Antes de votar, saiba o que foi o AI5

Ricardo Kotscho em 23/9/2018

Faz 50 anos no dia 13 de dezembro, mas me lembro bem.

Ainda não me livrei desse pesadelo do Ato Institucional Nº 5, o golpe dentro do golpe que marcou a minha geração.

O Brasil de 2018 não deixa a gente virar esta página sombria da nossa história.

Nestes dias febris da antevéspera da eleição presidencial, que coloca frente a frente a civilização e a barbárie, a democracia e a ditadura, é bom lembrar como foi aquele tempo.

Minha neta Laura, de 15 anos, foi visitar esta semana a exposição sobre o AI5 no Instituto Tomie Ohtake, que abriu no dia 5 e ficará aberta até 4 de novembro – não por acaso, com os dois turnos da eleição no meio.

“Vovô precisa ir ver”, foi a ordem que ela me mandou, mas dificuldades de locomoção, como dizem nos aeroportos, me impedem de seguir este conselho dado a quem ainda pode andar no título deste texto.

Na verdade, nem preciso, porque eu vivi por dentro e na carne este período, como repórter principiante do Estadão, o jornal que ajudou a dar o golpe de 1964.

E, quatro anos depois, foi vítima dele, submetido a longa censura prévia, com jornalistas e diretores, agora irmanados na resistência ao arbítrio sem limites.

Agora, nada neste momento poderia ser melhor e mais necessário do que esta mostra de horrores, para revisitar ou conhecer o que fizeram do nosso país, meio século atrás, quando mergulhamos nas profundezas da ditadura militar.

Não pude ver com os próprios olhos, mas me trouxeram o folder da exposição assinado pelo curador Paulo Miyada, que termina assim:

“Uma das contribuições que a arte pode oferecer, mesmo durante os arcos mais sombrios da história humana, é sua capacidade de ampliar o campo do que pode ser dito e sentido frente aos limites e interdições da linguagem. Com isso em mente, é possível considerar que esta mostra não é apenas um memorial de silenciamentos e perdas, mas também de reinvenções e resistências, com apelos que se endereçaram à sociedade de então e continuam em aberto para os cidadãos de hoje”.

Eu tinha entrado como foca no ano anterior, meu primeiro emprego na grande imprensa, e o Estadão era o jornal de maior circulação, influência e prestígio no país.

Como repórter de geral, era encarregado de cobrir o movimento estudantil, quer dizer, os confrontos quase diários entre a polícia e os jovens que protestavam contra a ditadura.

Vivia-se num clima de medo e insegurança, assim como hoje, com a diferença de que o povo naquela época estava nas ruas e alguns bravos parlamentares denunciavam os crimes da ditadura no Congresso Nacional.

Pela cara assustada dos colegas mais velhos, sabia que algo de grave estava para acontecer, mas não tinha ideia do que viria.

Na página 45 do meu livro de memórias (Do Golpe ao Planalto: Uma Vida de Repórter, Companhia das Letras, 2006), relembro como foram aqueles dias.

“O pior ainda estava por acontecer. Na madrugada de 13 de dezembro, dia em que Costa e Silva editou o Ato Institucional Nº 5, o principal editorial do jornal, na página 3, trazia o premonitório título “Instituições em frangalhos”. Informado por algum dos vários colaboradores do regime infiltrados na redação, o delegado Silvio Correia de Andrade, da Polícia Federal, invadiu a oficina, que dava para a rua Martins Fontes, e gritou a ordem: ‘Parem as máquinas!’”.

“No começo da noite, dois policiais à paisana da Divisão de Diversões Públicas da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo chegaram à redação para examinar o noticiário político. Era o início oficial da censura prévia. Enquanto eles se aboletavam em volta da mesa de Oliveiros Ferreira, o secretário de redação, nós nos reuníamos para ouvir o pronunciamento do general Costa e Silva num rádio portátil posto sobre a mesa de Clóvis Rossi, o chefe de reportagem”.

“No silêncio do ambiente destacava-se a voz grave do general-presidente, que não deixava nenhuma dúvida nas suas palavras: meninos, a brincadeira acabou. O Brasil entrava no quinto ato. Era um golpe dentro do golpe – a ditadura total, sem disfarces, com mais cassações de mandatos, fechamento do Congresso Nacional e fim das liberdades e direitos individuais, começando pela censura prévia”.

É isso que queremos de volta?

Já pensaram no que pode acontecer com o país se for vitoriosa a chapa beligerante do capitão reformado e do general de pijama que está encantando a classe média, grandes empresários daqui e de fora, o mercado financeiro e setores da grande imprensa, exatamente os mesmos que atiçaram os militares a dar o golpe de 1964?

As instituições estão novamente em frangalhos e não podemos correr este risco.

Laura e meus outros quatro netos não merecem viver o que nós sofremos 50 anos atrás.

Ninguém merece. Nós não temos o direito de esconder deles o que está acontecendo para que esta tragédia não se repita.

Ficha técnica
Instituto Tomie Othake
Av. Faria Lima 201 (Pinheiros, São Paulo)
Exposição aberta até o dia 4 de novembro, das 11h às 20h, de terça a domingo.
Entrada gratuita.

Os comentários sem assinatura não serão publicados.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: