O presidente da bolsosfera

Leandro Demori, via The Intercept Brasil em 17/11/2018

Bolsonaro fez 57,7 milhões de votos, mas sua preocupação mesmo é agradar aos seus seguidores no Twitter. Ele tem 2,4 milhões de followers na rede social. Considerando robôs, perfis duplicados e abandonados, gente que segue o homem por dever de ofício ou pra passar raiva, há menos eleitores e fãs de fato do que o número sugere.

Antes de virar o presidente do Brasil, Bolsonaro virou o presidente do Twitter. O que é a indicação desse novo ministro das Relações Exteriores se não uma lacração para as massas de arrobas embriagadas de capitão? Ernesto Henrique Fraga Araújo “quer ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista”, definiu-se o próprio em um blog que, à primeira, segunda e terceira leitura, tive dificuldades para entender se aquilo tudo era escrito a sério ou se nosso novo ministro é uma versão do Tiririca que cursou faculdade.

Ele escreve em seu blog, por exemplo, que o aquecimento global é predominantemente uma “ideologia da mudança climática, o climatismo”. E garante: “O climatismo diz: Você aí, você vai destruir o planeta. Sua única opção é me entregar tudo, me entregar a condução de sua vida e do seu pensamento, sua liberdade e seus direitos individuais. Eu direi se você pode andar de carro, se você pode acender a luz, se você pode ter filhos, em quem você pode votar, o que pode ser ensinado nas escolas. Somente assim salvaremos o planeta. Se você vier com questionamentos, com dados diferentes dos dados oficiais que eu controlo, eu te chamarei de climate denier e te jogarei na masmorra intelectual. Valeu?”

Então você só estava caminhando com papel de bala no bolso pra jogar na lata de lixo adequada, tentando ser um bom cidadão, e nem sabia que o climatismo queria sua alma. Jogue uma latinha de Coca-Cola no chão e liberte-se.

O governo tuiteiro lacrador de Bolsonaro vem sendo construído há muitos anos. Suas sementes estão espalhadas pela rede e podemos buscar cada uma delas diante de cada fato novo gerado pela máquina de memes que é seu gabinete de transição. A última delas foi o caso dos médicos cubanos.

Em 2013, ele tuitou que tinha acionado a justiça contra a importação dos médicos da ilha. Voltou ao assunto de modo crítico em 2014, 2016, 2017 e 2018. Aplaudido e inebriado pela endorfina dos RTs e likes, disse em agosto desse ano que expulsaria os médicos se ganhasse as eleições. Reafirmou que faria isso “com uma canetada”. Depois de eleito, foi ainda mais longe, e ameaçou cortar relações diplomáticas com Cuba. A ilha se antecipou e, antes de ser expulsa, resolveu repatriar seus doutores.

Visivelmente abalado com a decisão cubana, Bolsonaro foi ao Twitter (claro) e tuitou: “Atualmente, Cuba fica com a maior parte do salário dos médicos cubanos e restringe a liberdade desses profissionais e de seus familiares. Eles estão se retirando do Mais Médicos por não aceitarem rever esta situação absurda que viola direitos humanos. Lamentável!”

O uso da expressão abominada pelo bolsonarismo raíz me causou espanto. Abri o TweetDeck e fiz uma busca no perfil oficial @jairbolsonaro: digitei “direitos humanos” entre aspas.

Bolsonaro usou as duas palavras combinadas exatas 53 vezes desde janeiro de 2013, quando falou pela primeira vez sobre o assunto no Twitter. Teve 55 retuítes e dois likes. As palavras associadas a “direitos humanos” em todas as suas manifestações desde então vão de “CANALHADA dos direitos humanos” a “ESTERCO DA VAGABUNDAGEM”, assim mesmo em letras maiúsculas.

Sabem quantas vezes ele usou as palavras em tom positivo? Só uma, justamente quando resolveu madreteresamente defender os direitos humanos dos médicos cubanos. Teve 16 mil retuítes e 89 mil likes. Lacrou para os seus 2 milhões de seguidores, enquanto mais de 20 milhões de pessoas na vida real temem ficar sem médico já em janeiro. Mas tudo bem se vai tudo bem no Twitter da bolsosfera.

***

Antes de assumir, os futuros ministros Paulo Guedes e Sergio Moro comentaram a possibilidade de deixar seus cargos.

BOLSONARO ENCABEÇARÁ UM GOVERNO EM QUE MINISTROS FALAM EM PEDIR DEMISSÃO ANTES MESMO DE ASSUMIR
Mário Magalhães em 14/11/2018

Paulo Guedes é um Roberto Campos com menos livros lidos e mais fanatismo pelo cada-um-por-si na economia e na vida social. O economista e diplomata Campos ganhou dos detratores a alcunha brejeira de Bob Fields, tamanho o fetiche pelo capital estrangeiro e a devoção pelos Estados Unidos.

De 1964 a 1967, o seminarista que desistira do sacerdócio foi o primeiro ministro do Planejamento da ditadura. Era tão brilhante que não se converter à sua lábia hipnotizante constituía exercício intelectual desafiador. No alvorecer da década de 1980, o cardeal brasileiro do liberalismo foi esfaqueado na barriga – pela amante, e não por um abilolado. Morreu em 2001.

Embora ministro do marechal Castello Branco, cujo governo cassou mandatos de parlamentares e fechou o Congresso, Campos não pronunciava intimidações vulgares como “prensa neles!“, truculência com que Guedes pretendeu peitar senadores e deputados para votar logo as mudanças na Previdência. A jornalista Cristiana Lobo contou que até a semana passada o futuro ministro da Economia ignorava que o Orçamento de 2019 será elaborado em 2018.

Numa reportagem da revista Piauí de setembro, o banqueiro bem-sucedido – Bob Fields malogrou como dono de banco – se referira a Jair Bolsonaro como indivíduo pertencente a uma fauna indeterminada. A repórter Malu Gaspar narrou: “Guedes fez uma pausa e prosseguiu, parafraseando as críticas ao seu candidato: ‘Ah, mas ele xinga isso, xinga aquilo… Amansa o cara!’ Pergunto se é possível amansar Bolsonaro. ‘Acho que sim, já é outro animal‘.”

Se um animal está amansado, o outro escoiceia. Guedes já especulava sobre ser ministro e, surpresa, deixar de ser: “Quer saber de uma coisa? Se não der para fazer o negócio bem feito, que valha a pena, para que eu vou [para o governo]? Ficar escutando essas merdas que estão falando?” A repórter enticou: “Então posso escrever que você desistiu?” O Paulo “posto Ipiranga” Guedes riu com ironia: “Esse é o sonho de todo mundo, todo mundo quer foder o Bolsonaro. Mas esse prazer eu não dou. Só depois que ele for eleito”.

Traulitadas
O capitão se elegeu, indicou Sérgio Moro para o Ministério da Justiça, e na primeira entrevista coletiva após o anúncio o juiz tagarelou sobre sua eventual partida. Declarou, acerca de divergências vindouras: “A decisão final é dele [Bolsonaro]. Aí eu vou tomar a minha decisão se, para mim, vamos dizer assim, continuo ou não continuo”.

Moro não tratou Bolsonaro como um cavalão, chucro ou domado, mas pareceu inverter a hierarquia de presidente e ministro. Em meio a mesuras, chancelou o eleito, como se fosse necessário: “Pessoalmente, me pareceu ser uma pessoa muito sensata”. O costumeiro é o chefe referendar o chefiado, não o contrário. No domingo, o juiz falou à entrevistadora Poliana Abritta sobre possíveis desinteligências: “Se tudo der errado, eu deixo daí também o cargo“.

Na prosaica transição em que antes da posse os dois superministros miram as portas de entrada e de saída, o vice de Bolsonaro desdenha em público do deputado que o presidente eleito escolheu para comandar a Casa Civil. O general Antônio Hamilton Mourão desclassificou o iminente ministro Onyx Lorenzoni, relataram as repórteres Juliana Dal Piva e Daniela Pinheiro: “Era um parlamentar apagado. Esse é um cargo com outro perfil”.

Se Guedes cair, quem o presidente convocaria para seu lugar?
Mourão já nomeou o substituto: “Eu assumo”.

Guedes já havia desferido uma traulitada em Lorenzoni, fazendo pouco caso dele: “É um político falando de coisa de economia. É a mesma coisa que eu sair falando coisa de política. Não dá certo, né?” Se Guedes cair, quem o presidente convocaria para seu lugar? Mourão já nomeou o substituto: “Eu assumo“. Ao ouvir que “no Brasil os vices costumam virar presidentes”, o general não retrucou com um espirituoso “vira essa boca pra lá” ou um cerimonial “dessa vez será diferente”. “Ele fechou a cara e desconversou”, leu-se na revista Época.

Em contraste com a limitada deferência por Bolsonaro, expressa por Guedes, Moro e Mourão, o servilismo de burocratas excede. A repórter Mônica Bergamo revelou que os organizadores do ato do Congresso pelos 30 anos da Constituição mudaram o nome artístico do tenor Jean William. Na hora de cantar o hino nacional, apresentaram-no como Jean Silva. Temiam que Bolsonaro, presente, se melindrasse com a identidade similar à de Jean Wyllys, deputado que em 2016 lhe cuspiu na cara.

Em Brasília, o capitão se sentiu mais à vontade do que na Barra da Tijuca para se conceder um intervalo na encenação que protagoniza como político anti-establishment. O repórter Guilherme Amado informou que Bolsonaro não se constrangeu diante do totem do poder, José Sarney. Diante do ex-presidente, empertigou-se, prestou continência e reverenciou: “Meu comandante!

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