Espero que Queiroz esteja bem, porque o respeito à República vai mal

Legenda: O deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro com Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar.

Leonardo Sakamoto em 23/12/2018

O caso envolvendo Fabrício Queiroz e a inexplicada movimentação de R$1,2 milhão tem demonstrado um imenso desprezo por cidadãos e contribuintes que desejam saber a origem desses recursos. Mas também pelo trabalho do Ministério Público, que tem mais o que fazer do que ficar à sua disposição enquanto ele não comparece às convocações.

Queiroz faltou, pela segunda vez, ao depoimento agendado no Ministério Público do Rio de Janeiro, na sexta [21/12]. O policial militar, ex-motorista do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro, foi chamado a esclarecer a movimentação atípica em sua conta bancária apontada pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Ele havia faltado à primeira convocação, na quarta [19/12], alegando uma “crise inesperada de saúde”.

De acordo com seu advogado, “precisou ser internado na data de hoje, para realização de um procedimento invasivo com anestesia, o que será devidamente comprovado, posteriormente, através dos respectivos laudos médicos”. Pode ser verdade. Mas dadas as proporções que o caso tomou, Queiroz deveria ter vindo a público explicar tudo em algum momento desde que o caso veio a público há últimas duas semanas.

Repito: duas semanas.

Por enquanto, o ex-motorista do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro não é formalmente acusado de nada, apenas investigado. Mas o silêncio prolongado vai causando danos à imagem de seu ex-chefe e do pai dele, o presidente eleito.

O caso veio à tona com a reportagem de Fábio Serapião, do jornal O Estado de S.Paulo, no dia 6 de dezembro. Há coincidências entre datas de pagamentos dos salários pela Assembleia Legislativa do Rio, depósitos na conta de Fabrício feitos por outros funcionários do gabinete de Flávio e saques em dinheiro pelo policial. Esse tipo de ação é semelhante à prática ilegal de devolução de parte dos salários dos funcionários aos seus chefes parlamentares.

Se continuar em silêncio, Queiroz acabará fortalecendo os discursos da oposição que afirmam que ele é um laranja da família Bolsonaro e os adiamentos têm o objetivo de garantir a posse do senador, em fevereiro, sem constrangimentos. Seus familiares que recebiam da Alerj e fizeram depósitos em sua conta devem prestar depoimento no dia 8 de janeiro e outros funcionários do gabinete, que também faziam depósitos para ele, serão chamados ainda sem data marcada. O MP quer ouvir também o próprio Flávio no próximo dia 10.

Um depósito feito por ele teve como beneficiária Michelle Bolsonaro, futura primeira-dama. Jair Bolsonaro afirmou que esses R$24 mil se referem a uma dívida pessoal que Fabrício, seu amigo de longa data, tinha com ele. Disse que pediu que a devolução fosse feita para a conta da futura primeira-dama porque ele não tinha tempo de ir ao banco. Flávio Bolsonaro declarou, por sua vez, que o ex-assessor relatou a ele uma “história bastante plausível” sobre o R$1,2 milhão, garantindo que as transações não são ilegais. O deputado estadual não deu detalhes sobre qual história é essa, mas disse manter a confiança no ex-funcionário.

O ex-juiz federal e futuro ministro da Justiça e da Segurança Pública Sérgio Moro, questionado sobre o caso, primeiro se calou. Depois afirmou que “o senhor presidente eleito já esclareceu a parte que lhe cabe no episódio” e completou dizendo que “o ministro da Justiça não é uma pessoa para ficar interferindo em casos concretos”.

Já o deputado federal e futuro ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni surtou em uma coletiva de imprensa, quando os repórteres insistiram em saber a origem do dinheiro. Primeiro usou o PT como muleta, depois teceu uma resposta quase filosófica sobre a busca da verdade e terminou atacando os repórteres antes de deixar a coletiva, perguntando quanto eles haviam recebido este mês.

Como já escrevi aqui antes, se políticos e seus auxiliares se dão por satisfeitos com as respostas dadas, tudo bem, direito deles. Mas parte significativa da população não aceita o vácuo de informação e acredita que Fabrício Queiroz deve dar respostas. Caso a origem do dinheiro movimentado pelo ex-assessor e amigo dos Bolsonaro não for devidamente esclarecida ou a se resposta for péssima, o governo vai confirmar que uma coisa é a transparência que prometeu como discurso de campanha. Já a outra, prazer, é a realidade.

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