“Pedimos desculpas pelo mal-entendido”: Como a Folha trata artigos pró-Haddad e pró-Bolsonaro

Mauro Donato, via DCM em 13/9/2018

Num momento crucial para o país, quando coturnos voltam a ser os calçados que falam por seus donos, a mídia tem – ou deveria ter – a responsabilidade de atuar pela democracia de modo contundente. Nem que seja por puro interesse, pois sem democracia a mídia não é nada, não serve para nada.

Cresce aos olhos, portanto, que um artigo publicado na Folha de S.Paulo (“Juntos, Haddad e Manuela trazem esperança de retomada democrática”) que enaltece o regime, venha acompanhado de um post scriptum em forma de “alerta”:

“Esclarecimento: trata-se de um texto de opinião que foi publicado sem indicação de autoria. Pedimos desculpas pelo mal-entendido”.

Desculpas? Mal-entendido? As desculpas são pelo lapso de não haver citação ao autor? Mas e quanto a “mal-entendido”? O jornal não concorda com a opinião e adotou um modo enviesado para não se comprometer?

O texto era de autoria de Luis Rheingantz, Pérola Mathias e Ricardo Teperman, e seu título auto-explicativo: a oficialização de uma chapa cuja formação original tem a preferência de intenção de voto para a maioria do povo, mas que está mantida atrás das grades.

Curioso é que, no dia seguinte à publicação do artigo em defesa de Haddad, Leandro Narloch publica uma cretinice na qual afirma ver “graça em Bolsonaro” e nenhum sinal amarelo consta no rodapé.

Intitulado “Não deveria, mas acho graça em Bolsonaro”, Narloch, que sequer tem originalidade para criar termos pejorativos no intuito de subestimar seus opositores e dá copy/paste no “inteligentinho” de Luiz Felipe Pondé, gasta papel e tinta para confirmar-nos que tudo o que vem depois do “mas” é o que importa.

Assim, a cada parágrafo Narloch cita uma abominável característica do militar candidato para, em seguida, engatar um “mas”. O jornalista declara ter amigos gays, “mas solto uma gargalhada quando Bolsonaro diz que vizinho gay desvaloriza o imóvel”.

Para o colunista da Folha, Bolsonaro é estúpido e preconceituoso, “mas é irreverente que só”. O capitão reformado, no fundo, “se esforça para parecer mais irreverente e maldoso do que realmente é”.

Leandro Narloch assimila discurso do próprio Bolsonaro, para quem tudo “é brincadeira” e endossa a decisão do ministro Alexandre de Moraes que absolveu o candidato do PSL da acusação de prática de racismo. Ambos se referem como grosseria, equívocos, termos mal colocados, “mas” não racismo, nem injúria, nem nada. Apenas chatices do politicamente correto.

Então é isso? Num texto favorável a Fernando Haddad o jornal corre para explicar que aquilo nada tem a ver com a posição editorial, ao passo que um artigo que busca tornar Bolsonaro um “cara normal”, está tudo bem?

Antes que o leitor considere exagerada a crítica, precisa ter ciência que o editorial da Folha de hoje não deixa dúvidas de seu posicionamento: “Dado que o candidato (Haddad) tem chances reais de vitória, a tentativa de associá-lo à memória dos anos Lula, somada a uma discussão programática rasa, eleva os riscos de novo estelionato eleitoral”.

Pelo visto, para parte da mídia que “soube sobreviver” durante a ditadura, militares quererem tomar o poder com o aval do voto não é estelionato eleitoral.

Faz sentido suavizar um monstro truculento que representa “os profissionais da violência”? Tem cabimento escrever algo meio que querendo justificar as decisões de um Judiciário que a cada dia goza de menos credibilidade e respeitabilidade?

Enquanto Bolsonaro pode chamar pessoas de “vadias, vagabundas, quilombolas que não servem nem para fins de reprodução” e desmiolados veem graça nisso ao invés de considerar o que de fato essas ofensas são – crimes – gente como a modelo negra Bárbara Querino está condenada injustamente a 5 anos e 4 meses de prisão por um roubo de carro cometido em uma data em que ela estava em outra cidade (a única “evidência” da autoria é seu cabelo crespo). Para ela e demais jovens em situação idêntica, não há “mal-entendido” a ser relevado.

Fico curioso para saber se o general Mourão considerará uma “irreverência” a fala de Ciro Gomes que ontem, em sabatina do jornal O Globo, chamou-o de “jumento de carga” e se Narloch tentaria convencê-lo disso. Generais não costumam ver graça em nada. Eles prendem e arrebentam.

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