O MP, um tucano, uma denúncia e o modo de noticiar

Leticia Sallorenzo, a Madrasta do Texto Ruim em 6/7/2018

Ontem [5/9], mostrei como os jornalões falaram da denúncia fajuta do MP contra o Haddad (fajuta, sim. Quem sobreviver à reportagem de O Globo e chegar até o final vai ver que prova, mesmo, não tem nenhuma). Minutos depois de enviar meu texto de ontem pra linda da Lourdes Nassif daqui do GGN, que o publicou, começaram a pipocar as notícias da denúncia do MP contra o Alckmin. O que é excelente para, no contraste, mostrar a vocês como construir uma manchete suave prozamigo.

Então. Foi assim que os jornais deram a denúncia do MP contra Alckmin:

1) MPE acusa Alckmin de improbidade no caso Odebrecht (Estadão, capa)
2) Alckmin é alvo de ação por improbidade (Estadão, interna)
3) Tucano diz que não há fato novo e critica autor (Estadão, interna)
4) Promotor apresenta ação de improbidade contra Alckmin (Folha, interna)
5) MP de São Paulo denuncia Alckmin por improbidade (O Globo, capa)
6) MP de São Paulo entra com ação de improbidade contra Alckmin (O Globo, interna)

É muito interessante observar os papéis semânticos dos sujeitos. Quando o sujeito é MP / Promotor, temos construções agentivas, que apresentam um sujeito (sintaxe) /agente (semântica)/ tópico (pragmática) com forte poder de alterar o estado final do objeto direto (sintaxe) /paciente (semântica) /foco (pragmática).

Estamos falando de figuras/instituições do poder judiciário que, semanticamente, desempenham uma função com poder (estou na esfera da Gramática, lembre-se disso.)

Ainda assim, é interessante observar que os verbos que esses sujeitos acionam vão dos poderosos denuncia / entra [com ação] ou acusa, mas também acionam o suave “apresenta [ação]” (4).

A manchete interna do Estadão (2) é bem interessante pelo nó pragmático executado: o sujeito sintático/ tópico pragmático é Alckmin, que “é alvo de” ação. Alckmin não está mais no papel semântico de paciente, mas de tema/alvo. Trata-se de “entidade que sofreu um processo cuja causa é desconhecida, indireta ou não mencionada”. Bem diferente do paciente, cuja função semântica é sofrer alteração por parte do agente. Lindo isso, não? Vai lá na manchete e procura quem executou a ação contra o Alckmin, que você não vai encontrar – a referência está apenas no título da capa e no texto que segue a manchete (2).

Outra coisa linda do Estadão é perceber que houve uma reportagem apenas para ouvir o lado do tucano denunciado. Ontem, no texto de O Globo, Haddad ganhou pouco mais de uma dezena de palavras no meio / final da notícia da denúncia do MP. Alckmin ganha reportagem específica para sua defesa.

As teorias do jornalismo falam em valores-notícia para priorização de notícias mais ou menos importantes (joga no Google que você encontra um verbete de Wikipédia lindo e fofo que explica tudo esmiuçadinho). Teoricamente, todos os jornais deveriam dar igual prioridade a assuntos iguais.

Mas aqui no Brasil, até os valores-notícia são fraudados e superfaturados.

Até 7 de outubro tem chão pela frente – e eu estou ignorando o imbróglio das pesquisas de propósito.

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