Haddad e a matemática do antipetismo

Jeferson Miola em 3/10/2018

Os dois fenômenos mais relevantes revelados na pesquisa Ibope de 1º/10 são [1] a interrupção do crescimento do Haddad e [2] a resiliência do Bolsonaro, que impediu sua queda. O Datafolha divulgado em 2/10 coincide nos resultados.

Examinando-se a série de levantamentos realizados a partir de 20 de agosto, quando Lula figurou pela última vez nas pesquisas eleitorais, constata-se as seguintes realidades:

1) em 20/8 Lula atingia 37%, com perspectiva de vitória no 1º turno. A soma dos votos do polo não-antipetista [Ciro, Boulos e Vera] alcançava 43%, enquanto os candidatos antipetistas, aqueles que fazem do antipetismo sua razão primordial de ser e de existir, somavam 35%;

2) na primeira simulação como substituto do Lula [em 20/8], Haddad arrancou com 4%. Os votos não-antipetistas caíram para 15% e os votos antipetistas saltaram para 46% – alcançando patamar que se sustenta até hoje;

3) a partir da terceira semana de setembro o cenário que hoje conhecemos já estava cristalizado:
a) a eleição polarizada entre Haddad e Bolsonaro, com possibilidade remota de qualquer outro candidato, que não eles, passar para o 2º turno;
b) Haddad estacionado ao redor de 21% e os votos não-antipetistas estabilizados na faixa dos 32-34%. Nas semanas seguintes, Haddad não conseguiu sustentar o crescimento diário de quase 1%;
c) Bolsonaro conseguiu manter-se estável ao redor de 28-30%. Os votos antipetistas ficaram estáveis na faixa de 48-51%.

Este quadro evidencia que:

1) o silêncio e a incomunicabilidade impostos a Lula estão surtindo o efeito planejado pela ditadura Globo-Lava-Jato. Manter Lula preso, amordaçado e sem comunicação com o povo é questão de vida ou morte para a estratégia eleitoral do regime. O estabelecimento da censura e as patifarias de Fux e Toffoli para impedir entrevistas do Lula devem ser entendidas neste contexto;

2) sem a presença do Lula na eleição, Haddad não se beneficiou plenamente do potencial de transferência de votos do Lula a ele, e o não-antipetismo não conseguiu recuperar o índice que tinha em 20/8 [43%];

3) para o establishment, pouco importa se o bolsonarismo representa uma tragédia para o Brasil, porque o essencial é impedir de qualquer maneira o retorno do PT ao governo. O antipetismo é, portanto, o critério em torno do qual se desenrola a eleição;

4) o terrorismo antipetista na mídia liderada pela Globo, nas igrejas neopentecostais, nas mídias sociais, no judiciário etc., tem sido bastante eficaz. A armação do Moro com a delação fraudulenta do Palocci, que é parte desta guerra suja contra Lula, o PT e Haddad, parece ter conseguido prejudicar Haddad.

O desempenho do Bolsonaro, por outro lado, é surpreendente; supera todas as projeções que se fazia. Ele conseguiu impedir a perda de votos e manteve-se estável, a despeito do movimento #EleNão e dos ataques pesados do Alckmin na propaganda partidária.

O candidato fascista acabou se beneficiando do ódio que a Globo dissemina contra o PT para favorecer o tucanato, e capturou esse lugar que a Globo cultivara para Alckmin.

As principais tendências do 1º turno estão assentadas. Nesta semana derradeira da eleição, a Globo e a Lava-Jato poderão promover novos atos terroristas para enfraquecer a votação final do Haddad no 1º turno, neutralizando o tradicional crescimento que o PT costuma ter na reta final das eleições.

As recentes pesquisas não trazem grandes novidades, apenas refletem a realidade que já vinha se consolidando. A disputa eleitoral continua claramente polarizada entre a continuidade do golpe e a restauração da democracia; entre avanços e conquistas populares e retrocessos civilizatórios; entre Bolsonaro e Haddad.

O clima prefigura um cenário de 2º turno extremamente renhido, de disputa entre dois destinos radicalmente opostos para o Brasil: ou vence a civilização, ou vence a barbárie neoliberal na sua versão racista, autoritária e misógina – na sua versão, enfim, fascista.

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