Bem que Moro poderia dizer: “Desculpe, mas meus corruptos são menos corruptos”.

Moro e o amigo Aécio.

Armando Rodrigues Coelho Neto em 7/12/2018

O direito penal protege valores de caráter ético social. Ele pune condutas socialmente reprováveis e não necessariamente valores patrimoniais. Desse modo, corrupção não é só dinheiro. Quem não respeita a autoridade máxima do país e divulga ilegalmente conversas de uma mandatária da Nação, não está desrespeitando pessoa, mas sim a instituição Presidência da República. Quem destitui alguém de um cargo público ilegalmente não respeita o Estado de Direito, a democracia. Como não é hora de puxar a capivara do Sejumoro, basta lembrar que condutas erráticas previstas como crime são práticas corruptivas – não existe quase gravidez.

Corta!

No auge do discurso vazio do que deram de chamar elite do atraso, era muito comum dizer que a corrupção passou dos limites. Sempre fiquei intrigado com essa assertiva, pois nunca entendi bem qual era o limite da corrupção. Seria a corrupção praticada pelos militares durante a ditadura instaurada em 1964? Seria a corrupção dos tucanos sempre abafada, nunca ou mal investigada pelas Macabéas do Ministério Público e na Polícia Federal? Talvez o limite passe a ser a corrupção seletiva e consensual do perdão, no melhor estilo Sejumoro.

Admito que a recíproca possa ser verdadeira. Mas, é estranho viver num país de moral elástica ou simplesmente amoral que tem como referência Sejumoro, com aquele perfil lá de cima – e como grande protagonista da execração ilegal e pública do ex-presidente Lula da Silva. Um país no qual um juizeco rasga a lei, rompe a cultura jurídica trabalhando em causa própria não é sério. Se há tribunal sério neste país há aparente crime de prevaricação a ser apurado. A dita Corte Suprema – acuada/ameaçada vai pensar nisso? Há dúvidas se se sente traída por Sejumoro ou se o ajudou a chegar lá.

Esse é o retrato da dita república dos ressentidos e do escárnio. Um juiz prende o candidato favorito nas pesquisas, interfere ilegalmente para que não seja solto, impede sua eleição para poder eleger aquele de quem receberá um cargo público. Coisas de um país no qual o Judiciário, MPF, RF e PF têm partido, mas invade por meio de fraude o imaginário coletivo para dizer que as escolas públicas tinham partido. Desse modo, o “kit gay” que ninguém viu está vivo, assim como Caipora, “Cumade Fulozinha”, Boitatá ou qualquer lenda urbana ou rural sem fundamento.

Será um desafio para os historiadores documentarem a contradição dos moralistas salvadores da Pátria. Nela, empresas envolvidas em corrupção pagaram convescotes para magistrados e a corrupta Confederação Brasileira de Futebol (CBF) patrocinou eventos de servidores da Polícia Federal, em Fortaleza e na Granja do Torto. Natural, pois, que instituições corruptas ofereçam medalhas para as Macabéas e elas aceitem.

É o país da fraude eleitoral genérica e específica. Na genérica, urnas são vulneráveis e Lula da Silva foi preso pra não ser presidente. Na específica, urnas são vulneráveis (de novo) e o sistema do Tribunal Eleitoral foi invadido por “harkers”. Duas vezes o jornal Folha de S.Paulo denunciou crime eleitoral. Na de ontem tem até nome, endereço, CPF, CNPJ. As Macabéas da Polícia Federal e do Ministério Público comeram bala com papel e tudo. Sejumoro, claro, irá dizer que isso não vem ao caso e clã bolsopata vai ficar batendo continência até pro continuo do Trump.

Posso concluir que o Brasil conseguiu um lambe botas à altura da elite do atraso.

O Coiso eleito foi tratado como um bufão pelo jornal Karlskoga Tidning, editado na cidade sueca do mesmo nome. É nesse contexto anárquico que burros falantes tentam ganhar espaço. Uma ou mais declarações estapafúrdias por dia formam a nuvem de fumaça que encobre a cozinha do golpe – agora sabor urna eletrônica inauditáveis. Os falastrões fustigam vários setores ao mesmo tempo, causando apreensões: querem trazer para o Brasil uma briga que não é nossa – judeus X palestinos.

Fabricada ou não, o Coiso ganhou popularidade até por meio de uma facada mal contada. Mas, não há popularidade que resista ao choque entre as forças sociais e elas existem. De um lado o poste do Trump tem apoio, mas há um grande contingente de brasileiros que o rejeita de todo e outro que votou nele por ódio ao PT. De outro giro, ao ameaçar a Folha de S.Paulo e a Globo, acabou dando a senha para que entre em cena a adesão dos conservadores obsoletos ao “Frentão de Esquerda” (de FHC e Alckmin). Fica a dica para a resistência.

O bufão pode sofrer desgaste semelhante ao de Fernando Collor, mesmo sem aquela coisa antiga chamada jornalismo, sobretudo o investigativo e de contrapontos. Sejumoro e sua “txurma” acostumaram mal a mídia com vazamentos seletivos. De qualquer forma, a velha mídia está dividida e endividada e a editora Abril pode ser vendida numa Black Friday extemporânea. O messianismo juristocrata ainda não sabe que pito vai tocar. Dois tironoides podem causar estrago e um falastrão até já disse que para fechar o STF só precisa de um soldado e um jipe. Se não for fechado, vai permanecer acuado/chantageado, mas com mordomias e dando selo de legalidade ao insólito. Tudo isso em meio a pruridos evangélicos ainda mal contemplados no samba do crioulo doido.

O Coiso tem a determinação de um psicopata fascista e se presume um predestinado a depurar a Nação. Mas sua guerra é ideológica e o discurso da corrupção ele mesmo já relativizou. Sejumoro se absolveu de seus próprios crimes com pedidos de desculpas e já perdoou corruptos confessos. Apertem os cintos que vai começar o show de horrores. Se o Bozo já disse que a questão ideológica é pior que a corrupção, o combate a ela vai ser ideológico. Noutras palavras, vão combater corrupção com corrupção, protegendo os corruptos de estimação. Isso significa que uns terão direito a perdão e outros a morrer na prisão.

Bem que Sejumoro poderia justificar tudo dizendo: meus corruptos são menos corruptos (ainda que corrupção seja corrupção e as pessoas se corrompam em troca de cargos).

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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