A GloboNews e a miséria do jornalismo

Luis Nassif em 7/9/2018

A entrevista de Fernando Haddad à bancada da GloboNews é reveladora de um dos vícios mais entranhados no jornalismo brasileiro: a incapacidade dos entrevistadores de analisar realidades complexas.

Eles fazem um tipo de pergunta padrão e esperam uma resposta padrão para a qual já tem engatilhada uma tréplica padrão. Quando o entrevistado sofistica um pouco a análise e inclui outros elementos na resposta, provoca um curto-circuito nas cabeças dos entrevistadores. E eles não sossegam enquanto não receber a resposta padrão, para poderem rebater com a tréplica padrão.

Foram inúmeros os casos.

O mais insistente foi a história da autocrítica dos erros econômicos de Dilma Rousseff. Haddad admitiu os erros, enumerou-os e procurou situá-los no tempo. Analisou o período PT como um todo, para depois chegar aos erros. Ou seja, admitiu os erros. Mas alegou que só os erros, por si, não explicariam a queda do PIB, que houve um componente político relevante, no boicote conduzido por Aécio Neves e Eduardo Cunha. Ora, seria o gancho para uma belíssima discussão, muito mais rica, muito mais complexa. Mas os entrevistados não aceitavam.

– Quer dizer que o PT não admite os erros? A culpa sempre é dos outros? Como vamos acreditar que agora será diferente?

E não adiantava Haddad explicar os acertos dos dois governos Lula e dos dois primeiros anos do governo Dilma, e os erros posteriores de Dilma, para demonstrar que o erro não é componente intrínseco da política econômica do partido.

A mesma coisa quando confrontado com as propostas da campanha de Lula – coordenadas por ele –, com os entrevistadores pretendendo enquadrá-las na tal matriz econômica do último período Dilma. Ou quando tentaram levantar o fantasma do tal mercado contra as ideias de Haddad, que rebateu com uma reportagem da Reuters, publicada no The New York Times, com CEOs de grandes empresas elogiando suas propostas.

Haddad levantou, em sua defesa, o tratamento das contas da prefeitura de São Paulo, que, no seu mandato, obteve o grau de investimento.

– Estamos discutindo política econômica, rebateu o entrevistador de uma resposta só.

Haddad teve que explicar que grau de investimento e contas fiscais são política econômica. E elas falam mais por ele do que qualquer carta aos brasileiros.

Todos os bordões foram levantados, inclusive a criminalização da política de campeões nacionais, ou os aportes de recursos ao BNDES. Em vez da discussão conceitual sobre a oportunidade ou não de se ter campeões nacionais, em vez de levar em conta a resposta de Haddad, de que os investimentos em campeões nacionais ajudaram a gerar empregos e melhorar o perfil das exportações brasileiras, limitavam-se ao branco-e-preto que difundiram nos últimos anos: toda política industrial é criminosa, e tudo o que o BNDES faz é criminoso.

Em nenhum momento questionaram as afirmações de Haddad de que a matriz econômica, defendida pela GloboNews e implementada pela equipe de Temer, não entregou o prometido. Quando chegava nesse ponto, mudava-se o tema.

Nem rebaterem sua afirmação de que os principais delatores da Lava-Jato estão soltos e gozando a vida em liberdade. Limitavam-se aos grandes agregados – Lula foi condenado por um juiz de 1a instância, um colegiado em 2ª instância e prisão mantida por um colegiado do STF, que não analisou o mérito das acusações.

Fosse menos diplomático, Haddad poderia lembrar que todos eles foram estimulados pelo clamor das ruas, do qual o principal combustível é a cobertura enviesada da Globo.

***

COM HADDAD, GLOBONEWS CRIA UM NOVO TIPO DE ENTREVISTA: JORNALISTA PERGUNTA E RESPONDE AO MESMO TEMPO
Ricardo Kotscho em 7/9/2018

A imprensa brasileira, sempre tão independente e isenta, acaba de criar uma nova modalidade de entrevista: o jornalista pergunta e ao mesmo tempo responde.

Levado ao palco da inquisição da GloboNews, Fernando Haddad parecia um monge tibetano meditando, tentando se defender, nas poucas brechas que lhe davam, enquanto seus ansiosos inquiridores se alternavam nas acusações contra Lula, Dilma e o PT.

Foi um bombardeio sem tréguas, na mesma quinta-feira do atentado a Jair Bolsonaro, sem dar tempo para o entrevistado respirar e falar com quem lhe interessava, ou seja, sua excelência, o eleitor.

Em Curitiba, nem Sérgio Moro e Daltan Dallagnol eram tão implacáveis com os petistas, a ponto de anunciar a sentença antes mesmo que o acusado e seus advogados pudessem se defender.

Nem se pode falar em debate, como se os entrevistadores fossem candidatos também, porque neste formato há pelo menos um mediador e regras mínimas de civilidade.

Isolado num canto do palco, sem direito a defesa nem moderação, Fernando Haddad, que é também o coordenador do programa de governo do PT, ainda no papel de vice e virtual substituto de Lula na próxima semana, saiu maior do que entrou no estúdio, e o jornalismo brasileiro mais uma vez se apequenou.

O programa serviu apenas para revelar, a quem ainda não o tinha visto nos palcos globais, que o ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo é um dos mais preparados e competentes políticos da nova geração.

Nem deram chances de o candidato petista apresentar suas ideias e projetos sobre o que pretende fazer caso seja eleito, contrariando as pesquisas e o desejo dos jornalistas da GN.

Como diria Moro, programa de governo com propostas para o país, não vem ao caso.

Com base na fajuta pesquisa Globo/Ibope sem o nome de Lula, divulgada pela emissora na véspera, os jornalistas queriam lhe provar que o PT não tem mais chances nesta eleição, depois de todos os malfeitos cometidos nos últimos anos.

O que mais me chamou a atenção nos colegas que o entrevistaram foi a uniformidade de pensamento, o interrogatório padronizado, como se um único jornalista tivesse preparado as perguntas.

Parecia um jogral bem ensaiado, sem direito a dúvidas ou ao contraditório.

Faltam agora exatos 30 dias para a mais bizarra e imprevisível eleição depois da ditadura militar, que nunca foi tão lembrada pelos saudosistas do regime fardado.

Jair Bolsonaro sobreviveu ao atentado de Juiz de Fora e está fora de perigo, mas nossa jovem democracia continua na UTI, correndo sérios riscos de vida, antes e depois da apuração dos votos.

Entrevistas como esta da GloboNews com Fernando Haddad certamente não contribuem para que o eleitor possa serenamente fazer as suas escolhas.

Só tornam o clima ainda mais beligerante nas ruas e nas redes sociais. É uma pena e é um perigo para todos, candidatos e eleitores.

Bom final de semana, se possível.

Vida que segue.

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