Manutenção do Museu Nacional custa 25% do valor de um deputado federal por ano

Via Yahoo Notícias em 3/9/2018

Incendiado durante a madrugada de segunda-feira [3/9], o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, na zona norte do Rio de Janeiro, sofria com problemas de manutenção. Subordinado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na teoria, o museu custa R$520 mil anuais aos cofres públicos – no entanto, desde 2014 não recebia o valor integral dedicado ao palacete bicentenário.

Dez das trinta salas de exposição estavam fechadas por problemas internos; uma delas foi interditada há cinco meses por ataques de cupins, o que motivou o museu a tentar reabri-la por meio de financiamento coletivo.

Em decadência, o edifício tombado que foi morada da família imperial no país apresentava paredes descascadas e fiação à mostra. Com entrada a R$8,00, também enfrentava dificuldades de arrecadação com a queda na quantidade de visitantes. Estima-se que nem mesmo 1% do acervo estava exposto.

Se, por um lado, a instituição sob cuidados do governo federal recebia pouco menos que meio milhão de reais para manutenção, por outro a União gasta cerca de R$2,14 milhões por ano com cada deputado. Os benefícios incluem, além do salário de mais de R$33 mil, auxílio moradia, verba de gabinete, gastos com alimentação, deslocamento e ajuda de custos. Ao todo, os 513 deputados federais custam R$1,1 bilhão por ano.

Para celebrar os 200 anos do museu, completados em junho deste ano, a instituição fechou um acordo com o BNDES para receber R$21,7 milhões voltados para atividades de restauração.

O diretor do museu, Alexander Kellner, disse em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo que o local necessitava de ao menos R$300 milhões – valor que poderia ser investido ao longo uma década. Ele também ressaltou que o último presidente a visitar o museu foi Juscelino Kubitschek (1956-1961) e que vinha tentando uma audiência com a Presidência da República para discutir projetos e expansão da instituição.

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O CARÁTER CRIMINOSO DAS POLÍTICAS DE AUSTERIDADE E A MORTE DO MUSEU NACIONAL
Alexandre Fortes em 3/9/2018

Na guerra, não há tempo para chorar.

Estamos assistindo à destruição do maior e mais importante acervo científico do país e os golpistas já estão querendo responsabilizar a UFRJ pela tragédia.

O Museu Nacional, além de tudo que significava como patrimônio e como instituição de pesquisa, era o ponto natural de concentração das Marchas pela Ciência, o berço ao qual sempre regressava nossa maltratada e aguerrida comunidade científica. O porto seguro de todos que teimam em acreditar que esse país pode ser soberano e usar nossa imensa capacidade de produção de conhecimento para oferecer uma vida digna ao seu povo.

A perda é imensurável e irreparável. É verdade que ela expõe nossa incapacidade de fazer investimentos estruturais mesmo nos momentos favoráveis.

Mas, acima de tudo, escancara o caráter criminoso das políticas de “austeridade” transformadas em emenda constitucional. Para que nunca mais se repita a “aventura” de gastar com educação, saúde, cultura, ciência e tecnologia. Especialmente depois que se comprovou que esses gastos podem fazer a economia girar em favor do desenvolvimento e da redução da desigualdade.

Um país que deixa de vacinar suas crianças, que assiste ao crescimento da mortalidade infantil, que assassina 60 mil pessoas por ano, que vai colocar um psicopata imbecil que ensina crianças de colo a atirar no segundo turno, vai por acaso investir em cultura e ciência?

A gente séria e responsável do país certamente ficará aliviada de continuar a visitar o Louvre, o Metropolitan e British Museum sabendo que a gentalha não terá mais nem o gostinho de ver uma múmia ou um dinossauro por oito reais num lindo espaço público da Zona Norte.

E o aparato político, midiático, policial e judiciário golpista já dá todos os sinais de que vai se apropriar dessa calamidade para lançar uma nova ofensiva contra as instituições públicas de ciência e tecnologia, seus servidores e dirigentes.

Alexandre Fortes é pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação UFRRJ.

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SOMOS TODAS E TODOS MUSEU NACIONAL!
Via Jornal GGN em 3/9/2018

O Brasil e sua comunidade científica estão de luto. A Sociedade de Arqueologia Brasileira soltou nota sobre o episódio nefasto para a nossa história. E alerta que não só a história da arqueologia brasileira, mas tantos outros campos do conhecimento científico, se perdem neste incêndio. E perdas de valor incomensurável ali se deram.

A Sociedade de Arqueologia aponta que todos os canais de tv e mídia ali estavam para cobrir a tragédia, mas o que se pode fazer diante de tanta perda?

Leia a nota a seguir.

Nota da Sociedade de Arqueologia Brasileira sobre o incêndio no Museu Nacional
As lágrimas correm em nossos rostos enquanto os dedos trêmulos procuram as teclas para expressar tamanha dor e indignação em poucas palavras. Não temos como manifestar o sentimento de perda e a profunda tristeza que tomam conta de todas e todos nós. Gostaríamos que as lágrimas pudessem apagar o incêndio em nossa própria casa, o endereço oficial da Sociedade de Arqueologia Brasileira, no Rio de Janeiro, ali na belíssima Quinta da Boa Vista.

A história da Arqueologia Brasileira, e de tantos outros campos do conhecimento científico, se fundem e se confundem com a do Museu Nacional. Coleções e mais coleções, acervos e mais acervos, bibliotecas, milhões de peças etc., todos de valor incomensurável à humanidade, ardem em chamas e viram cinzas. Bombeiros tentam apagá-las. Tudo parece em vão. “Está tudo perdido”, dizem colegas do Rio de Janeiro nas redes sociais. Emissoras de TV mostram o incêndio ao vivo, jornais divulgam mais e mais matérias sobre o assunto e muitos de nós, à distância, não sabemos o que fazer para ajudar a reverter a situação.

O que dizer sobre isso tudo isso no calor da hora? Misturas de dor, indignação e tristeza tomam conta de nossos corações. Ali foi a residência de um rei, sabemos, mas também a casa de tantas outras pessoas que por lá passaram em busca de conhecimento, formação acadêmica e tantos outros propósitos. Somos testemunhas do clamor dos colegas do Museu Nacional por apoio e recursos para restaurar o prédio e melhor salvaguardar tudo aquilo que abrigava. São duzentos anos de história. Vivenciamos ali a formação altamente qualificada de tantos profissionais e de estudos em andamento, os quais agora estão comprometidos. Luzia, um dos mais antigos esqueletos humanos encontrados nas Américas, estava lá. Múmias egípcias, fósseis, documentos escritos, artefatos de origem indígena e tudo o mais, tudo em cinzas.

Sem mais palavras, a Sociedade de Arqueologia Brasileira, ainda profundamente abalada, entristecida e enlutada, manifesta total solidariedade à Instituição e a todos os colegas de lá, repudia toda forma de negligência por parte de autoridades governamentais, as quais desde longa data tomaram ciência da necessidade de restauração da Instituição e praticamente nada fizeram, e ainda registra a disposição inabalável para somar naquilo de estiver ao seu alcance para somar na luta do Museu Nacional.

Um país que não valoriza sua memória e seu patrimônio cultural está fadado à desgraça, ao atraso, à dominação e o seu povo a não saber de onde veio, quem é e para onde deve caminhar rumo à construção de um país mais solidário, justo e feliz.

Somos todas e todos Museu Nacional!

Brasil, 3 de setembro de 2018.

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