a Constituição defendendo que jornalistas tenham livre trânsito no novo regime, por exemplo.

Que me perdoem os que isto defendem, mas me é muito estranha esta nova ideia de democracia. Nela Saddam Hussein cabe perfeitamente, já que foi eleito com mais de 90% dos votos em seu país. Stalin venceu oito eleições consecutivas no distrito de Moscou para o Politburo, entre 26 e 53. Penso que nesta nova definição de democracia, em que os ritos purificam o processo, tenhamos que dizer que o Sacro Santo Império Romano Germânico que durou do século 10 até o século 19, na Europa, tenha sido a primeira experiência democrática do mundo. Naquele valoroso e ímpio regime, os imperadores eram eleitos por “príncipes eleitores” que “representavam” os seus principados. As eleições eram cíclicas, cada um votava “de acordo com sua consciência” e todos compareciam à possa fazendo os devidos juramentos.

A barbaridade defendida por alguns, incluindo gente que parecia de esquerda, me recorda uma fala de Robespierre, durante o processo da Revolução Francesa, quando os girondinos queriam julgar Luís 16 porque, segundo eles, “este era o caminho da civilização”. Robespierre, em discurso no dia 3 de dezembro de 1792, diz que:

“Propor o processo de Luís 16, seja da maneira que for, é retroceder ao despotismo real e constitucional […], se Luís pode ser ainda objeto de processo, Luís pode ser absolvido, pode ser inocente. Digo mais: ele é considerado inocente até que seja julgado!”

Naquela casca de liberalismo e “justiça”, se escondiam os mais venais interesses contrários ao povo. Exatamente como hoje fazem os que defendem a “posse” do fascista. Robespierre desmascara isto de forma brutal e direta:

“Nós mesmos convidamos os cidadãos à baixeza e à corrupção. Um dia poderemos bem atribuir aos defensores de Luís coroas cívicas, pois esse eles defendem sua causa, podem esperar fazê-la triunfar…”

Talvez, dentre os que defendem o simulacro de democracia que vivemos, existam aqueles que estejam “torcendo para dar certo” um regime que propõe matar seus opositores e que não tem uma vírgula dita sobre emprego e renda para trabalhadores e os mais necessitados. E sobre isto, Robespierre também nos dá uma aula:

“E ousamos falar em República! Invocamos formas porque não temos princípio, gabamo-nos de delicadeza porque nos falta energia; exibimos uma falsa humanidade porque o sentimento da verdadeira humanidade nos é estanho; reverenciamos a sombra de um rei porque não sabemos respeitar o povo; somos ternos com os opressores porque somos sem entranhas para com os oprimidos”.

Robespierre, como se sabe, era comunista…

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