A história da música “Eu te amo, meu Brasil”

Luis Nassif em 8/11/2018

A dupla Dom e Ravel surgiu no início dos anos 70 com uma música fácil, em um gênero que poderia ser rotulado de marchinha pop. Junto com eles, apareceu um argentino, acho que de nome Santos Dumont, ou nome parecido, com uma música, a Monalisa, do mesmo gênero. Era um estilo bem agradável, uma modernização das marchinhas. Houve o período das marchinhas bossa-novas dos festivais internacionais da canção e, por curto espaço de tempo, as marchinhas pop. Coloquei a dupla no meu radar de repórter musical iniciante, por identificar seu valor musical.

Mas a dupla explodiu mesmo é com o “eu te amo, meu Brasil”. Logo em seguida compuseram o hino do Mobral e caminhavam para se tornar os compositores oficiais do governo militar.

Repórter da Veja, fui incumbido pelo redator de música, o grande Tarik de Souza, de entrevistar o duo. Eles moravam em um apartamento na rua Tabatinguera, no mesmo prédio do meu amigo Zé Grandão. Ficava a uma quadra da baixada do Glicério.

A entrevista foi curiosa. O mais baixo, Ravel, era o mais esperto. O grandão, Dom, deslumbrado e mandão.

Comecei perguntando como fabricavam suas músicas. Ravel logo tratou de explicar que não se tratava de “fabricar”, mas apenas inspiração. Foi interrompido por Dom.

– Fabricamos sim, é tudo planejado. Estudamos o comportamento do público e planejamos músicas de meio de ano, músicas de carnaval e, agora, as músicas patrióticas.

Ravel ouvia com claro ar de desgosto, mas não ousava rebater o irmão, que estava a mil por hora.

– Nossa próxima música será para uma campanha visando convencer todo jovem a usar fitas verde-amarelas, em vez de blusões com nomes de universidades americanas, o que é um absurdo.

Comentei que sua irmã, que estava na sala assistindo a entrevista, usava um blusão da Columbia University. Dom nem piscou:

– É a prova maior dessa influência norte-americana. Até nossa irmã!

A entrevista prosseguiu, com eles falando dos velhinhos cearenses amparados por eles. Até que chegou a pergunta fatal:

– Tem um pessoal falando em substituir o Hino Nacional Brasileiro pela música de vocês. O que acham da proposta?

Ravel balbuciou um “o que é isso?”, mas Dom avançou:

– Concordamos! O Hino Nacional é coisa de velho. Mas, antes, queremos beber na teta da vaca, os direitos autorais. Se for para virar hino e não recebermos mais direito autoral, não aceitaremos.

No dia seguinte escrevi a reportagem e deixei com o Tarik. Saiu publicada na edição seguinte, com a indagação do Mino Carta, sobre por que não havia subido para as Páginas Amarelas, o local nobre de entrevistas.

Antes do meio-dia da segunda-feira, o empresário da dupla me ligou em pânico:

– Por que você publicou a história do Hino Nacional?

– Uai, porque perguntei e eles responderam.

A entrevista havia sido gravada, não havia maneiras de refutá-la. O empresário esboçou algumas ressalvas:

– Mas por que você não publicou que eles amparam velhinhos do Ceará?

Expliquei que passei a entrevista completa para a editoria e, por questão de espaço, a decisão do que entrava ou não era dos editores.

Naquela segunda-feira havia uma entrevista marcada entre o ministro da Educação Jarbas Passarinho e a dupla, para acertar outros hinos para o regime. Passarinho cancelou e nunca mais remarcou.

O episódio comprovou que, na maioria dos casos, o patriotismo é o último refúgio dos negocistas.

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