O inacreditável mundo da família Bolsonaro

Luis Nassif em 7/12/2018

PEÇA 1 – OS NÚCLEOS DE PODER
Conforme já descrevemos em outros textos, há quatro grupos iniciais de poder do futuro governo Bolsonaro.

1) A corte familiar, englobando os três filhos, mais os ministros ideológicos.
2) A núcleo militar, ocupando a infraestrutura e monitorando as ações de Bolsonaro, corrigindo cada declaração estapafúrdia.
3) Paulo Guedes e seus Chicagos Boys.
4) Correndo por fora, Sérgio Moro tentando fincar uma torre fora do alcance de Bolsonaro.

PEÇA 2 – SOBRE A A FAMÍLIA BOLSONARO
Trata-se de um jogo de fácil previsão:

1) Bolsonaro, o Jair, é emocionalmente frágil, intelectual e socialmente dependente dos filhos.
2) Os filhos têm a agressividade dos toscos. Não se trata meramente de grossura. Grosso por grosso, ACM era, assim como Gilmar Mendes e outros personagens da política, mas que sabem utilizar a grossura como recurso político. Os Bolsonaro são grossos de graça, primários, valentões de rede social.
3) Agora, as revelações do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) comprovam que a família compartilha hábitos comuns ao baixo clero político, de receber mesadas e dinheiro de fontes desconhecidas. Não têm escrúpulos, mas também não têm a sofisticação para as grandes tacadas.
4) O caso Coaf foi apenas um aperitivo. A rapidez com que Carlos Bolsonaro e o futuro governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, correram a anunciar negócios milionários com Israel, na área de segurança, mostra um apetite e uma imprudência que atropelam qualquer noção de autopreservação.
5) Há pistas que surgiram ao longo dos últimos tempos, mostrando ligações dos Bolsonaro com policiais ligados a milícias. Pode ser que sejam apenas apoiadores da família. Mas, com a total falta de noção dos irmãos, e com dinheiro brotando nas contas dos seguranças, reforçam as suspeitas de seu envolvimento com as milícias.
6) A maneira como reagiram às denúncias demonstra falta de malícia a toda prova. Indagado sobre o dinheiro recebido pelo segurança, Carlos Bolsonaro limitou-se a responder que ele é de sua estrita confiança e não há nada que o desabone. Claro que é de sua estrita confiança! Como o contador de Al Capone era de sua estrita confiança. Só faltava terceirizar operações dessa natureza para alguém que não merecesse sua confiança.
7) Indagado sobre o tema, Onyx Lorenzoni, o porta-voz político, limitou-se a perguntar “onde estava a Coaf” nos escândalos petistas. Recorreu ao álibi universal – de se defender mencionando o PT –, sem saber que a Coaf foi peça central no rastreamento do dinheiro pela Lava-Jato.
8) O pai Jair teve comportamento pior. Depois de segurar a taça do campeonato do Palmeira com total desenvoltura, alegou recomendação médica para fugir do primeiro evento público após a divulgação da denúncia. Bateu em retirada mesmo.

Tem-se aí, portanto, um quadro de ampla vulnerabilidade para a governabilidade do futuro governo.

PEÇA 3 – A ESPERTEZA DE SÉRGIO MORO
O abre-te Sésamo de Sérgio Moro continua sendo a cooperação internacional. Sua última tacada é a tentativa de induzir o Congresso a aprovar uma legislação tendo por base a Resolução 1.373, de 2001, do Conselho de Segurança da ONU, sobre lavagem de dinheiro e terrorismo.

Hoje [7/12], a CBN diz que se o Brasil não adotar essa legislação irá para as catacumbas do inferno, perderá investimentos, dinheiro sairá do Brasil.

Explica nosso colunista André Araújo:

1) Resoluções da ONU são milhares, e de valor sempre RELATIVO. Alguns países cumprem, muitos nem tomam conhecimento. Os EUA usam essas resoluções quando lhes convém, quando não ignoraram completamente. Israel nem se fala, a Rússia e a China descumprem a maioria.
2) Essa Resolução veio no rescaldo do 11 de Setembro nos EUA e seu foco é muito mais o terrorismo do que o tráfico, corrupção, crimes financeiros. Mas como é um balaio onde cabe tudo o que se quiser colocar.
3) A Resolução já está rondando há mais de 15 anos, e o Brasil até agora não tomou conhecimento. A própria consultoria jurídica da ONU opinou que a resolução 1273 é ilegal dentro do direito internacional. Lia aqui: “Medidas do Conselho de Segurança contra terrorismo não têm base legal, afirma especialista independente da ONU“.
4) O ministro Moro joga com a bandeira da ONU, na verdade ele quer mais poder. O Brasil não está sendo pressionado pela ONU. Esse modo de usar a mão da ONU, do FMI, da OCDE, do Banco de Liquidações Internacionais como arma interna de poder é esperteza antiga.

Nos próximos meses Moro terá que enfrentar desafios bem mais complexos do que como juiz da Lava-Jato. Estará sob exposição constante. E terá que demonstrar uma desenvoltura muito maior do que nos interrogatórios de réus e testemunhas. Além disso, terá pela frente as denúncias contra aliados. Na Lava-Jato havia o álibi de que o alvo único era o PT por ser ele o partido que estava no poder.

Será difícil encontrar outra narrativa para eximi-lo de atuar nas denúncias envolvendo o governo Bolsonaro.

PEÇA 4 – PAULO GUEDES E SEUS CHICAGOS BOYS
Paulo Guedes continua preso ao dogma de que um ajuste fiscal imediato e radical trará imediatamente os investimentos de volta. A ideologia cega o impede de pensar qualquer política anticíclica.

Esta semana, Michel Temer divulgou a relação das heranças virtuosas que deixará para o sucessor, provavelmente antes de ser preso por corrupção. Entre elas, investimentos de ordem de R$300 bilhões prontos para serem deflagrados.

Na verdade, a carteira de financiamentos aprovados pelo BNDES é bem maior do que essa quantia. Mas está tudo paralisado pelas loucuras cometidas pela Lava-Jato do Rio de Janeiro, os atos atrabiliários contra funcionários do banco, criminalizando operações normais. O governo Temer não teve sequer a competência de destravar esses financiamentos. E, agora, os apresenta como se tivessem sido preparados em sua gestão.

Nesse ponto, a entrega da infraestrutura para os militares facilitará esse destravamento.

Mas as expectativas fantasiosas do mercado – como a de uma reforma radical da Previdência – não sairão do papel.

Tem-se, hoje em dia, um quadro complexo:

  • A recessão continua derrubando a arrecadação fiscal. A nova lei trabalhista, ao desestimular o emprego formal, está reduzindo drasticamente as contribuições previdenciárias e a arrecadação fiscal.
  • A ideia de instituir um regime de capitalização é totalmente fantasiosa. Hoje em dia o sistema é de repartição simples: isto é, a arrecadação de hoje paga os benefícios de hoje. Se a arrecadação está sendo insuficiente para a repartição simples, de onde tirará recursos para a capitalização? Por acaso irá reduzir os benefícios aos militares ou ao funcionalismo público?
  • A reforma ocorrida anos atrás, instituindo um regime de capitalização para novos funcionários, é a maneira correta, com os benefícios aparecendo gradativamente. Não há milagres que tragam resultados instantâneos.
  • As únicas medidas de resultado imediato seriam um encontro de contas com os estados, visando resolver a questão da previdência estadual. Mas dificilmente a equipe de Guedes terá imaginação criadora e convicção cartesiana para superar o ideologismo rotundo que a domina.

PEÇA 5 – O FATOR MILITAR
A cada dia que passa, a cada declaração dos filhos, dos ministros da cota dos Bolsonaros, mais nítido fica a falta absoluta de condições de governabilidade. Já se abriram as comportas do escândalo, apesar de todo antipetismo da mídia e do tempo de carência que, geralmente, se trata um novo governo.

Dependendo do ritmo dos escândalos, será inevitável o enquadramento final de Bolsonaro, obrigando-o a afastar os filhos e a reduzir a máquina de falar besteiras. E, pelo fato de ser o único centro de racionalidade do governo, cada vez mais os militares assumirão poder.

***

2 Respostas to “O inacreditável mundo da família Bolsonaro”

  1. heloizahelenapiasblog Says:

    Brasil antes de 01.01.2019 um poço com poucas reservas, após 01.01.2019 Brasil totalmente perdido e sem espectativa de melhoras doravante, e p piorar, estaremos nas mãos dos piores nome, n preciso falar, todos já o sabem, ________________________________________

  2. Aristóteles Barros da Silva Says:

    Discordo da teoria de que os filhos do futuro presidente “se comportam como crianças”. Eles, incluindo o pai-presidente, são retardados mentais, sob o “comando” dos quais, estaremos por quatro anos. Com a conivência da Ditadura Jurídico/Midiático/Parlamentar. Esses retardados servem, direitinho, aos planos do programa Uma Ponte Para o Futuro. Vade retro!

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