Como conversar e entender os eleitores de Bolsonaro?

Maria do Rosário e Jair Bolsonaro discutindo em audiência que tratava sobre a cultura do estupro.

Para especialistas, o ódio disseminado nas redes tem como pano de fundo o uso político de um afeto comum a todos: o medo.

Carol Scorce, via CartaCapital em 17/8/2018

Um discurso não é apenas a fala de uma pessoa, mas o que essa fala cria em um contexto. É comum, em especial na discussão feita dentro das redes sociais, encontrar comentários que dizem respeito ao contexto político carregados de ofensas, palavrões e intimidações. É o discurso de ódio emergindo na crista de uma onda conservadora que avança em todo o mundo.

Em tempos de eleições, é oportuno falar, como pondera o professor da USP e psicanalista Cristhian Dunker, sobre a função política dos afetos. É verdade que a agressividade e o conservadorismo não são prerrogativas de apenas um ou outro político, ou do seu respectivo discurso político. Este ano, no entanto, o candidato à presidência pelo Partido Social Liberal, Jair Bolsonaro, possui a maior fatia do sermão reacionário.

A cientista política e professora da PUC/SP Rose Segurado, acredita que assim como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Bolsonaro responde ao fenômeno do homem comum que se viu contemplado nos espaços das novas mídias, em especial nas redes sociais, por questões que de modo geral o “politicamente correto” não permite.

É verdade que eleição após eleição cresce o debate político feito dentro das mídias digitais. Na mesma medida o candidato e seu respectivo discurso têm força nas redes sociais. Segundo o Datafolha, entre os eleitores do deputado federal com acesso à internet, 87% têm conta no Facebook, e 40% deles dizem compartilhar noticiário político-eleitoral na plataforma; 93% têm conta no WhatsApp, e 43% declaram disseminar o conteúdo.

Também segundo o Datafolha, 60% dos eleitores de Bolsonaro têm entre 16 e 34 anos. Desses, 30% têm menos de 24 anos. Justamente os mais novos são o que estão entrando pela primeira vez no debate sobre política.

“No final, é uma fala cheia de desinformação e preconceito, e extremamente perigosa para uma democracia. Não se fala hoje que o Holocausto foi uma coisa boa, mas nas redes tem gente propagando isso. Isso é feito para ancorar o ódio e a dominação contra determinados sujeitos da sociedade.”

O salvador da pátria
Ainda segundo Rose Segurado, em uma eleição marcada pela aversão da população sobre casos de corrupção, que atingem políticos de direita e esquerda, pelo medo da violência crescente, e sem recursos adequados para uma vida boa e íntegra – como saúde, educação, emprego e boas condições de trabalho –, a figura do salvador da pátria é tentadora. Não por acaso muitos dos apoiadores de Jair Bolsonaro o chamam por “mito”.

“O candidato já reconheceu que de alguns assuntos, como economia, ele não entende, mas que ele sabe escolher quem entende. Para outras questões ele dá respostas simplistas. Parece que ele vai resolver os problemas quase que de maneira sobrenatural, e convence que vai”, afirma a professora.

Para Dunker, a sociedade brasileira vive, em função da crise econômica e política, um momento de inversão de expectativas, e nesse momento Bolsonaro parece encarnar a figura que ele chama de “pai maior”, que seria como “um outro capaz de resolver os problemas por mim”.

Para dialogar com esse sintoma é preciso que o eleitor não seja infantilizado, e consiga compreender que não está fora do mundo, olhando os problemas de cima, mas é alguém que está nele e de uma maneira ou de outra influi para que as coisas estejam como estão. Na psicanálise é caso clássico de como os indivíduos saem da minoridade e vão para a maioridade.

“As pessoas precisam ser estimuladas a ter o arbítrio nas mãos, ter voz própria. Reforçar seus laços comunitários e sentir solidariedade é um dos caminhos para reverter o medo em uma ação positiva.”

Você tem medo de quê?
Uma das primeiras bolas levantadas pelo candidato que quicou para todo lado é a defesa de “que o cidadão de bem tenha porte de armas para poder se defender e defender sua família da violência”, assim como uma espécie de “licença para matar” para policiais que se envolverem em tiroteios.

O eco desse discurso radical pode provocar efeitos diversos, como aumentar a sensação de insegurança e por consequência gerar medo. “O ódio é um afeto complementar do medo. Ele ataca uma população que está desvalida e desamparada, e que pelo ódio sai da impotência, da incapacidade e age demasiadamente.”, afirma o psicanalista.

Uma das maneiras mais simples de entender e conversar com que está sendo dirigido pelo medo é perguntar objetivamente: você tem medo de quê?

“As pessoas temem a violência, mas mais ainda a repercussão dessa violência. O Bolsonaro aglutina todos os medos da população na criminalidade como um argumento monovalente, e isso não corresponde tão bem aos fatos. É importante tratar o medo diversificando ele. A gente não tem medo só da criminalidade, mas da falta de futuro previsível, das dificuldades em pagar a faculdade, em fazer frente às contadas da casa. E então questionar, como vamos resolver esses outros medos?”, explica Dunker.

***

“SE CONHECÊSSEMOS NOSSA HISTÓRIA, BOLSONARO NÃO SERIA CANDIDATO”
Para filho de Vladimir Herzog, retomada das investigações do assassinato de seu pai abre um novo capítulo para que erros do passado não se repitam.
Carol Scorce, via CartaCapital em 1º/8/2018

Apoiador da ditadura militar no Brasil, o presidenciável Jair Bolsonaro foi mais uma vez incitado a falar sobre o período de exceção na segunda-feira [30/7], durante entrevista ao programa Roda Vida. Para o candidato, os arquivos da ditadura devem ficar no passado.

Antes disso, na mesma entrevista, o deputado afirmou que a tese de que Vladimir Herzog se suicidou é factível, “mas ele não estava lá para saber”. O jornalista foi morto nos porões do DOI-Codi em outubro de 1975, 24 horas depois de prestar depoimento às autoridades da repressão.

As declarações de Bolsonaro aconteceram no mesmo dia em que o Ministério Público Federal reabriu o inquérito sobre o assassinato de Vlado. Além disso, no início de julho, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) condenou o Brasil pela falta de investigação e sanção dos responsáveis pela morte de Herzog.

O tribunal questionou a aplicação da lei de anistia de 1979 para encobrir os responsáveis pela morte de Herzog e apontou o Estado brasileiro como responsável pela violação ao direito de conhecer a verdade e a integridade pessoal em detrimento dos familiares da vítima. Foi esta condenação que fez com que o Ministério Público reabre-se as investigações.

Para o filho do jornalista e presidente do conselho do Instituto Vladimir Herzog, Ivo Herzog, a investigação, o julgamento e as sanções aos responsáveis pela tortura e assassinato do pai são importantes para que a verdadeira história seja reconhecida como narrativa oficial, e para que não se cometa os mesmos erros do passado. “Tem muita gente que acha que temos que deixar o passado para trás. Isso não é possível. Só podemos virar a página da nossa história quando terminarmos de escrevê-la”, afirma Ivo.

Confira abaixo a entrevista de Ivo Herzog a CartaCapital.

CartaCapital: O senhor acredita que a reabertura do inquérito sobre o assassinato do seu pai na Justiça brasileira pode marcar um novo capítulo do caso do Vladimir Herzog e da história da ditadura militar?
Ivo Herzog
: O caso da morte do meu pai foi considerado pela Corte Interamericana como crime de lesa-humanidade. Agora a gente vai ver se o Brasil vai se posicionar como uma nação soberana, uma nação séria, honrando os tratados, ou se não é um país sério, que despreza os acordos feitos com a comunidade internacional.

Eu parto do pressuposto de que o Brasil que irá honrar esses contratos e obedecer à determinação da Corte. E acredito que o caso da morte do meu pai abre ainda mais as perspectivas para que todos os que sofreram na ditadura tenham suas histórias reescritas.

O principal embaraço para isso não acontecer é a Lei da Anistia?
A Lei da Anistia não é uma lei legítima, ela foi feita num momento de exceção da nossa história por um Congresso biônico, então ela não possui validação democrática. Ela foi criada por uma imposição do regime para ter um instrumento que os protegesse. É uma lei que precisa ser debatida pela sociedade e o entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre ela revisto. Enquanto ela for mantida do jeito que está, impedindo que se faça justiça, a gente não consegue avançar.
Tem muita gente que acha que temos que deixar o passado para trás. Isso não é possível. Só podemos virar a página da nossa história quando terminarmos de escrevê-la. Existem centenas de páginas em branco.
A sociedade precisa compreender o que acontecia na época da ditadura – e tivemos um exemplo disso com os documentos estrangeiros que dão conta dos casos de corrupção dentro da linha de comando dos governos da ditadura. Ou seja, não eram só nos porões da ditadura que as coisas aconteciam, mas também nos palácios da ditadura, porque os processos começavam de cima.

O candidato à Presidência Jair Bolsonaro nega que Vladimir Herzog tenha sido morto pelos torturadores da ditadura. Como o senhor avalia esse tipo de discurso político?
Tenho certeza que se tivéssemos conhecimento pleno do que do que aconteceu na nossa história o candidato que está disputando a dianteira das eleições não existiria. Não faz sentido nenhum qualquer pessoa com mínimo de conhecimento e respeito pela humanidade apoiar alguém que defende os crimes cometidos no passado.

E no final apenas Bolsonaro tem sido incitado a falar sobre a ditadura no debate eleitoral…
Eu acho que os candidatos são incitados a falar sobre temas que são polêmicas em si. Cada candidatura tem suas próprias polêmicas. O Bolsonaro sofre processo por incitação à violência por ter citado o (coronel Brilhante) Ustra no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, onde fez apologia à tortura.
Além das questões da ditadura, quando o candidato é questionado sobre os programas que têm na área de saúde, educação, economia, ele foge da resposta, porque ele não tem. Ele é um factoide, uma aberração política. Como a nossa política está fragilizada, abre-se espaço para esse tipo de figura. Ele não tem nenhum conteúdo. Ficou mais de 20 anos no Congresso e tem um índice de desempenho baixíssimo. Se anexava a grupos que ele pudesse tirar alguma vantagem. A inconsistência dele só aparece agora que ele é efetivamente questionado.
O que sobra para a população são as manchetes de alguém que vêm com um discurso simplista, que diz que se temos problemas na segurança, então vamos matar o bandido, se temos problema na corrupção, mata o corrupto, se a democracia não funciona bem, vamos reinstalar a ditadura. É muito complicado ter um cara como esse pleiteando o cargo maior de um país como o Brasil.

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