Haddad, mire-se no exemplo de Lula em 1989: A última semana é guerra

Ricardo Kotscho em 2/10/2018

Sem querer ensinar o Pai Nosso ao vigário, mas com alguma experiência adquirida em três campanhas presidenciais de Lula, penso que está na hora de Fernando Haddad mudar de postura nos debates, nas entrevistas e nos palanques, ao entrarmos nesta semana decisiva da eleição.

Agora não é mais apenas campanha eleitoral.

É guerra, como aprendemos, apanhando, na última semana da disputa entre Lula e Collor, em 1989.

Desde aquela época, o eleitorado brasileiro se divide em três partes praticamente iguais: os que votam no PT, os que são contra o PT e os indecisos.

Quase todo mundo já sabe que Haddad é o candidato de Lula e do PT, o que ele fez no governo e o que pretende fazer, mas isso não basta para conquistar os corações e as mentes de quem ainda não decidiu em quem votar.

Não adianta mais falar para quem já está convencido nem para os que nunca serão.

É o terço do eleitorado que ainda não se decidiu que está em disputa.

A pancadaria em cima de Haddad no debate de domingo na Record foi só uma amostra do que deve acontecer daqui para a frente até a eleição de domingo.

Alckmin e Ciro vão entrar com os dois pés em cima dele no debate final da Globo, como Collor fez com Lula em 1989, na TV Bandeirantes.

Só para lembrar: no primeiro debate do 2º turno, na TV Manchete, no Rio, Lula triturou Collor e disparou nas pesquisas, enquanto Collor caia, a poucos dias da eleição.

As projeções já apontavam para uma vitória de Lula e se instalou a maior crise na campanha de Collor, que resolveu partir para a baixaria total.

Entre um debate e outro, Collor envolveu uma filha de Lula fora do casamento numa denúncia calhorda e mentirosa.

Lula entrou no debate decisivo abatido e ficou acuado, na defensiva, diante da virulência de Collor, que foi para o tudo ou nada.

“Acho que perdemos a eleição, Ricardinho”, me disse Lula, falando baixinho, ao sair do estúdio da Bandeirantes, em São Paulo.

De fato, Collor ganhara aquele debate, mas não por 7 a 1, como a Globo editou no dia seguinte, no Jornal Nacional, mostrando só os melhores momentos de um e os piores do outro.

Vários outros fatores influenciaram o resultado final naquelas últimas horas, como o sequestro do Abílio Diniz, atribuído criminosamente ao PT por setores da polícia e da imprensa, mas o efeito do debate foi fulminante.

No dia seguinte, tinham sumido as bandeiras do PT das ruas e apareceram as de Collor, que acabou ganhando a eleição por pequena margem de diferença.

Lembrei-me de tudo isso ao ver a forma como Haddad se comportou no debate da Record, adotando uma postura mais de presidente eleito do que de candidato, ao ser encurralado pelos adversários.

Sobreviveu à pancadaria, sem reagir, não deve ter perdido voto dos petistas, mas certamente não conquistou os indecisos que vão decidir a eleição.

Para isso, Haddad vai ter que deixar um pouco de lado seu perfil contemplativo e conciliador, muito racional e monocórdico, para usar as mesmas armas dos adversários, e partir para cima deles.

Tem que mostrar mais alma e coração do que cabeça e projetos, exatamente como Lula fazia, sem vergonha de pedir votos nem de demonstrar emoção.

Mais do que convencido, o eleitor nesta hora quer ser cativado por um candidato que fale a sua língua e sente o seu drama diante do desemprego e da violência.

Lula era mestre nisso: sabia fazer rir ou chorar no mesmo discurso, no palanque, nos debates ou nas entrevistas.

Haddad tem que se humanizar mais, ser o que ele realmente é, sem dar muita atenção a aspones e marqueteiros, abandonar o tom professoral, os números e as estatísticas, baixar a bola e entrar de sola, porque o jogo agora é de taça.

Como costumam dizer os jogadores de futebol, não tem nada decidido ainda.

Primeiro, ainda é preciso se classificar para o 2º turno e, para isso, tem que pedir a todo momento, com muita humildade, o apoio da militância, que é o grande diferencial e patrimônio do PT.

Nada de pensar agora em apoios no 2º turno.

A hora é de motivar a tropa que lhe é fiel, e agregar o máximo possível de indecisos, que estão apenas esperando uma palavra de luta e de carinho, para se convencer a votar em quem pode melhorar a sua vida.

O que vai decidir esta eleição, mais que a esperança no futuro, é o sentimento de saudade – saudade dos tempos da ditadura militar ou saudade dos tempos de bonança do Lula.

O que está em jogo é o futuro da nossa democracia.

É preciso sempre repetir isso, até o dia da eleição, falando numa linguagem simples, que o povo entenda, e se apaixone pelo candidato que a defende.

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