Fernando Horta: Os planos A, B e C das elites brasileiras

Fernando Horta em 12/9/2018

Já é possível pensar sobre o absurdo das eleições de 2018 com um pouco de clareza. A Lava-Jato cumpriu o papel que os liberais pensaram que ela cumpriria: retirou Lula ilegalmente das eleições. Contando com ajudas de última hora dos iluministas e ex-progressistas Barroso e Fachin. Carmem Lúcia e Rosa Weber jogam um papel deprimente, em descompasso com a luta das brasileiras, que já somam mais de 900 mil contra Bolsonaro.

O que a elite brasileira não esperava era que a Lava-Jato fosse realmente libertar o fascismo encruado do judiciário, que já se lançava contra o PMDB e agora contra o PSDB. A prisão de Beto Richa é demonstração de que as togas se transformaram em morcegos a aterrorizarem a República. O Ministério Público parece uma pomba-gira gritando no meio da noite. Não acho que Richa é inocente. Não acho do verbo “eu acho” e “você pode achar diferente”. Nenhum de nós viu o processo. De qualquer forma, a 30 dias das eleições, prender um governador, candidato ao senado enseja as perguntas: se havia provas, porque esperaram até agora? E se não há, para que prenderem um candidato?

Em todo o lugar que se desenvolveu o fascismo, ele sempre precisou dos juristas. O fascismo troca a política pela norma. É a ditadura da “ordem”, o império da punição. A política dá lugar ao exercício do poder, e poucos recordam que o Direito sempre é feito por alguém e com algum objetivo. Em todos os lugares, o fascismo perverteu a lei para atacar seus opositores, ao mesmo tempo que fazia da ritualística vazia do judiciário a legitimidade da aniquilação política dos inimigos.

No Brasil não é diferente.

Tampouco são diferentes os programas das elites. Eu diria até que as elites brasileiras são muito menos capazes intelectual e politicamente do que eram as europeias no período entre-guerras, em que o nazi-fascismo aflorou. Seus planos ficaram muito evidentes para as eleições de 2018.

O “Plano A” era retirar Lula, amassar a esquerda com a força das togas e dos “profissionais da violência”, apresentar um mentecapto incapaz e violento como alternativa a um gestor competente, benevolente, moderno e experimentado. Assim, esperar o voto maciço em Alckmin. Para isso, Meirelles se diz “candidato do governo” e descola o candidato do PSDB do fracasso que é o governo Temer. Neste arranjo, a Lava-a Jato prepara Palocci para os “efeitos especiais”, caso a esquerda se mostre resiliente. O plano era quase perfeito.

Ele, contudo, não imaginava que a vaidade seria um obstáculo. Temer virou youtuber a lembrar a todos que a ele ainda não foram concedidas as garantias para não ir preso, e que ainda pode dificultar muito as eleições. Ninguém imaginava que Bolsonaro, sempre tão covarde, se imaginaria um Lula ou um Brizola e iria para “os braços do povo” sem um colete ou uma segurança. A covardia perdeu para a vaidade e a facada lhe rendeu míseros 4% de crescimento, que devem se dissipar na medida que ninguém tem empatia por aberrações fascistas.

O PT e Lula também não colaboraram com o plano. Lula se ofereceu como uma pedra na garganta da Justiça, enquanto o Partido dos Trabalhadores segue aumentando seus filiados e capitalizando na incompetência e descaramento do judiciário brasileiro. A ONU é apenas mais um potencializador desta estratégia. Se Lula já é bastante indigesto, a dupla Haddad e Manuela parece afinada.

Eis que surge o plano B. No plano B, a ideia é eleger o monstro e entregar os corruptos do PSDB para saciar a fome de violência dos fascistas. Beto Richa é o aperitivo, já que Gilmar Mendes escondeu o suculento Paulo Preto do apetite dos cães raivosos. Aécio, como se sabe, seria o “primeiro a ser comido”, mas está tão inferiorizado que nem como “boi de piranha” está servindo mais. As elites ricas deste país que pensam em governar com o monstro, através do tal “Paulo Guedes”, desconhecem, todavia, a história. O fascismo não pode ser detido nem pela democracia, nem pelo dinheiro. Depois de estabelecido, ele engole a todos e não tem medo de incendiar, esfaquear, matar e torturar quem quer que seja. O plano B, aliás, foi exatamente o plano da plutocracia da Alemanha de Weimar. Hitler acabou com ele com a Noite dos Punhais de 1934 e a Noite dos Cristais em 1938.

Se pensam poder controlar Bolsonaro, creio que deveriam estudar História do século 20.

O plano C é a divisão da esquerda através do cavalo de Tróia Ciro Gomes. Com uma vice conservadora, mas ungida pela sororidade com Dilma, Ciro é mais sinuoso que Marina no discurso. Enquanto acena para a militância de esquerda com uma fala nacionalista, repete todo o mantra neoliberal como teoria muda. Defende obsessivamente o controle das “contas públicas”, discursa pela “eficiência do Estado” e o “aumento da produção” como forma de solucionar todos os males. Não bastasse a falta de rigor nas definições anteriores, seu principal assessor econômico avisa aos quatro ventos que vai privatizar muito.

Com um Alckmin que simplesmente não consegue sair do volume morto; um Ciro tecnocrata, com uma vice latifundiária de volta às origens conservadoras seria uma boa alternativa à incógnita fascista. Bastaria que Ciro acenasse com a possibilidade de aceitar uma composição com a centro-direita e com os interesses internacionais. Ocorre que Ciro já fez isto e de forma eloquente. Não apenas a história político-partidária de Ciro mostra a absoluta zona de conforto do candidato com os programas da direita “civilizada”, como já na campanha Ciro elogiou a Lava-a Jato, cortejou o DEM e o PP e admitiu que para fazer reformas “é preciso negociar”. Os gritos de “acabar com o rentismo”, “retomar o pré-sal” e “revogar as leis trabalhistas” são apenas isto mesmo… gritos para tirar a atenção de que qualquer um destes objetivos necessitaria de um acordo legislativo que as bancadas que Ciro busca apoio jamais aceitariam.

De qualquer forma, um amigo antigo de Tasso Jereissati, ex-ministro de Itamar Franco, colega de partido de Fernando Henrique e que nos seus 36 anos de vida pública nunca pisou num partido de esquerda é muito mais palatável do que Fernando Haddad para a nossa plutocracia. Antes que digam, o atual PDT que votou a favor da reforma trabalhista faria Brizola “dar de relho” em todos. E sim, uma enorme quantidade de políticos que haviam sido “expulsos” por “desobedecer” o partido, já foram reinseridos nos quadros do trabalhismo brizolista. A política é mesmo “dinâmica”.

Assim como no “esquema infalível” de Feola, em 1958, faltava combinar com os russos, a plutocracia brasileira esqueceu-se de combinar com o povo. O nervo exposto que é Lula preso e a impossibilidade de controlar o fascismo tornaram o jogo das eleições de 2018 bastante perigoso. A verdade é que todos os jogadores já estão quase com as apostas máximas e faltam poucas cartas a serem abertas.

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