Contra religião afro, diversidade sexual e feminismo: eis a nova ministra dos Direitos Humanos

“Não existe outro lugar no Brasil mais seguro para as crianças que a igreja”, prega Damares Alves, confirmada no Ministério dos Direitos Humanos de Bolsonaro.

Cintia Alves, via Jornal GGN em 7/12/2018

Jair Bolsonaro entregou a Damares Alves o Ministério dos Direitos Humanos turbinado com a Funai e a Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e Adolescente. A ironia – para dizer o mínimo – está no fato de a pastora e assessora de Magno Malta ter passado os últimos anos batendo cartão em templos, especialmente no Nordeste, pregando sobre o papel “missionário” da Igreja Evangélica na “restauração da Nação” e na evangelização das crianças, que “começa na barriga”. Missão divina e decorrente da “falência das instituições”.

Damares também é pessoalmente contra feministas, contra qualquer referência a religiões de matriz afro em sala de aula e contra a diversidade sexual. Hoje, confirmada no cargo, ela diz que “se preciso for” estará nas ruas com “as travestis” e nas portas das escolas pelas “crianças que são discriminadas por sua orientação sexual”. Mas o discurso nem sempre foi este.

No vídeo abaixo, ela diz que crianças não devem pensar que é “legal” nem natural o relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo, e afirma expressamente que “a homossexualidade é aprendida no berço, na forma que se lida com a criança, mas ninguém nasce gay.” Torna-se, portanto, evita-se.

Nomeada na quinta [6/12], ela já antecipou à imprensa as duas prioridades de sua gestão: as mulheres “invisíveis” – “a indígena, a ribeirinha, a catadora de siri, quebradora de côco” etc. – e a “questão da infância”. “O objetivo é propor à Nação um pacto de verdade pela infância. Conversando com os demais ministros, a infância vai ser prioridade neste governo. É a intenção do presidente e o presidente está motivado.”

Não é preciso muito esforço para descobrir as motivações da Damares, ao menos enquanto pastora.

A meta, visível na repetição do que apresenta nos cultos, é plantar e cultivar nos fiéis a sementinha do interesse em pautas que curiosamente os parlamentares da Frente Parlamentar Evangélica escolheram trabalhar nos últimos anos.

Indígenas
Ela costuma fazer referência, por exemplo, a Magno Malta e uma lei aprovada na Câmara dos Deputados, sob a presidência de Eduardo Cunha, que obriga o governo federal a retirar crianças indígenas das aldeias. O motivo? Há povos que sacrificam quem nasce com deficiência.

Quando não está falando da evangelização de indígenas – ela sonha em ver Jeová louvado em 300 línguas nativas – Damares dá atenção especial aos assuntos que circundam a Escola Sem Partido, sob o pretexto de que crianças estão sendo sexualizadas e abusadas com “essa história de ideologia de gênero”.

“O único lugar seguro para as crianças no Brasil é o templo. Não existe outro lugar no Brasil mais seguro para as crianças que a igreja”, afirma.

“Todas as instituições que defendem crianças faliram e falharam na proteção da infância no Brasil. A escola falhou, não é mais um lugar seguro para as crianças. Os clubes não são seguros. Nem os consultórios médicos são mais seguros. Não existe lugar seguro. Todos falharam. Só há um lugar seguro: a igreja, o templo”, insiste.

Na comunicação com mulheres evangélicas, Damares costuma dizer que “acabou a brincadeira na igreja”. O tempo de se preocupar com casamento, filhos e trivialidades cedeu lugar ao tempo de guerra. A igreja tem uma missão, a de restaurar a Nação, e precisa formar soldados com urgência.

“A sua missão é treinar crianças para governar sobre esta terra. Estão nas suas mãos os príncipes e princesas que vão herdar e governar esta terra porque todas as instituições faliram. É hora de treinar as crianças para governar essa Nação. […] O Brasil vai se curvar diante do deus das nossas crianças.”

Aborto
O fim do aborto é o outro tema de discussão obrigatória, mas não é tratado como questão de saúde pública e tampouco relacionado aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. Quando o assunto é interrupção da gravidez, não há que se falar em qualquer direito da mulher.

“‘Mas pastora, é direito da mulher abortar’. É Mentira! ‘Mas pastora, as feministas estão falando meu corpo, minhas regras’. Olha aqui, ministério infantil, fale para elas: ‘O seu corpo é seu, faça o que você quiser com seu corpo, venda para quem quiser, dê a quem quiser. Mas o que está dentro da sua barriga não é seu corpo, é outro corpo, é vida, e você não pode decidir por outra vida’.”

Ensino afro
Por volta da 1 hora de vídeo, Damares, em tom alarmante, entra na discussão sobre as leis federais que obrigam o ensino da cultura afro e indígena nas escolas.

“Estou preocupada, irmãos, com a questão do satanismo e do ensino afro em sala de escolas.”

“Eu sou a favor, a lei é perfeita, e tem que ensinar a cultura afro para acabar com o preconceito, e a cultura indígena, para as crianças entenderam a formação do nosso povo. […] Mas sabe o que estão ensinando para nossas crianças? A religião afro. Há diferença entre cultura afro e religião afro. Não se pode falar da Bíblia e de Jesus, mas eles falam de orixás.”

“Estão confundindo nossas crianças na sexualidade e na religiosidade.”

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