Da política externa soberana de Lula à submissão de Bolsonaro aos EUA

De 2003 até o golpe de 2016, o Brasil foi protagonista no cenário internacional com uma política externa altiva e ativa, contrariando os interesses imperialistas.

Erick Julio, via Agência PT em 23/12/2018

Ele disse que nossa bandeira jamais seria vermelha. Falou que o país era o seu partido. Seu slogan, repetido exaustivamente, dizia que era “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Ocorre, no entanto, que esse falso discurso nacionalista só foi usado para vencer a eleição. A verdade é que para ele só importam os interesses do imperialismo.

Lembrou de alguém, não é? Falar de subserviência e submissão nos faz inevitavelmente lembrar da cena de Jair Bolsonaro (PSL) batendo continência para um assessor do presidente estadunidense Donald Trump. Note que a importância da pessoa reverenciada com o gesto do presidente eleito, para o Brasil, é tanta que seu nome virá apenas no próximo parágrafo. Mesmo assim, Bolsonaro fez questão de mostrar sua servidão aos interesses dos Estados Unidos.

John Bolton, conselheiro sobre a política externa dos Estados Unidos, esteve no Brasil para trazer quais são as ordens do imperialismo a Bolsonaro. O presidente eleito, inclusive, foi rápido em seguir seu chefe e manobrou para que o país desistisse de sediar a COP25, maior conferência mundial sobre o clima. Em 2017, Donald Trump abandonou o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Na mesma semana, Eduardo Bolsonaro confirmou a mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, novamente acompanhando o líder dos EUA.

Com Lula, Brasil deixou de ser “quintal”
A dobradinha Trump-Bolsonaro é só mais um capítulo da tentativa dos Estados Unidos de retomar sua influência na América do Sul. Na década de 90, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil adotou com afinco parte da cartilha imperialista, prova disso foram as privatizações e os empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas isso mudou a partir 2002.

Com Lula, o Brasil reassumiu sua soberania e passou a ter uma política externa altiva e ativa, baseada no diálogo, igualdade e solidariedade entre os povos. Logo no início da gestão do PT, o país reafirmou a importância do Mercosul e passou a priorizar as relações comerciais e geopolíticas com os vizinhos sul-americanos, rechaçando a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), proposta pelo então presidente George W. Bush. Era o início do protagonismo do Brasil em detrimento dos interesses dos EUA.

Responsável pela condução da política externa ativa e altiva, o ex-ministro da Relações Exteriores Celso Amorim lembra que o discurso de Lula na 4ª Cúpula das Américas, que ocorreu em novembro de 2005 em Mar del Plata na Argentina, foi uma verdadeira pá de cal nas intenções imperialistas de Bush com a Alca. “Aquele discurso foi definitivo. O Brasil conseguiu concretamente parar a Alca, pois queríamos um acordo que fosse bom para o país e manter o Mercosul”, lembra Amorim.

Lula e o ex-ministro foram além. No segundo mandato, eles abriram diálogo com a China, Rússia, Índia e África do Sul e consolidaram os Brics, que passou a fazer contraponto à atuação dos EUA nas questões mundiais. A partir daí o Brasil passou a ser o principal país aliado de diversas nações africanas.

“A política externa foi ativa porque eu e o presidente Lula acreditávamos que o Brasil deveria ser mais protagonista nas relações com a África e com a América do Sul. E isso com ações concretas de integração, também com os países árabes e depois os Brics. A política foi altiva porque nós identificamos que poderíamos sim resistir às pressões e as agendas que não atendiam os nossos interesses, como a Alca por exemplo”, destaca o ex-ministro de Lula entre 2003 e 2011, Celso Amorim.

Ainda segundo o chanceler, a constituição de blocos de países deve ir além dos interesses comerciais e priorizar uma geopolítica que traga estabilidade as regiões “O fortalecimento do Mercosul progrediu e foi importante porque o objetivo de uma integração não pode ser só econômico, mas também a construção da paz. Isso fortalece a região como um todo”, explica.

Amorim lembrou ainda o importante papel que a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) desenvolveu ao longo dos anos na construção da paz no continente norte-americano. “A Unasul foi criticada pela imprensa brasileira, mas o próprio Obama pediu reunião com a Unasul, porque ele percebia que era uma forma de ter um diálogo com a Venezuela”, destaca.

Brasil promovendo a paz
O respeito a Lula e Amorim na comunidade internacional levou o país a ser o principal ator nas discussões de paz para conflitos e tensões que já duram décadas. Em 2010, no Parlamento de Israel, Lula defendeu a criação de um Estado Palestino e pediu que os países que produzissem armas nucleares seguissem o exemplo do Brasil e de outros países latino-americanos e proibissem a produção nuclear para fins bélicos. Israel está entre os países produtores de armas nucleares.

Anos antes, na iminência da Guerra do Iraque, o George W. Bush conclamou os países latino-americanos para apoiar sua invasão ao país árabe. Na ocasião, Lula reafirmou que o compromisso do Brasil era com a Guerra contra Fome mundial. Ainda durante o governo do ex-presidente, o país desafiou a hegemonia dos Estados Unidos ao avançar nos Brics com a criação de um Banco Financiador desses países e a proposta de estabelecer uma nova moeda para fazer frente ao dólar estadunidense.

E justamente por conta do protagonismo do Brasil internacionalmente, junto a outros governos progressistas da América Latina, o Departamento de Estado da Casa Branca tem atuado para sabotar a democracia brasileira. O golpe parlamentar de 2016 contra a presidenta legítima Dilma Rousseff e a perseguição política a Lula nasceram em Washington, conforme mostrou o Diário do Centro do Mundo.

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