Explicações de Queiroz são piores do que o silêncio

“UM CARA DE NEGÓCIOS” DA CONFIANÇA DOS BOLSONARO
Helena Chagas em 27/12/2018

Agora está explicado por que o Queiroz ficou escondido por mais de 20 dias, deixando a família Bolsonaro exposta ao constrangimento do Coafgate: suas explicações parecem piores do que o silêncio. Até porque não explicam o principal, que é a razão pela qual os ex-funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro faziam depósitos em sua conta. Em suas explicações Queiroz disse que prefere deixar para o Ministério Público – que já o convocou pelo menos duas vezes para depoimento e levou bolo.

A narrativa do ex-funcionário dos Bolsonaro não está convencendo nem mesmo gente de casa, ligada ao novo governo, porque não para de pé. É até possível, sim, que Queiroz compre e revenda carros usados. Mas vai ter que suar para explicar como movimentou R$1,2 milhão em um ano com esse comércio. Caberá a seus investigadores do MP cobrar provas dessas operações.

O pior de sua performance na entrevista ao SBT (não entendi por que não foi para a Record), porém, foi o conjunto da obra. O que ficou foi a imagem de um sujeito que, com um sorriso nervoso, se definiu como “um cara de negócios”, mencionou doenças que foram da bursite ao câncer para justificar a ausência nos depoimentos e não disse sequer o nome do hospital onde supostamente se internou.

Fabrício Queiroz entra na política brasileira como um personagem que seria da confiança do presidente da República que toma posse daqui a cinco dias, a ponto de receber dele um empréstimo de R$40 mil. Não há como não pensar no velho ditado: diz-me com quem andas…

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QUEIROZ REPRODUZ ESTILO DE COMUNICAÇÃO DOS BOLSONARO EM ENTREVISTA
Ex-assessor de Flávio Bolsonaro não esclarece dinheiro suspeito, mas entrevista “cola” em apoiadores dóceis da família e conta com passividade da mídia.
Tiago Pereira, via RBA em 27/12/2018

As respostas de Fabrício Queiroz em entrevista ao SBT na quarta-feira [26/12] não serviram para esclarecer as origem das movimentações financeiras atípicas apontada em relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) no início do mês. “Sou um cara de negócios, faço dinheiro”, justificou o ex-assessor e coordenador de segurança do deputado estadual, e agora senador eleito, Flávio Bolsonaro (PSL/RJ).

Contudo, ao emular o estilo de comunicação da família Bolsonaro, as evasivas de Queiroz atendem ao público de apoiadores do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), dispostos a “engolir”, qualquer tipo de justificativa, com postura dócil e benevolente.

Nenhuma palavra foi dita sobre o montante de R$1,2 milhão movimentado por Queiroz, nem sobre os depósitos realizados por outros nove assessores em sua conta, que coincidiam com as dias de pagamento da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Sobre a dupla ausência quando convocado para prestar esclarecimentos ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MP/RJ), Queiroz alegou múltiplos problemas de saúde, que vão desde uma inflamação muscular crônica num dos ombros a um câncer de intestino que demandaria cirurgia nos próximos dias. Ainda que sejam verdadeiras as afirmações sobre o seu real estado de saúde, esse tipo de declaração também serviu para angariar a simpatia do público, que se compadece diante do quadro de fragilidade alheia.

A escolha do SBT por parte de Queiroz – e também dos Bolsonaro, na medida em que dificilmente a decisão sobre quando, onde e para quem falar, foi tomada individualmente pelo ex-assessor – teve dois objetivos. Primeiro, falou para um veículo que adota postura amistosa em relação ao novo governo. Queiroz não foi incomodado em nenhum momento pelas indagações da repórter Débora Bergamasco, que se contentou em deixar falar o entrevistado. Por outro lado, serviu para tentar atrair para si a responsabilidade sobre o episódio, aliviando a barra para a família Bolsonaro.

“Foi uma entrevista bem leve. A repórter se contentou com respostas pouco explicativas e ele foi bastante evasivo. Fica relativamente clara a escolha de um veículo chapa branca, que não fizesse as perguntas que precisavam serem feitas”, confirma o professor de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero Rodrigo Ratier.

Quando perguntado sobre os R$24 mil depositados na conta da futura primeira-dama Michelle Bolsonaro, por exemplo, Queiroz diz que, na verdade, foram R$40 mil. Contudo, não esclarece o motivo da transação, se resumindo a afirmar que a explicação já teria sido dada “pelo nosso presidente”.

“Não houve tentativa por parte da repórter de fazer perguntas difíceis e incômodas, e o jornalismo é isso. A gente pode ser respeitoso e, ainda assim, fazer as perguntas que precisam ser feitas. Foram perguntas muito protocolares, respostas evasivas, e a repórter se contentava com isso. O tom pode ser respeitoso, mas, ao mesmo tempo, ter mais incisividade. A movimentação financeira de R$1,2 milhão de reais não foi sequer mencionada”, ressalta Ratier. “As grandes questões, que poderiam configurar algum tipo de crime, com a devolução de parte dos salários dos assessores, tudo isso continua em aberto.”

“Queiroz tem uma retórica muito similar a dos Bolsonaro, até pela longa convivência. O jeito de falar é um elemento que eles usam intencionalmente como forma de parecer do povo. A forma de expressar, as ideias sem tanta clareza ou encadeamento lógico. Para o público deles, esse tipo de linguagem é muito eficiente. Para quem está familiarizado com os vídeos do Bolsonaro, com as lives no Facebook, Queiroz utiliza a mesma linguagem. É o mesmo estilo e tipo de justificativa. Além da percepção de que todos fazem parte de uma mesma família”, afirma o cientista político Leonardo Rossatto Queiroz, especialista em Políticas Públicas e mestre em Planejamento e Gestão de Territórios pela Universidade Federal do ABC (UFABC).

Rossato também acredita que, para os ouvidos dos eleitores da família Bolsonaro, as evasivas de Queiroz soaram muito bem – ainda que não tenham servido em nada para esclarecer o público em geral. “Vai continuar gerando burburinho nos círculos de poder e entre quem é contra o Bolsonaro, porque não gerou grandes esclarecimentos, mas é uma entrevista que, como toda a retórica do Bolsonaro, atinge em cheio o seu público-alvo, aquele que já acredita nele, que eventualmente tem alguma desconfiança, e busca justificativas. O mais interessante é que essas justificativas triviais – a venda de carros por exemplo, o estado de saúde – tocam muito nesse público, de classe média ou classe média baixa, que tem uma familiaridade com esses temas. Todo mundo tem aquele amigo que faz uns rolos com automóveis.”

O professor da UFABC também critica a jornalista responsável pela entrevista. “A minha percepção é que, enquanto linguagem, enquanto forma de falar, foi apropriada para o próprio público dele. A entrevistadora também ajudou nesse sentido. Ela não fez grandes questionamentos. Basicamente, com os dados que tinha na mão, deixou ele contar a sua versão sem colocá-lo numa situação desagradável em nenhum momento.”

Rodrigo Ratier, da Cásper Líbero, diz que os padrões de recepção por parte de uma parcela do público mudaram muito depois das eleições, a partir da disseminação em massa de fake news. Mesmo com formatos “toscos” e rudimentares, que incluíam vídeos apócrifos, memes e fotomontagens, não levantavam suspeitas sobre a credibilidade do conteúdo em questão, já que adotam tom emocional que prevalece sobre a razão.

“Antes, diria que é muito difícil que o público, como um todo, comprasse essas respostas como válidas. Depois da eleição, somado a esse clima benevolente para com os Bolsonaro, que combina um eleitorado dócil, em certo sentido, e uma mídia pouco combativa para fazer as perguntas necessárias, o conteúdo desta entrevista até pode ser encarado como uma espécie de esclarecimento para muitos. A gente partia de um pressuposto que as audiências não eram tão manipuláveis, que eram capazes de interpretar e reinterpretar um fato determinado. O resultado dessas eleições acende um sinal amarelo, quase vermelho.”

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