Ao dizer que não aceita derrota, Bolsonaro põe a democracia no pau de arara

No trio elétrico do evento de domingo [30/9] do “Mulheres com Bolsonaro” faltou apenas uma coisa: Mulheres. Mero detalhe.

Leonardo Sakamoto em 28/9/2018

“Pelo que vejo nas ruas, não aceito resultado diferente da minha eleição.” A frase é de Jair Bolsonaro, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da TV Bandeirantes, na sexta [28/9]. “Se você ver como eu sou tratado na rua e como os outros são tratados, você não vai acreditar. A diferença é enorme.”

Com isso, soa inocente a declaração do presidente do Supremo Tribunal Federal, José Dias Toffoli, que, no dia 24, afirmou que “qualquer que seja o resultado [das urnas], será respeitado”.

O candidato não pode estar tão descolado da realidade que acredite que a sociedade brasileira se resume aos fãs e apoiadores que encontra nas ruas ou a seus seguidores nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens, mesmo que sejam milhões.

Ou estar mergulhado em paranoia a ponto de desconfiar de todas as pesquisas que apontam as intenções de voto.

O discurso de Bolsonaro tampouco é voltado a incendiar a militância após sua longa internação hospitalar por conta do odioso atentado que sofreu e diante das revelações trazidas pela imprensa sobre seu patrimônio e das declarações catastróficas do candidato a vice em sua chapa.

Também não visa a plantar uma justificativa para caso de uma derrota.

A declaração deve ser encarada como o que ela é de fato: um ultimato à democracia.

Pois, do seu ponto de vista, não há uma Presidência da República em disputa nas eleições, apenas um ritual para confirmá-lo como próximo mandatário no dia 7 de outubro. Ao dizer que qualquer outro resultado será “fraude”, via urna eletrônica, ele joga fora a legitimidade do voto popular e põe em risco a estabilidade do país.

Já teremos muita dificuldade para evitar grandes comoções do lado derrotado, seja ele qual for, após o resultado ser confirmado dada a ultrapolarização em que nos encontramos. Ultrapolarização que nos impede de ouvirmos uns aos outros e faz com que seja tachada como mentira tudo aquilo que vai contra a visão de mundo das pessoas.

Nessa toada, Bolsonaro também deixou uma ameaça sobre a mesa na entrevista, afirmando que as Forças Armadas não tomariam a iniciativa de contestar o resultado, mas que não tolerariam erros do PT caso Fernando Haddad vença. “O que vejo nas instituições militares é que não tomariam iniciativa. Mas na primeira falta, poderia acontecer [uma reação] com o PT errando, sim. Nós, das Forças Armadas, somos avalistas da Constituição. Não existe democracia sem Forças Armadas.”

O general Hamilton Mourão, seu companheiro de chapa, afirmou, no ano passado, que “companheiros do Alto Comando do Exército” entendem que uma “intervenção militar” poderá ser adotada se o Judiciário “não solucionar o problema político” [referindo-se à corrupção]. E que os militares terão que “impor isso” e essa “imposição não será fácil”. E que ainda não é o momento, mas uma ação poderá ocorrer após “aproximações sucessivas”. E que o Exército teria “planejamentos muito bem feitos” sobre o assunto. Era sobre o governo Michel Temer, mas o que impede dos “planejamentos muito bem feitos” serem recauchutados?

Na verdade, não existe democracia com Forças Armadas passando por cima do poder civil eleito, mas isso parece ser um detalhe para essa chapa eleitoral.

A tática de torturar a realidade até que ela grite o que se quer ouvir se assemelha às usadas pelo coronel Brilhante Ustra, o finado torturador-açougueiro da ditadura, autor do livro que repousa, segundo o próprio Bolsonaro, em sua cabeceira. A legitimidade de ocupar a Presidência da República virá do voto, não do grito. A República tem a obrigação de, diante desses disparates, deixar isso claro a ele e a sua militância.

***

“FRAUDE NA URNA” COMETERÁ O CANDIDATO QUE NÃO RECONHECER A ESCOLHA POPULAR
Leonardo Sakamoto em 30/9/2018

Defender que Fernando Haddad representa o mesmo risco à democracia e às instituições que Jair Bolsonaro, em uma falsa equivalência, não é apenas um equívoco, mas um ato irresponsável.

Pois quando Bolsonaro ameaça torturar a democracia se as urnas não o ungirem eleito em outubro, afirmando e reafirmando que não reconhecerá resultado que não seja o de sua própria eleição, deixa – naquele momento – de ser candidato à Presidência e torna-se uma ameaça à República. E como tal, suas declarações devem ser tratadas, sem “mas” ou “por outro lado”. Pois elas estão muito além de qualquer insanidade realizada por outras candidaturas.

E olha que elas têm se esforçado.

O PT, de Fernando Haddad, tem seus crimes e pecados e deve continuar respondendo por eles e sobre eles perante a Justiça e à população independentemente de quem vencer. Mas para além das bravatas, nada indica que, até agora, represente uma ruptura à ordem democrática ou planeje algo nesse sentido.

O mesmo não pode ser dito da chapa eleitoral PSL-PRTB e apoiadores que têm pautado a eleição com temas como a possibilidade de um “autogolpe”, denúncias sem embasamento de fraude na urna eletrônica, ideias de reescrever a Constituição por um pequeno grupo de iluminados que não foram eleitos, censura a livros escolares, além de avisos de que as Forças Armadas podem tomar as rédeas da situação a depender do que aconteça.

Em qualquer país, isso seria um escândalo de grandes dimensões. Por aqui, parte da sociedade encarou com relativa normalidade ou indiferença, à exceção feita de milhões de mulheres. Humilhadas e cansadas da forma machista e misógina como são tratadas pelo candidato, elas lhe deram de presente uma alta taxa de rejeição e se organizaram nas redes e nas ruas para mostrar que não aceitam suas propostas de retorno ao século 19.

Muitos insistem em apontar um equilíbrio aonde ele não existe. Ao equiparar o PT, no outro prato da balança, dizendo que o partido também agirá de forma antidemocrática, lançam o debate num pântano em que todos estão cobertos de lama. O PT ainda precisa reconhecer muita sujeira e depurá-la, mas não essa lama que cheira a 1964.

José Roberto Toledo, da revista piauí, foi muito feliz ao afirmar que o protesto das mulheres neste sábado foi histórico, menos para quem assistiu pela TV. Um mar de gente se esparramou pelo Largo da Batata, em São Paulo, e na Cinelândia, no Rio de Janeiro, além de dezenas de outras cidades no Brasil e no exterior, nos protestos das “Mulheres Unidas contra Bolsonaro”, no sábado [29/9].

Foi pífia a cobertura ao vivo. Manifestações com dezenas de milhares de pessoas, ocorridas neste sábado, não tiveram a mesma atenção e tempo que receberam outras manifestações anti-PT nos últimos dois anos.

Essa discussão não é sobre a forma como cada um vai governar se eleito e quais objetivos pretende alcançar. Estamos falando sobre a subversão do sistema democrático. Não é tampouco um debate sobre conservadores e progressistas, mas a respeito de civilização e barbárie. Por que o problema não é a direita e a esquerda vencerem, isso faz parte do jogo, mas a barbárie ser relativizada, ponderada e aceita. A democracia não pode aceitar quem a utiliza visando à sua própria destruição.

A negação à barbárie deve ser inegociável para que Bolsonaro volte a falar de suas propostas para o país, ao invés de continuar ameaçando a população. Como reduzir o desemprego sem rebaixar a proteção social no país, por exemplo? Ou como garantir paz sem promover uma guerra?

Por fim, parte da militância política aprendeu com suas lideranças que tudo que vem da imprensa é mentira e que nós, jornalistas, somos seres que existimos para distorcer a informação. A incitação contra os jornalistas, ao longo dos anos, foi sendo feito por pessoas de partidos da esquerda à direita, mas também por empresários, formadores de opinião, fazendeiros, membros do Poder Judiciário,

Nestas eleições, as ações de militantes de Bolsonaro contra jornalistas – mensagens nas redes sociais e em aplicativos, ligações intimidatórias, terror psicológico, perseguição e ataques verbais em espaços públicos, difamação através da difusão de notícias falsas, ameaças de morte e agressões físicas – têm sido constantes.

A publicação de reportagens que trazem denúncias contra o candidato, por mais embasadas que estejam, funcionam como uma senha para o ataque, organizado por páginas que agem como milícias digitais. Isso é criminoso e deveria ter uma resposta rápida e forte por parte do Estado.

A intimidação sistemática a jornalistas e os traumas que isso provoca são sinais de que nossa democracia está convalescente. Qual o próximo passo? Camisas negras, como na Itália, saindo para punir, com sangue nos olhos e paus nas mãos, quem escreveu ou falou o que não deveria?

Temos um déficit de formação para a cultura política do debate e para a convivência com a diferença. Infelizmente, não somos educados, desde cedo, para saber ouvir, falar, respeitar e, a partir daí, construir consensos ou saber lidar com o dissenso. Não somos educados para a tolerância e a noção de limites. Parte dos brasileiros aprendeu que a violência é o principal instrumento de resolução de conflitos. Por falta ou fraqueza de instituições públicas ou sociais confiáveis que assumam esse papel, por achar que alguns possuem mais direitos que outros por conta de dinheiro ou de músculos, por alguma patologia que nunca consegui entender muito bem.

Ao final, se nada fizermos para qualificar esse debate, os gritos que ouviremos na janela serão, muito em breve, aqueles que pedem o nosso próprio sangue.

 

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